Éric Weil

Éric Weil (Parchim, 8 de junho de 1904Nice, 1 de fevereiro de 1977) foi um filósofo francês de origem alemã. Autor de importante obra autoral e principal difusor de Hegel na França durante o século XX, definia-se filosoficamente, como um “kantiano pós-hegeliano”.

Éric Weil
Éric Weil
Nascimento 8 de junho de 1904
Parchim
Morte 1 de fevereiro de 1977 (72 anos)
Nice
Nacionalidade alemão naturalizado francês
Cidadania França, Alemanha
Ocupação filósofo, professor universitário
Empregador Université de Lille
Orientador(es) Ernst Cassirer
Alexandre Koyré
Obras destacadas Lógica da Filosofia

Estudou Medicina e Filosofia nas Universidades de Hamburgo e Berlim. Fez parte do Centre National de la Recherche Scientifique (1945-1956) e ensinou na École Pratique des Hautes Études até 1956, quando se transferiu para a Universidade de Lille. Após a tese de doutorado sobre Pomponazzi, em 1928, sob orientação de Ernst Cassirer, deu continuidade às pesquisas sobre o Renascimento, em particular sobre Marsílio Ficino.

Em 1933, quando Hitler assumiu o poder, deixou a Alemanha e foi para a França, onde permaneceu até sua morte em 1977. Deixou importantes obras: Logique de la Philosophie (1950), Philosophie politique (1956), Moral Philosophy (1961), Kantian Problems (1963).

Pensamento

Um dos filósofos mais importantes do século XX, a sua atualidade não reside no fato de ser contemporâneo, mas na singular captação do fenômeno da violência como um dos eixos de compreensão da nossa época. Estudou medicina e filosofia em Berlim e Hamburgo. Doutorou­-se em Filosofia em 1928 com uma tese sobre Pietro Pomponazzi dirigida por E. Cassirer, emigrou para a França em 1933, obteve a nacionalidade francesa em 1938, combateu o nazismo como soldado francês, esteve preso por cinco anos e, depois da guerra, ajudou G. Bataille a fundar a revista Critique em 1946. Conseguiu o diploma de Altos Estudos com uma tese sobre Pico de la Mirândola e, em 1950, apresentou a Lógica da Filosofia e Hegel e o Estado como teses de doutorado de Estado sob a orientação de Alexandre Koyré. Catedrático na Universidade de LilIe, de 1956 a 1968, publicou nesse período a Filosofia Política (1956), a Filosofia Moral (1961) e Problemas Kantianos (1963). De 1968 a 1974 lecionou em Nice, publicou a 2ª edição dos Problemas Kantianos e os dois volumes dos Ensaios e Conferências (1970,1971). Além das obras sistemáticas, sua produção filosófica conta centenas de artigos, conferências e recensões.

Escreveu um sistema de filosofia no qual o homem, violento e razoável, se compreende nas suas realizações históricas. A Lógica da Filosofia é um sistema de filosofia que expõe, de maneira ordenada e exaustiva, a pluralidade dos discursos filosóficos fundamentais possíveis na história. Esses discursos são chamados de categorias, não do ser, mas da filosofia, e são expostos segundo a ordem das atitudes puras ou irredutíveis, que se compreenderam e, portanto, se explicitaram coerentemente na história. A ordem de sucessão das categorias não é histórica, mas lógica: é a ordem das afirmações dos conteúdos de sentido por uma liberdade que nega um conteúdo anterior com o qual ela não mais se satisfaz. A ordem lógica das categorias não é a ordem imanente do autodesenvolvimento da razão, como em Hegel, mas a ordem das invenções da liberdade que, recusando um conteúdo antigo, tornado antigo por essa recusa, se dá um novo conteúdo. A sequência das 18 categorias que constituem a obra é a seguinte: Verdade, Não-senso, Verdadeiro-e-falso, Certeza, Discussão, Objeto, Eu, Deus, Condição, Consciência, Inteligência, Personalidade, Absoluto, Obra, Finito, Ação, Sentido, Sabedoria. Esse conjunto de categorias não é senão o conjunto das atitudes irredutíveis do homem no mundo, que se expressaram em discursos coerentes nos quais ele compreendeu as suas realizações e se compreendeu nas suas realizações.

Foto da biblioteca de Weil

A questão de fundo da Lógica da Filosofia é a irredutível dualidade de violência e discurso, constitutiva da vida humana e indicativa das suas possibilidades radicais. Essa dualidade só aparece como tal ao homem que escolheu o discurso, isto é, a compreensão de si nas suas realizações. A Lógica da Filosofia, portanto, quer apenas mostrar como o discurso do homem se constituiu livremente, a partir de uma atitude primeira pela qual ele se opôs à violência em vista do desaparecimento definitivo da violência, ou, o que é o mesmo, do contentamento razoável. A Lógica da Filosofia é possível porque o homem escolheu livremente o discurso e, tendo escolhido, se dá conta de que a sua outra possibilidade é a violência. A Lógica da Filosofia existe porque o discurso, no qual o homem compreende e se compreende nas suas realizações, é uma das suas possibilidades efetivamente realizadas. A tarefa da Lógica da Filosofia consiste não só em compreender o homem nas suas possibilidades realizadas, mas, sobretudo, compreender a compreensão que o homem tem de si mesmo nas suas possibilidades realizadas. Por isso a Lógica da Filosofia se define como “o lógos do discurso eterno na sua historicidade”, isto é, discurso que compreende tudo e a si mesmo como possibilidade humana escolhida livremente, discurso no qual se revela o ser eterno do homem no progresso da sua realização. Traçando a sequência dos atos livres de ruptura pelos quais o homem passou de uma atitude a outra, sem que essa passagem tenha sido exigida necessariamente pela atitude anterior, a Lógica da Filosofia mostra que o seu fundamento está na liberdade, e que ela apenas traça uma sequência de atos que só são compreensíveis depois de terem sido realizados, o que significa que o homem se compreende porque age e na medida em que assume como suas as ações do passado.

Encontramos aqui o traço definidor da compreensão que o homem tem de si mesmo, e que nos conduzirá à categoria constitutiva do político. O homem se compreende como ser agente, o que significa que ele se define como um ser de discurso, que age em vista do contentamento. Mas o homem só se compreende assim porque, por uma decisão livre, escolheu o discurso como instrumento de satisfação da sua negatividade. O homem pode, portanto, ser definido como o ser que, com a ajuda da linguagem, da negação do dado, busca libertar-se do descontentamento. Pela escolha do discurso como instrumento da negatividade, o homem se encontra na presença da Verdade como fundo do discurso. A partir dessa escolha fundamental, o homem se descobre como violência porque, tendo escolhido o discurso, ele sabe que sua outra possibilidade é a violência. A história das suas possibilidades realizadas será, portanto, a história das suas escolhas livres a partir da escolha fundamental do discurso que o situa na Verdade. É essa história que, sistematicamente, se desenrola na sucessão das categorias da Lógica da Filosofia.

A filosofia é uma das possibilidades efetivamente realizadas pelo homem do discurso agente. Enquanto possibilidade, a sua origem, como a origem de tudo o que é humano, encontra-se no desejo e na negatividade primitiva que caracterizam o homem. A realidade no interior da qual essa possibilidade se desenha é a realidade do homem, violento e razoável, que escolheu livremente a razão. A escolha da razão, segundo Weil, não é desrazoável, pois o razoável e o desrazoável só se opõem no interior dos limites da razão, mas é uma escolha a-razoável ou pré-razoável, mas não no sentido temporal. A filosofia não é mais que uma das possibilidades realizadas pelo homem do discurso agente, pela qual ele busca o contentamento na razão. A Lógica da Filosofia, por sua vez, é a tomada de consciência dessa possibilidade realizada, pela qual o homem descobre que, tendo escolhido a razão, pode agora fazê-lo com conhecimento de causa.

Articulando a sucessão das categorias do discurso filosófico como difrações do sentido, apresentado como a categoria constitutiva da filosofia, a Lógica da Filosofia fecha o círculo sistemático na atitude da sabedoria, que consiste em viver aberto à presença da verdade revelada como o fundo do discurso. Como reflexão da realidade no homem real, a filosofia nasce da negatividade do homem em busca do contentamento. Fruto de uma escolha da razão, ela surge como a possibilidade de superar a violência que caracteriza o homem enquanto animal. Assim, a origem, o segredo e o fim da filosofia consistem na eliminação progressiva da violência, dado que só esta pode impedir o contentamento do ser finito e razoável.

Para uma filosofia do direito, uma das contribuições mais expressivas de Weil é o pequeno livro intitulado Hegel e o Estado. Escrito como tese complementar à Lógica da Filosofia e publicado pela primeira vez em 1950, o livro provocou uma reviravolta na interpretação da Filosofia do Direito de Hegel, em cuja linha inserem-se os já clássicos trabalhos de J. Ritter, de S. Avineri, bem como os estudos de K. Löwith, de M. Riedel e de K. H. Ilting. Weil participou ativamente do renascimento hegeliano ocorrido na França dos anos 30. Tendo chegado a Paris em 1933, em tempo de frequentar o seminário de Kojève, depois de conseguir o diploma da Escola de Altos Estudos, dirigiu um seminário sobre a Filosofia do Direito de Hegel. Seu contato com a obra de Hegel prolongou-se até o final da sua vida. Na sua última aparição pública, em novembro de 1976, poucos meses antes da morte (1º de fevereiro de 1977), proferiu uma conferência sobre A filosofia do direito e a filosofia da história hegeliana, no “Centre de Recherche et de Documentation sur Hegel et sur Marx” de Poitiers. Hegel, junto com Kant e Aristóteles, é dos poucos filósofos presentes em toda a obra de Weil. Porém, Hegel está presente da única maneira digna da sua grandeza: ele está nachgedacht, isto é, repensado segundo aquele modo de proceder do próprio Hegel, que Weil define como a atividade de pensar o que outros pensaram antes de nós e, ao mesmo tempo, refletir sobre o que eles disseram, para constituir o que Weil chama de história filosófica da filosofia, uma história que não reúne simplesmente, mas reflete sobre o passado da filosofia presente e a reflete assim no seu passado. Hegel, ademais, está aufgehoben, isto é, suprassumido na obra de Weil, não como um ponto de referência exterior, mas como método, tal como este é definido pelo próprio Hegel no § 243 da Enciclopédia de Berlim: “O método é, dessa maneira, não uma forma exterior, mas a alma e o conceito do conteúdo, do qual ele só difere enquanto os momentos do conceito vêm também neles mesmos, em sua determinidade, a aparecer como a totalidade do conceito”. Finalmente, Hegel está dialeticamente presente na obra de Weil, não segundo a dialética exterior do entendimento, mas segundo a “dialética mais elevada do conceito”, definida no § 31 da Filosofia do Direito, “não como um fazer externo de um pensar subjetivo, mas como a própria alma do conteúdo, (alma) que organicamente produz seus ramos e seus frutos”.

Na obra de Weil, Hegel aparece como o filósofo que elaborou o conceito do Estado moderno e que formulou adequadamente o problema da articulação das diferentes esferas constitutivas do político: a da pessoa privada ou do direito abstrato, a da moral vida e da família, a da economia e, finalmente, a da política na qual todas as outras se encontram subsumidas na exigência de universalização. Tendo formulado o problema fundamental do Estado moderno, paradoxalmente, Hegel antecipa o anúncio da sua crise. De fato, a crise do Estado moderno pode ser formulada, filosoficamente, nos seguintes termos: o que faz com que um Estado seja moderno é, exatamente, o que faz com que o Estado moderno esteja em crise. Dito de outro modo: a particularidade do Estado moderno, vale dizer, a sua universalidade de princípio, é o que torna inviável a universalidade do Estado moderno particular.

Além dessa contradição entre o formal e o histórico, a reflexão weiliana sobre a Filosofia do direito de Hegel aponta para outra fonte da crise do Estado moderno. Trata-se aqui do problema fundamental do Estado moderno, que até o momento consiste na sua incapacidade de conciliar a justiça com a eficácia, a moral viva da comunidade com a racionalidade e, ao mesmo tempo, incapacidade de conciliá-las com a razão, entendida como possibilidade de uma vida sensata para todos, que seja compreendida como tal por todos. Talvez esteja aqui o grande desafio que a Filosofia política de Weil, escrita em meados do século XX, deixa em aberto aos pensadores políticos do século XXI. Com efeito, equacionado nesses termos o problema fundamental do Estado moderno, parece que ele só poderá ser resolvido na medida em que o Estado moderno particular for capaz de visar à realização do seu interesse, que consiste em trabalhar para a realização de uma organização social mundial em vista de preservar as particularidades morais que ele encarna. Isso porque, segundo Weil, o fim (nos dois sentidos do termo) dessa organização mundial é a satisfação dos indivíduos razoáveis no interior de Estados particulares livres.

Principais obras em português

  • Logique de la Philosophie, 1950 (Lógica da filosofia, São Paulo, 2012)
  • Philosophie Politique, 1956 ( Filosofia política, 2ª ed. São Paulo, 2011)
  • Philosophie Morale, 1961 (Filosofia moral, São Paulo, 2011)
  • Problèmes Kantiens, 1963 (Problemas kantianos, São Paulo, 2012)
  • Hegel et l'État, 1950 (Hegel e o Estado, São Paulo, 2011)

Referências

    • Actualité d'Eric Weil (Atas do colóquio internacional de Chantilly), Paris, 1984.
    • M. Perine, Filosofia e Violência, Sentido e Intenção da Filosofia de Eric Weil. São Paulo, 1987 (2ª ed. 2013; trad. francesa: Philosophie et violence. Sens et intention de la philosophie d'Eric Weil, Paris, 1991)
    • W. Kluback, Eric Weil. A Fresh Look at Philosophy, 1987.
    • Revista Síntese (ISSN 0103-4332), n. 46 (dedicado a Eric Weil), Belo Horizonte, 1989.
    • G. Kirscher, La Philosophie d'Eric Weil, Paris, 1989.
    • G. Kirscher, Figures de Ia Violence et de la modernité, Lille, 1992.
    • P. Canivez, Le politique et sa logique dans l’oeuvre d’Éric Weil, Paris, 1993.
    • M. C. Soares, O filósofo e o político, São Paulo, 1998.
    • M. Perine, Eric Weil e a compreensão do nosso tempo. Ética, política, filosofia, São Paulo, 2004.
    • M. Perine; E. Costeski, Violência, Educação e Globalização. Compreender o nosso tempo com Eric Weil, São Paulo, 2016.
    • S. de S. Camargo, Filosofia e política em Eric Weil. Um estudo sobre a ideia de cidadania na Filosofia política de Eric Weil, São Paulo, 2014.
    • E. Costeski, Atitude, violência e Estado mundial democrático. Sobre a filosofia de Eric Weil, São Leopoldo/Fortaleza, 2009.
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