Anauê
Anauê era a saudação empregada em exibições públicas pelos integralistas brasileiros, de modo semelhante às saudações dos fascistas europeus e à saudação nazista, por sua vez evoluídas da saudação romana.[1][2][3][4] Trata-se de um cumprimento de origem tupi, com evidente alusão ao "Heil!" nazista.[5][nota 1]

Foi incorporada como saudação oficial entre os integrantes do Movimento Integralista. Mais precisamente na "Era Vargas", no governo que ficou conhecido como "governo provisório" (1930 a 1934), seguindo o modelo integralista lusitano, foi criada a Ação Integralista Brasileira (AIB), cujos membros vestiam uniformes com camisas verdes e desfilavam pelas ruas como tropa militar, gritando a saudação supostamente indígena (alegam os integralistas) "Anauê!". Durante esse período aconteceu a Batalha da Praça da Sé, onde um numero de manifestantes antifascistas iniciaram com provocações como "morra o integralismo" e "fora, galinhas verdes".
Seu uso demonstra uma contradição do Movimento Integralista, uma vez que, embora promovessem uma moral cristã, negando a religião politeísta, anauê é uma expressão de origem indígena.[5]
Etimologia
De acordo com o lexicógrafo Marcel Twardowsky Avila, é possível que a saudação "anauê" tenha-se criado a partir da palavra de língua nheengatu indawé, que tem inawé como sua variante, significando "igualmente", "para você também". Tal palavra, por sua vez, surgiu do tupi antigo, por meio da junção entre endé ("você") e abé ("também").[7][8]
Já segundo Gustavo Barroso, um dos líderes da Ação Integralista Brasileira, a saudação seria uma junção de diferentes cumprimentos existentes na língua tupi.[1]
Contudo, para Luís da Câmara Cascudo, a palavra ter-se-ia originado da língua dos parecis, indígenas nuaruaques. Sendo um grito, significaria "unido-aos-outros-iguais, de solidariedade, de reunião, de agrupamento, de toque-de-reunir. O emprego como aclamação seria uma aclimatação da voz militar nos cerimoniais civis".[9]
Na cultura popular
Em 2019, Ernesto Araújo, o então recém-empossado ministro das Relações Exteriores do Brasil, terminou seu discurso com a expressão "Anauê Jaci", suposta tradução tupi de "Ave Maria". O acontecismo levantou hipóteses de associação entre o bolsonarismo e o integralismo.[10] Desconhecem-se, entretanto, registros históricos de tal tradução, cujo conteúdo, além de gramaticalmente impreciso, difere da versão da ave-maria existente no Catecismo na língua brasílica.[11]
Notas e referências
Notas
- Pode-se, nesse sentido, afirmar corretamente que anauê é uma saudação heil-hitleriana.[6]
Referências
- Silva, Rogério Souza (2005). «A política como espetáculo: a reinvenção da história brasileira e a consolidação dos discursos e das imagens integralistas na revista Anauê!». Revista Brasileira de História. 25 (50): 61–95. ISSN 0102-0188. doi:10.1590/S0102-01882005000200004.
De fato, a Ação Integralista Brasileira possuía todos os elementos de caracterização externa do fascismo, como a camisa-uniforme, nascida da camiccia nera de Mussolini, que nele era verde (como nos congêneres romeno e húngaro), tendo sido parda no nazismo, preta nos fascistas tchecos e ingleses, azul nos irlandeses e nos portugueses de Rolão Preto; e até dourada num agrupamento mexicano aparentado. Ou, ainda, o signo de conotação meio mística: fascio littorio, svástica, cruz de fechas, tocha e, no Brasil, o sigma somatório. Ou, também, a saudação romana, comum a todas as modalidades e que entre nós passou por um processo revelador de assimilação, identificando-se à saudação indígena de paz com o brado 'Anauê'. Resultou uma saudação nacional, peculiar, reveladora do indianismo que sempre reponta em nossos diferentes nacionalismos como busca do timbre diferenciador; mas que nem por isso deixa de ser manifestação do sistema simbólico do fascismo, geral.
- Payne, Stanley (1995). «Fascism outside Europe?». A history of fascism, 1914–1945 2 ed. [S.l.]: Routledge. p. 345. ISBN 978-1-85728-595-6.
The Integralists sought to achieve an authoritarian and corporatist state (an "integral state") that would foster a new multiracial—if anti-Semitic—Brasilidade, a new Brazilian "race" defined in cultural and historical rather than ethnobiological terms. Members of the movement wore green shirts and combined the fascist salute with the Brazilian Indian greeting of "Anauê."
- Barbosa, Jefferson Rodrigues (2015). «Chauvinismo e extrema direita: crítica aos herdeiros do sigma». São Paulo: Editora da UNESP – via Scielo Livros.
O figurino, com poucas modificações, permanece, saído diretamente dos anos 30. As botas, os quepes e o Sigma (que está para o integralismo como a suástica para o nazismo) atado ao braço deixaram de existir, mas a camisa verde está lá. O Sigma, agora mais discreto, aparece em prendedores de gravatas, pretas, como as calças e os sapatos. Só falta a saudação anauê, que costumavam fazer com o braço direito esticado. Engana-se, porém, quem pensa que a antiga doutrina atrai só saudosistas e remanescentes do auge do integralismo, época em que os "camisas verdes" chegaram a ser 1 milhão. Ao lado das cabeças brancas, jovens simpatizantes afirmam os valores da doutrina. Adequados, ao seu modo, aos novos tempos, os integralistas veem na Internet o grande instrumento para a divulgação de suas ideias.
- Fedrigo, Adamatti, Silva, Demari, Ávila, Camila, Bianka, Débora, Melissa, (16 de setembro de 2013). «ANAUÊ! O BRADO TUPI-FASCISTA DO DESDÉM AOS DIREITOS HUMANOS» (PDF). Universidade FEEVALE. XI Seminário de Estudos Históricos: A democracia ainda é a questão: Reflexões sobre a ditadura civil-militar e a comissão nacional da verdade: 5. Consultado em 14 de julho de 2022.
O movimento Integralista destacou-se no Brasil com um cada vez maior número de seguidores, que ficaram conhecidos como "camisas verdes" fazendo menção aos seus uniformes. Exibições públicas, típicas dos movimentos fascistas eram comuns no Movimento Integralista.5 Tratavam-se com um cumprimento de origem tupi-guarani, "Anauê!" com clara alusão ao "Heil!" nazista.
- FEDRIGO, Camila Paese (Setembro de 2013). «Anauê!: o brado tupi-fascista do desdém aos direitos humanos» (PDF). Universidade Feevale. A democracia ainda é a questão: reflexões sobre a ditadura civil-militar e a comissão nacional da verdade. 20 páginas. Consultado em 30 de dezembro de 2022. Cópia arquivada (PDF) em 14 de julho de 2022
- SIMI, Gianlluca (2015). «Anauê! Plínio Salgado e a guinada à direita do nacionalismo brasileiro». Consultado em 30 de dezembro de 2022
- AVILA, Marcel Twardowsky (2021). Proposta de dicionário nheengatu–português. São Paulo: Universidade de São Paulo. p. 325. 932 páginas. Cópia arquivada em 12 de agosto de 2022
- NAVARRO, Eduardo de Almeida (2013). Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo: Global. p. 9, 102. 624 páginas. ISBN 9788526019331
- GRECCO, Gabriela de Lima (20 de dezembro de 2022). «Fascismo além das fronteiras europeias? Ação Integralista Brasileira e o fascismo no Brasil». Locus: Revista de História (2): 202–222. ISSN 2594-8296. doi:10.34019/2594-8296.2022.v28.37336. Consultado em 30 de dezembro de 2022
- «Bolsonaro repetiu lema integralista ao encerrar discurso na ONU; entenda». Estadão. Consultado em 30 de dezembro de 2022
- SANTOS, César (17 de setembro de 2020). «Anuê Jaci: política externa e povos indígenas diante da inflexão conservadora e do bolsonarismo». Universidade Estadual Paulista. Cadernos de Campo (28). 18 páginas. Consultado em 22 de agosto de 2022. Cópia arquivada em 27 de maio de 2022