Cordia verbenacea

A Cordia verbenacea DC. pertence à família Boraginaceae que contém aproximadamente 100 gêneros, com mais de 2000 espécies distribuídas em todo o planeta. Ocorre ao longo de todo litoral brasileiro, sendo considerada, também, uma planta comum na Floresta Tropical Atlântica, possuindo vários nomes populares como maria-preta, maria-milagrosa e catinga-de-barão, sendo o mais comum a erva-baleeira, ou simplesmente baleeira. [1]

Erva Baleeira

Cordia verbenacea
Classificação científica
Domínio: Eukaryota
Reino: Plantae
Divisão: Magnoliophyta
Classe: Magnoliopsida
Ordem: Lamiales
Família: Boraginaceae
Género: Cordia
Espécie: C. verbenacea
Nome binomial
Cordia verbenacea
DC.
Sinónimos
Cordia curassavica (Jacq.) Roem. & Schult.
Varronia curassavica Jacq.

É amplamente utilizada para tratar processos inflamatórios sendo geralmente aplicada topicamente nas áreas atingidas. Foi utilizada pelo laboratório Aché para o desenvolvimento do Acheflan®, primeiro medicamento fitoterápico 100% nacional com registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), utilizado para o tratamento de tendinites crônicas e dores miofaciais. [1]

Características

Arbusto muito ramificado, ereto e aromático, com hastes cobertas por casca fibrosa e com altura de 1,5 - 2,5 m. Folhas simples, alternas, coriáceas, aromáticas de 5 - 9 cm de comprimento. As flores são pequenas, brancas e dispostas em inflorescências racemosas de 10 a 15 cm de comprimento (Lorenzi e Matos, 2002). Os frutos quando maduros apresentam a coloração vermelha. Ventrella e colaboradores (2008) desenvolveram um estudo morfológico e histoquímico dos tricomas glandulares das folhas de Cordia verbenacea, reconhecendo duas classes, globular e reniforme. Os tricomas globulares caracterizam-se pela secreção de um óleo essencial terpenóide, enquanto que nos reniformes ela contém principalmente compostos fenólicos, como os flavonoides. [2]

O gênero Cordia é distribuído nas regiões tropical e subtropical do mundo, ocorrendo na Austrália, Nova Caledônia, América Central, Guiana e no Brasil (Rapisarda et al., 1997). A espécie Cordia verbenacea é nativa do Brasil, encontrando-se do Ceará ao Rio Grande do Sul, preferencialmente na faixa de 500 a 1000m do litoral sempre acompanhando as áreas abertas da orla do Atlântico, onde é considerada planta daninha. [2]

Propagada usualmente por sementes, pode sofrer alterações no teor do princípio ativo em função da variação genética existente (Lameira, et al., 1997) e provavelmente por outros fatores. Souza et al. (2009), trabalhando com material de Montes Claros - MG, mostraram que o melhor horário para coleta das folhas para extrair o óleo essencial da planta é das 09 às 12h e por volta das 18:00 h, pois nesses horários obteve-se maior produção.[2]

Usos medicinais

Os indígenas utilizavam o extrato bruto das partes aéreas de Cordia verbenacea em processos antiinflamatórios por aplicação tópica. [2]

As preparações populares (tradicionais/garrafadas) empregando soluções hidroetanólicas de Cordia verbenacea (partes aéreas) são amplamente utilizadas para tratar vários processos inflamatórios e são geralmente aplicadas topicamente nas áreas atingidas. Estudos demonstram que Cordia verbenacea apresenta flavonóides como um de seus ativos terapêuticos (MATIAS et al., 2010), de modo que em estudos possam vir a apresentar atividade antifúngica. Ela já foi estudada quanto à sua ação antibacteriana por Rodrigues et al. (2012) se destacando no combate do Staphylococcus aureus e Escherichia coli utilizando seu óleo essencial, também apresentou uma considerável atividade atividade fungistática contra Candida albicans e Candida krusei. [3]

É administrada internamente na forma de chá para artrite, reumatismo e problemas de coluna (Silva Jr. et al., 1995). Lorenzi e Matos (2002) descrevem seu emprego em doenças osteoarticulares (artrite, gota, dores musculares e da coluna). [2]

O Formulário Nacional Fitoterápico da Farmacopéia Brasileira (ANVISA, 2011) descreve o uso tópico das folhas de Cordia verbenacea como antiinflamatório em em forma de infuso, como compressa ou em forma de pomada. [2] Além disso, a Cordia verbenacea faz parte da lista composta por 71 plantas com potencial terapêutico indicadas pelo SUS (Sistema único de Saúde) para estudos e posteriormente serem liberadas para consumo da população (BRASIL, 2006). [3]

Embora ainda não seja utilizado com essa finalidade, estudos demonstraram que o Acheflan® acelera a cicatrização de feridas em modelo de pele de rato, provavelmente devido ao seu envolvimento com o aumento da angiogênese e remodelação dérmica. [4]

Compostos Químicos

Os princípios ativos já identificados compreendem atualmente componentes do óleo essencial, com seu principal componente sendo α-humuleno e os flavonóides, principalmente a artemitina (MATIAS et al., 2010). [3] Sabe-se que os óleos essenciais são substâncias aromáticas presentes nas células ou glândulas especializadas de certas plantas usadas por elas para se protegerem de predadores e pragas, mas também para atrair polinizadores. Em outras palavras, os óleos essenciais fazem parte do sistema imunológico da planta. [5]Os flavonoides são pigmentos naturais presentes na maioria das plantas, cuja síntese não ocorre na espécie humana. Eles desempenham um papel fundamental na proteção contra agentes oxidantes, como por exemplo, os raios ultravioletas, a poluição ambiental e substâncias químicas presentes nos alimentos. Participam ainda de importantes funções no crescimento, desenvolvimento e na defesa dos vegetais contra o ataque de patógenos. [6]

A principal ação terapêutica da artemetina, isolada por Sertie et al. (1990), é como antiinflamatório e antiinfeccioso para uso externo em ferimentos e contusões. Também é indicada para artrite, reumatismo e problemas de coluna, quando administrada internamente na forma de chá (Pinto et al., 2000). [1]

O alfa-humuleno é um importante constituinte do óleo da Cordia verbenacea e foi designado como principal marcador químico do mesmo. O alfa-humuleno presente na Erva-baleeira atua impedindo a atividade de uma enzima chamada cicloxigenase 2 (COX 2), enzima responsável pela produção de prostaglandinas (uma das substâncias responsáveis pelas reações inflamatórias e seus sintomas), assim como outros antiinflamatórios e analgésicos já existentes no mercado, como o ácido acetilsalicílico, porém, sem efeitos indesejáveis.

Acheflan

O Acheflan® foi o medicamento derivado da Cordia Verbenacea lançado pela empresa Aché Laboratórios Farmacêuticos no ano de 2005.

Foi considerado o primeiro antiinflamatório tópico feito com base no extrato de uma planta brasileira, o que causou um impacto importante no cenário da indústria farmacêutica. Na série de trabalhos sobre a farmacologia de Cordia verbenacea em animais de laboratório não foram observadas níveis significantes de toxicidade aguda nos extratos ou nas substâncias isoladas nem por via oral nem tópica (Sertié et al., 1988, 1990, 1991 e 2005; Bayeux et al., 2002; Basile et al., 1989, Carvalho et al., 2004; Oliveira et al., 1998; Passos et al., 2007; Roldão et al. 2008). Sertie et al. (2005) mostraram que o extrato hidroalcoólico liofilizado administrado por via oral a ratos fêmeas ou machos antes do acasalamento ou nas fêmeas durante gravidez não afetou o ciclo das fêmeas nem o desenvolvimento normal dos fetos, nem a estrutura óssea, maturação sexual ou fertilidade deles. [2]

O desenvolvimento contou com a participação de diversas instituições públicas: Universidade Estadual de Campinas, Universidade de São Paulo, Universidade Federal do Rio de Janeiro e Universidade Federal de Santa Catarina. Seu princípio ativo, o alfa-humuleno, foi identificado a partir do conhecimento tradicional dos habitantes do litoral de São Paulo. Sabia-se que a erva baleeira, ou Cordia verbenacea, arbusto das restingas, faz cicatrizar feridas e alivia dores. [7]

Mas foi preciso que Victor Siaulys, presidente do conselho de administração da empresa, sofresse uma contusão numa partida de futebol em Mongaguá, balneário paulista, para que essa história tivesse início. Vítima de uma lesão no joelho, em 1989, Siaulys experimentou o alívio proporcionado pela garrafada da erva e resolveu investigar melhor seus efeitos terapêuticos. [7]

Depois de 16 anos e investimento de R$15 milhões, a pomada desenvolvida chegou ao mercado com potencial para se tornar um blockbuster, o que, no jargão farmacêutico, significa um medicamento com potencial de vendas de R$1 bilhão. [7]

Referências

  1. Lameira, O. A.; Pinto, J. E. B. P.; Cardoso, M. G.; Arrigoni-Blank, M. F. (2009). «Estabelecimento de cultura de células em suspensão e identificação de flavonóides em Cordia verbenacea DC.». Revista Brasileira de Plantas Medicinais: 7–11. ISSN 1516-0572. doi:10.1590/S1516-05722009000100002. Consultado em 3 de dezembro de 2022
  2. Gilbert, Benjamin; Rita Favoreto (2012). «Cordia verbenacea DC Boraginacea». Fitos. 7 (1). pp. 17–25
  3. PEREIRA, Juhan Augusto Scardelato. Cordia verbenacea DC.: perfil morfo-anatômico, histoquímico, farmacognóstico e avaliação da atividade anti-candida do extrato hidroetanólico e suas frações. Dissertação (Ciências Farmacêuticas). Universidade Estadual Paulista. 2013.
  4. Perini, Jamila Alessandra; Angeli-Gamba, Thais; Alessandra-Perini, Jessica; Ferreira, Luiz Claudio; Nasciutti, Luiz Eurico; Machado, Daniel Escorsim (dezembro de 2015). «Topical application of Acheflan on rat skin injury accelerates wound healing: a histopathological, immunohistochemical and biochemical study». BMC Complementary and Alternative Medicine (em inglês) (1). 203 páginas. ISSN 1472-6882. PMC PMC4486146 Verifique |pmc= (ajuda). PMID 26122670. doi:10.1186/s12906-015-0745-x. Consultado em 3 de dezembro de 2022
  5. Butnariu, Monica; Sarac, Ioan (21 de dezembro de 2018). Wan, Jun, ed. «Essential Oils from Plants». Journal of Biotechnology and Biomedical Science (4): 35–43. doi:10.14302/issn.2576-6694.jbbs-18-2489. Consultado em 4 de dezembro de 2022
  6. Zanoti Fonseca, Karina; Matos dos Prazeres, Ana Gabriela; Batista de Lima, Carlla Larissa; Dos Santos Pereita, Ivaneide; Santana dos Santos Pamponet, Juliana (6 de julho de 2017). «Perguntas mais frequentes sobre flavonoides». Consultado em 4 de dezembro de 2022
  7. NATERCIA, Flávia. Parcerias e inovação impulsionam setor farmacêutico. Inovação Uniemp [online]. 2005, vol.1, n.3 [citado  2022-12-03], pp. 32-37 . Disponible en: <http://inovacao.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-23942005000300022&lng=es&nrm=iso>. ISSN 1808-2394.

Ligações externas

Cordia verbenacea Tropical plant database for cordia verbenacea

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