Cuscuz
Cuscuz é um prato berbere originário do Magrebe (região do noroeste do continente africano).[1] Consiste num preparado de sêmola de cereais, principalmente o trigo, quando a sêmola é amassada à mão com um pouco de água até se transformar em pequenos grãos que devem ser cozidos no vapor numa cuscuzeira e servidos com um molho que pode ter sido feito na parte inferior da cuscuzeira. Na Tunísia, o cuscuz tem “estatuto” de prato nacional, mas em Marrocos e Argélia é praticamente o prato do dia.[2]


O molho que acompanha o cuscuz pode ser um guisado apenas de vegetais, ou ter carne ou peixe (principalmente nas zonas costeiras). Na Tunísia, o cuscuz mais popular é preparado com carne de borrego e frutas secas, mas o mais famoso é feito com o estômago do borrego recheado com ervas aromáticas e outros temperos. Em Marrocos, o mais popular é servido com um molho de sete vegetais, que é tradicionalmente servido às sextas-feiras, depois da oração do meio-dia, enquanto que a receita mais doce, com amêndoas, cebola caramelizada e várias especiarias, é reservada para dias de festa.[3] O cuscuz foi escolhido como o terceiro prato mais popular para os franceses, em 2011.[4]
História
Uma das referências mais antigas escritas sobre o cuscuz vem num livro de receitas do Al Andalus, “Kitāb al-ṭabīkh fī al-Maghrib wa’l-Āndalus”, do século XIII; não só o título do livro indica que o cuscuz é originário do Magrebe, como ainda utiliza a palavra “alcuzcuz”, indicando que esta preparação não é originária da culinária árabe, mas provavelmente berbere. Encontrou-se também um livro da mesma época, mas proveniente da Síria, o que indica que, por esta altura, a receita já se tinha espalhado pelo Maxerreque. No restante da Europa, as primeiras referências ao cuscuz, da França, são do século XVII. Entretanto, existem também indicações sobre a possível origem sub-saariana do cuscuz, por um lado o facto de serem mulheres negras as cozinheiras na África do Norte e da Alandalus e, por outro a popularidade do cuscuz na África ocidental, embora não baseado em trigo, mas noutros cereais.[5]
Em Portugal, no século XVI o cuscuz fazia parte da ementa diária, partilhando a mesa com o arroz e outros cereais. Para além de vários escritos da época, o cuscuz é ainda referido numa peça de Gil Vicente. Por essa altura, os portugueses começaram a colonizar o Brasil e descobriram que os indígenas tinham um tipo de preparação semelhante, mas usando os frutos da terra, nomeadamente, a mandioca, o milho, o coco e outros; a designação trazida pelos portugueses ficou e adotou as preparações locais.[1] Entretanto, com o tempo o cuscuz em Portugal perdeu a sua popularidade, ficando apenas o nome que foi dado a uma massa alimentícia usada em sopas.[6]
Variações locais
Brasil


No Brasil, o cuscuz pode ser feito à base de farinha ou polvilho, de milho, arroz ou mandioca. Salgada e levemente umedecida, a massa é posta a marinar para incorporar o tempero. Daí, tem a sua cocção pela infusão no vapor. Pode ser incrementado com outros ingredientes, como é o costume na região Sudeste, ou apenas ir acompanhado de leite, ovos, manteiga ou carne-de-charque, como é a preferência no Nordeste.[1] O cuscuz preparado no cuscuzeiro (ou cuscuzeira) pode ser de milho e carimã. Na Região Norte, o cuscuz pode ser doce e consumido com leite de coco, comumente no café da manhã, acompanhado de tapioca, iguaria popular em todo o Brasil. No Nordeste o cuscuz é comumente consumido nas três principais refeições diárias, podendo ser o prato principal do café-da-manhã e/ou do jantar e sendo utilizado como farofa no almoço. Antigamente no Nordeste, o cuscuz era feito com milho triturado no pilão e moído em moinho de pedra, sendo em seguida cozido na panela, envolto por um pano (tipo pano de prato). O Dia Mundial do Cuscuz é comemorado no dia 19 de março, dia de São José.[7]
O Cuscuz-paulista é uma prato de preparação mais complexa e de consumo menos frequente. Leva farinha de milho, feito com peixe e camarão, ou galinha, ovos cozidos e muito tempero.[8]
Além do Brasil, o cuscuz também é consumido em outros países da América Latina. Em Portugal acredita-se que chegou no reinado de D. Manuel I (1495-1521), sendo mencionado na obra de Gil Vicente. A grafia francesa couscous, é frequentemente usada para todas as variações deste prato em livros de culinária europeus.
Em 2017, a empresa São Braz lançou uma campanha publicitária[9] instituindo o dia 19 de março como Dia Mundial do Cuscuz. A data foi escolhida por ser o Dia de São José, padroeiro do Nordeste[10]. Posteriormente, diferentes empresas, meios de comunicação[11], instituições e figuras públicas[12] passaram a comemorar a data.
Cabo Verde

Em Cabo Verde o cuscuz é um bolo tradicional, feito com farinha de milho, e cozido a vapor num recipiente de barro especial (binde), análogo a uma cuscuzeira. Leva pouco açúcar e é normalmente comido quente, às fatias, com manteiga ou mel de cana.
Mundo árabe
Os palestinos tipicamente o servem em ocasiões especiais e feriados. Foi levado por imigrantes marroquinos à Palestina, onde foi modificado para o que é chamado maftoul, sendo considerado como um tipo especial de cuscuz, feito a partir de diferentes ingredientes e de uma forma diferente. Maftoul é uma palavra árabe derivada da raiz "fa-ta-la", que significa rolar ou torcer, que é exatamente o que descreve o método usado para fazer maftoul à mão, rolando o triguilho com farinha de trigo.[13]
Na Argélia, Marrocos, Tunísia e Líbia o cuscuz é geralmente servido com legumes (cenoura, batatas, nabos, etc.) cozidos em um picante ou suave caldo de carne ou ensopado, acompanhado com um pouco de carne (em geral, frango ou carneiro).[14]
Ver também
Referências
- Editores do Michaelis (2005). «Verbete cuscuz». Dicionário Michaelis. Consultado em 8 de novembro de 2022
- «Tunisian Couscous: A Family Tradition - Tunisia Live». Tunisia-Live (em inglês). Faten Bouraoui. 8 de abril de 2012. Consultado em 19 de março de 2019. Arquivado do original em 30 de setembro de 2017
- CNN, By Nisrine Merzouki, Special to (28 de fevereiro de 2014). «8 Moroccan dishes to tantalize your taste buds». CNN Travel (em inglês). Consultado em 19 de março de 2019
- «COUSCOUS (FROM MOROCCO)». WELCOME TO VAHREHVAH (em inglês). Consultado em 19 de março de 2019
- «Did You Know: Food History - History of Couscous». www.cliffordawright.com (em inglês). 19 de março de 2019. Consultado em 19 de março de 2019
- «\A História do Cuscuz». Jangada Brasil (Revista eletrônica) ed. 11, julho de 1999. Julho de 1999. Consultado em 1 de julho de 2012
- «Dia do Cuscuz: o prato que saiu do Norte da África para virar símbolo da força do povo nordestino». G1. Consultado em 4 de abril de 2021
- dos Anjos, Margarida; Baird Ferreira, Marina (2011). Aurélio júnior - dicionário escolar da língua portuguesa. 1 2. ed ed. Curitiba: Ed. Positiva. ISBN 9788538547358. OCLC 931064891
- Castilho, Fernando (19 de março de 2021). «Pernambuco comemora o Dia Mundial do Cuscuz, Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado». JC Negócios. Consultado em 14 de fevereiro de 2022
- G1Caruaru (18 de março de 2017). «Dia de São José será celebrado em Caruaru durante todo o domingo (19)». G1 Caruaru. Consultado em 14 de fevereiro de 2022
- Caldas, Phelipe (19 de março de 2021). «Dia do Cuscuz: o prato que saiu do Norte da África para virar símbolo da força do povo nordestino». G1 Paraíba. Consultado em 14 de fevereiro de 2022
- CARAS (19 de março de 2021). «BBB 21: Equipe de Juliette celebra Dia do Cuscuz: O maior de todos». CARAS. Consultado em 14 de fevereiro de 2022
- «Palestinian Couscous (Maftoul) -». Kitchen of Palestine (em inglês). Eman. 21 de março de 2013. Consultado em 19 de março de 2019
- James Bainbridge e Alison Bing, Vorhees,; Heidi., Edsall, (2011). «Moroccan Cuisine». Lonely Planet : Morocco. (em inglês). Footscray, Vic.: Lonely Planet. p. 436-444. ISBN 978-1-74179-598-1. OCLC 858104157