Diego Padilla
Diego Hernán Padilla Victorica (Buenos Aires, 20 de setembro de 1960 - São Paulo, 3 de novembro de 2019 [1]) foi um ex-jogador de rugby union argentino naturalizado brasileiro. Considerado um dos maiores jogadores do Brasil neste esporte,[2] foi um dos dois rugbiers brasileiros chamados no século XX pela seleção da América do Sul, os Jaguares, em 1980.[3] Atuava na posição de fullback, sendo descrito como difícil de ser marcado e forte na defesa e nos tackles, com visão de jogo e liderança.[4][5]
Proveniente de uma família argentina que emigrou toda a São Paulo em 1974 [2] - o pai Ricardo Luis, a mãe Teresita Aurora e os irmãos Álvaro, Fermín, Javier, Rodrigo e Teresita [6] -, foi Diego quem incutiu o interesse dos Padilla pelo rugby; o pai preferia o futebol e o River Plate.[2] Ainda em Buenos Aires, com seis anos de idade, Diego pôde integrar o clube da Direção Autárquica de Obras Municipais, o Daom.[4] A família viria a inteiramente envolver-se com a história do rugby brasileiro,[6] com Ricardo e Teresita Aurora convertendo-se inclusive em figuras paternas no meio.[7]
No Brasil, Diego Padilla foi um dos fundadores do primeiro time de rugby do Colégio Rio Branco, equipe que viria a se tornar um dos clubes mais tradicionais do Brasil, mas na época ainda restrito a competições juvenis. Ao extrapolar a idade juvenil máxima, os irmãos Padilla rumaram ao Nippon, clube da comunidade japonesa que abrigava muitos argentinos e uruguaios na equipe adulta, na qual Diego integrou ainda tendo dezesseis anos de idade.[2] Aos 17, em 1978, recebeu sua primeira convocação à seleção brasileira, mas só foi admitido em campo após naturalizar-se. Padilla também emancipou-se e assim pôde estrear pelo Brasil em 1979, no campeonato sul-americano daquele ano - embora enfrentasse, como argentino, problemas no Chile (o país-sede) decorrentes do conflito de Beagle.[3] Por outro lado, sua fluência do castelhano ajudava-o a transmitir aos colegas o que os adversários comunicavam em campo, ainda que jamais dominasse totalmente o português.[5]
Também em 1979, com a entrada de norma de que os jogadores do Nippon precisavam ser também sócios do clube, os Padilla e outros argentinos e uruguaios rumaram ao Alphaville,[3] ainda denominado Barbarians. O clube consolidou-se como potência em seguida, ganhando os campeonatos brasileiros de 1980, 1982, 1983 e 1985 [2] antes de um tricampeonato seguido com as edições de 1987-1988-1989 e o bicampeonato de 1990-1991. O "Alpha" era assim o principal clube brasileiro do período, embora não tenha desde então conseguido mais nenhuma outra conquista do torneio.[8] Quando não pôde ser campeão, Padilla festejava os títulos dos próprios adversários nas confraternizações pós-jogos.[5]
Nesse período, Diego foi convocado à seleção da América do Sul reunida em 1980 para receber a África do Sul.[9] Tornou-se assim o segundo brasileiro requisitado aos chamados Jaguares,[3] compostos quase que integralmente por argentinos. Foi um dos dois únicos chamados pela seleção continental no século XX, após Pedro Cardoso,[3] também requisitado naquele ano e em 1982.[10] Padilla declararia que pesou para aceitar a convocação, em meio a recorrentes boicotes esportivos aos sul-africanos em retaliação ao apartheid, saber que que os Springboks pela primeira vez haviam recrutado um negro, Errol Tobias.[3]
Posteriormente, em 1985, três irmãos Padilla (Diego, Javier e Rodrigo) puderam atuar juntos pela seleção brasileira em aguardado encontro contra outra potência, a França. Nela, o Brasil chegou a começar vencendo por 6-0 e, ainda que tenha perdido depois por 41-6, pôde orgulhar-se nas circunstâncias - Javier declararia que "Os caras eram muito bons. Lembro-me que começamos vencendo a partida (...). Só que o preparo e a técnica deles era muito superior. (...) Sem dúvida aquele jogo ficou marcado na minha vida por enfrentar um dos gigantes do rugby mundial. (...) Era jogo para a gente perder de 100 de diferença e nem chegar perto do ‘H’. Saímos extremamente felizes de campo".[2]
Sobre Diego, seu outro irmão Fermín declararia o seguinte: "Ele era conhecido pelas 'loucuras' que fazia em campo e pela forma 'suicida' de enfrentar seus oponentes, não tinha medo de nada, principalmente naquela época, onde o rugby era um jogo muito mais 'sujo', e mais liberal no embate físico. Por exemplo, era permitido tacklear o jogador no ar, o que era muito perigoso (...). Já vi o Diego, defender um possível try, sozinho, sendo que eram dois contra um. Estava ele posicionado no fundo do campo, em defesa, quando sobram dois jogadores da equipe adversário que vêm ao seu encontro, ele se antecipa, sobe em pressão, tackleia o jogador que está com a bola, este se livra da bola passando para o seu apoio, que passa por eles. O Diego se levanta e vai atrás deste jogador tackleando ele também, e defendendo o que seria um try certo, tudo muito rápido e inacreditável. De encher os olhos".[4]
Diego seguiu defendendo a seleção brasileira até 1998, somando mais de cinquenta partidas,[3] em tempos de infra-estrutura muito mais precária. Àquela altura, já havia chegado a também ser treinador da seleção, em dupla técnica com Antônio "Tó" Leme, função exercida por dois anos a partir de 1996.[5] Sem perder o portunhol com sotaque rioplatense,[4] tornou-se posteriormente técnico do Alphaville,[4][5] passando também pela Poli até 2014,[11] e posteriormente pelo SPAC.[5]
Diego Padilla faleceu às 23h50 de 3 de novembro de 2019,[1] um dia após a final da Copa do Mundo de Rugby Union de 2019.[12] Sofria de complicações de uma cirurgia na válvula mitral havia dois anos, e uma campanha de doação de sangue para si chegou a ser feita às vésperas entre a comunidade rugbier paulista após seu organismo rejeitar como um corpo estranho uma transfusão anterior,[13] no que agravou-se para infecção generalizada com falência de múltiplos órgãos. Deixou a esposa Mônica e os filhos Aramis, Matias, Agustin e Ícaro.[5]
Referências
- RAMALHO, Victor (4 de novembro de 2019). «Descanse em paz Diego Padilla, um dos grandes de nosso rugby». Portal do Rugby. Consultado em 4 de novembro de 2019
- FETT, Beto (17 de dezembro de 2016). «Joinville Rugby, um clube amador». Medium. Consultado em 7 de janeiro de 2019
- «"Ouça agora o Mesa Oval #14, com Diego Padilla!"». Portal do Rugby. 26 de abril de 2016. Consultado em 7 de janeiro de 2019
- PADILLA, Fermín; MAIA, Rouget (20 de setembro de 2013). «Homenagem injusta também para a lenda Diego Padilla». ESPN. Consultado em 7 de janeiro de 2019
- LEME, Antonio (4 de novembro de 2019). «O rugby brasileiro está de luto: Adeus, 'Dom Diego'!». ESPN. Consultado em 5 de novembro de 2019
- «NOTA DE FALECIMENTO - ALVARO PADILLA». Brasil Rugby. 14 de abril de 2016. Consultado em 7 de janeiro de 2019
- GRAU, Werner (11 de novembro de 2014). «RUGBY NA SUA ESSÊNCIA». Terceiro Tempo. Consultado em 7 de janeiro de 2019
- RAMALHO, Victor (30 de junho de 2020). «Top 10 grandes campeões brasileiros!». Portal do Rugby. Consultado em 1 de julho de 2020
- Rugby Clube (4 de agosto de 2011). «Os Sul-Americanos». Globo Esporte. Consultado em 7 de janeiro de 2019
- BRANDÃO, Caio (7 de setembro de 2012). «História dos Pumas – Parte VI: Auge». Futebol Portenho. Consultado em 7 de janeiro de 2019
- «"Paulista 2015, a prévia - Parte 1"». Portal do Rugby. 3 de março de 2015. Consultado em 7 de janeiro de 2019
- RAMALHO, Victor (2 de novembro de 2019). «Springboks tricampeões do mundo!». Portal do Rugby. Consultado em 4 de novembro de 2019
- SANTOS, Leandro (30 de outubro de 2019). «O veterano Diego Padilla precisa de nossa ajuda!». Portal do Rugby. Consultado em 4 de novembro de 2019