Fuji (escrita de prancheta)

Fuji (em chinês: 扶乩/扶箕, transl. fújī ou fu chi) é um método chinês de "escrita de prancheta" ou "escrita de espíritos", que usa uma peneira ou bandeja suspensa para guiar uma vara que escreve caracteres chineses na areia ou nas cinzas de incenso.[1] Também é referida variavelmente como "descida da fênix" (jiangluan, 降鸞),[2][3] dentre outros termos como jiangbi (降筆), fuluan (扶鸞), feiluan (飛鸞), zhaoxian (召仙), etc. A palavra "fuji" tornou-se proeminente do período Ming para frente.[3]

Sessão de fuji, com espíritos representados acima da névoa do incensário. Litografia do período Qing nas revistas ilustradas Dian shi zhai hua bao (1884–1889).

O método comumente envolve uma prancheta com uma vareta, pincel ou "estilete" (jijia, 乩架), guiado por pontas laterais sobre uma superfície coberta por areia (shapan 沙盤).[2][4][5] Há também relato de uso de cesta e pincel sobre cinzas ou papel.[4] Dois discípulos conduzem uma extremidade de vareta de cada lado, mas apenas um deles é médium considerado possuído por uma entidade. Com o movimento, são escritos caracteres na superfície, os quais são interpretados e anotados por terceiros.[2][5][6]

As origens da prática remetem ao culto oracular da deusa Zigu,[4] e seu início pode ser rastreado em textos e relatos a partir do século XI (dinastia Song). Difundiu-se entre literatos nas dinastias Song, Yuan e Ming, encontrando-se em todas as prefeituras e capitais de condados na China, desde altares privados em casa a templos. No período Ming (1368–1644), tornou-se popular pela questão de consultas para exames imperiais.[5] Milhares de grupos de escrita de espíritos existiram a partir do século XII na China, em grande parte durante o período Qing (1644–1912).[7] A escrita por prancheta chegou a ser proibida no Grande Código Legal Qing,[4] e sofreu outras restrições e condenações ao longo da história, mas continuou a existir.

Foi um método de adivinhação, de comunicação com mortos ou deidades e de recebimento de instruções e textos amplamente empregado nas religiões populares chinesas e no taoismo (particularmente à escola Quanzhen), praticado desde por leigos até a sacerdotes, literatos e altos oficiais. Não foi, porém, exclusivo de determinada vertente religiosa, e ocorreu em diversos sincretismos conforme a localidade e época, como com o budismo e confucionismo. A prática continuou vibrante até a modernidade e os dias atuais, havendo diversos altares, seitas e templos de escrita de espíritos.[3][5][8][6]

Vocabulário e técnica

Rainha Mãe do Ocidente com séquito e o pássaro luan ("fênix"). Ilustração da enciclopédia Gujin Tushu Jicheng (1726), na seção "Espíritos e o Sobrenatural".

A escrita de espíritos chinesa (fuji) envolve algum vocabulário especializado. Luan () "um pássaro mítico parecido com a fênix" é usado em sinônimos como fuluan (扶鸞, "suportar a fênix"), feiluan (飛鸞 "fênix voadora" e jiangluan (降鸞, "fênix descendente").[9] Esses últimos termos são utilizados pelos chineses especificamente sobre a atividade de receber adivinhação por fuji.[8] O processo envolve participantes especializados. As duas pessoas (ou raramente uma) que seguram a peneira ou estilete são chamadas jishou (乩手, "mãos de prancheta"), apenas um dos quais é ostensivamente possuído por um shen (, "espírito; deus") ou xian (, "imortal; transcendente"). Seus assistentes podem incluir um pingsha (平沙, "nivela areia") que suaviza o shapan (沙盤, "mesa de areia"); um dujizhe (讀乩者, "leitor de prancheta") que interpreta os caracteres; e um chaojizhe (抄乩者, "copista de prancheta") que os registra. Jiwen (乩文, "escrita de prancheta") é uma referência geral a textos produzidos através da escrita de espíritos.[9] 

O termo literário do culto é "pincel que desce" (jiangbi 降筆), em referência à revelação através do pincel que varre sobre a areia.[5] Outros termos às vezes utilizados para se referir aos grupos que realizam a prática, principalmente na Taiwan contemporânea, é "religião de espíritos" ou "religião confuciana de espíritos"; esta última designação provavelmente a associa ao confucionismo devido à ligação desta religião com a escrita.[8]

O pássaro luan (traduzido equivalentemente à fênix) é um pássaro mítico nas antigas lendas chinesas. É o mensageiro da Rainha Mãe do Ocidente e é responsável por trazer mensagens dos deuses. Portanto, "descida da fênix" tem o significado de transmitir um oráculo.[6][8]

Um "pincel de adivinhação" com cabeça de dragão, chamado luan tai, luan bi ou ki.[10] Exposto no Museu Lanyang.

Em formas mais recentes, os médiuns de espíritos na prática do fuji são conhecidos como "principal discípulo da fênix" (zhengluan shen 正鸞生), além de jishou; um ou dois deles seguram uma vara de madeira em formato de Y (aproximando-se do formato da forquilha usada em radiestesia), composta de madeira de pêssego ou salgueiro,[6][8] chamada ki ou ji[5] (ou também chi em outra transliteração). Além dele, auxiliando a fênix deve haver também um fuluan (副鸞). Há registro de que também são acompanhados de dois anunciadores e dois registradores; coletivamente são referidos como os "seis" ("três talentos").[6][8]

Começando por volta da dinastia Ming, o método de fuji e os caracteres escritos mudaram de 扶箕 "apoiar a peneira" (escrita de espíritos utilizando uma peneira suspensa ou cesto de joeirar) para 扶乩 "sustentar a prancheta" (dirigir uma vara ou estilete, normalmente feito de um galho de salgueiro e pêssego).[8][6]

Acredita-se que a vara é direcionada pelos seres espirituais sobre uma bandeja de areia, sendo nela esboçados os caracteres. Um leitor diz qual caractere é e o transcreve em papel. Sessões geralmente ocorrem em locais santos internos de um santuário, ante a imagem de uma divindade, e com um grupo de espectadores presentes, formado de devotos e membros do culto.[5]

Muitos textos obtidos por escrita de espíritos necessitavam ser decodificados, pois vinham em escrita poética críptica, exigindo técnicas divinatórias (questionar com perguntas, invocar a divindade) para definir o oráculo.[11]

Desenvolvimento

A historiografia da escrita de espíritos na China costuma se dividir em três vertentes, com foco em três períodos: fases iniciais na dinastia Song; corpos de obras obtidas por escrita de espíritos e reunidas em cânones taoistas do início a meados do período Qing; e movimentos e textos sectários ou confucianistas do período Qing tardio e século XX.[7]

Vincent Goossaert define três características que são constantes entre muitos grupos ao longo dos diversos períodos: os membros são afiliados a uma deidade transcendente como discípulos (dizi 弟子), dela recebem um nome de ordenação e são inscritos nos registros celestiais; a deidade é apresentada como integrante da burocracia celestial, tutelar dos devotos e uma salvadora da humanidade; e há inspiração escatológica.[3]

Os rituais de escrita de espíritos começaram em parte de tradições de adivinhação não verbal entre praticantes da religiosidade popular chinesa. Ritos de chamamento de deuses e espíritos em geral são relatados desde a dinastia Chou. Fuji desenvolveu-se na dinastia Song (960–1279),[8] inicialmente bastante associado ao culto à deusa Zigu,[4] e, pelo século XI, encontrava-se como uma forma centrada em receber escritos de imortais e heróis culturais deificados, sendo muito praticado por literatos para saber questões de fortuna pessoal e exames de serviço civil.[8]

Gravura da prática testemunhada pelo missionário John Livingstone Nevius, em seu livro de 1869.

Com a restauração desses exames, surgiram mudanças em um quarto desenvolvimento da tradição de fuji, e outros espíritos passaram a aparecer nas sessões, como os espíritos de heróis civis e militares do passado recente; as perguntas eram então direcionadas sobre sucesso ou falhas nesses exames. Tais tendências continuaram a se desenvolver nos períodos Ming (1368–1644) e Qing (1644–1912),[8] e cada distrito passou a possuir pelo menos um altar dedicado à prática.[2][12] O próprio imperador Jiajing (1522–1566) construiu um jitan (乩壇, "altar de prancheta") especial na Cidade Proibida.[2] No período Qing, vinculou-se bastante ao taoismo.[8][5]

Não há evidências de que a prática foi exclusiva do taoismo. Ela se constituiu como bem sincrética ao longo da história, combinando moralidade confuciana, conceitos taoistas como de imortalidade e liturgia budista aos mortos. Seus devotos não eram particularmente taoistas. Durante o período Qing, porém, ela fora difundida entre leigos e influiu grandemente sobre essa religião.[5]

Especialistas de fuji também incluíram outros tópicos de consulta e foram constituídos não apenas por literatos, mas também eram igualmente buscados por pessoas não eruditas, com intenção de obter curas e conhecimento dos mortos.[8] Nas dinastias Song, Ming e Qing, um dos principais motivadores da difusão da escrita de espíritos foi o desejo de se conversar com mortos, como em registros de sessões nas quais praticantes queriam saber sobre seus familiares falecidos e entrar em contato com eles.[13] No período Qing e na modernidade, nem todos os textos de fuji são revelados com suporte de grupos sectários,[8] e nem todos os grupos produziam textos.[7]

A prática de escrita de espíritos foi proibida em 1317 e 1370, mas isso teve pouco efeito sobre a sociedade, desde o estrato imperial até aos níveis populares.[8] Também foi considerada ilegal no Grande Código Legal Qing.[4] No início do século XIX, há relato de prisões pelo uso dela em curas de doenças ou quando as mensagens dos espíritos levavam à suspeição de subversão política: em 1815, no relatório do governante de Zhili chamado "Um memorial sobre a prisão de [pessoa envolvida] no crime de incitar e confundir [as pessoas] com fu-chi]", encontra-se a descrição de um curandeiro itinerante, Chiang Ying-lung, que foi condenado por uma sequência de eventos após um espírito fazer referência a um príncipe da linhagem Ming e seus associados, durante uma sessão de adivinhação de cura. Chiang foi acusado de "restauracionismo Ming".[8]

Dinastias Song, Yuan e Ming

Nos períodos Song e Yuan, a evidência documental da escrita de espíritos é encontrada em anedotas, textos revelados e manuais litúrgicos, registrados principalmente por sacerdotes fashi (incluindo literatos iniciados) em altares (tan 壇, grupamentos rituais). De início, foram recebidos poemas curtos[3] ou revelações curtas e específicas, como injunções de cunho moral pelas divindades;[8] porém o estágio melhor documentado de escrituras extensas se deu no século XII tardio.[3]

Nessas dinastias, a escrita de espíritos foi altamente influente sobre a produção das obras chamadas "códigos divinos" (textos sobre o destino e julgamento no além-vida de pessoas falecidas; também chamados "códigos de espíritos", guilü 鬼律; ou "códigos celestiais", tianlü 天律); e também dos livros de moralidade. A partir do período Yuan (1271–1368), sua técnica se tornou o principal meio de se obter livros de moralidade, que antes eram alegadamente revelados por outros meios, como sonhos. Fuji também contribuiu à propagação de rituais taoistas (daofa), embora tenha havido taoistas que também criticaram esse uso não controlado de recebimento de revelações.[3]

Dama Púrpura com a destra erguida em ilustração da era Ming. Segundo Judith Boltz, talvez isso indique um ato de prognóstico.[4]

As origens da escrita de espíritos foram popularmente atribuídas ao culto da deusa do banheiro Zigu.[4][14][6] Talvez por isso, apesar de amplamente buscada por literatos, havia como reminiscência também uma percepção que associava a prática a mulheres não educadas. O costume de buscá-la em oráculos é traçado ao século V, em uma longa tradição oral sobre a deusa, que foi consolidada em hagiografias a partir do século XI. Desse século em diante, relatos abundam sobre uma Dama Transcendente que era invocada ou recebida na prática.[4] Shen Gua (1031–1095; em "Conversas de Pincel do Riacho dos Sonhos", Mengqi bitan) e Su Shi (1037–1101) descrevem a estreita vinculação à Dama Púrpura (Zigu).[2] Shen Gua registra que muitos dos pares e convidados que observavam suas alegadas composições reconheciam nelas uma habilidade excepcional em verso e prosa. Zhu Yu (c. 1075–c. 1119) afirma que Zigu era popularmente invocada entre seus círculos de conhecidos e relata como testemunha ocular:[4]

"Uma vez observei o espírito descer enquanto alguém sustentava uma pequena cesta trançada (shaoji), perfurada por uma vareta, esboçando palavras em uma bandeja de cinzas. Ela escrevia no papel quando um pincel era adicionado em cima da vareta. Quando nos respondeu, chamava-se Penglai Daxian (Grande Transcendente de Penglai). A maioria eram mulheres com nomes comuns e produziam composições de mérito"

Zhu Yu diz que, em um encontro seu com um médium, o espírito completou um poema cuja rima combinou com um verso que ele havia antes escrito, pelo que ele reconheceu uma assistência divina, pois o médium não tinha capacidade de compor por si próprio. Ele observou, porém, que pessoas analfabetas não obtinham caracteres através do uso da cesta, a qual ficava apenas rodopiando, pois não sabiam escrever.[4]
Conta-se, como registrado em livros que chegaram ao cânone ming Daozang (1445), de maneira amplificada que Zigu teria prescrito a prática da escrita de espíritos. A versão do relato completo que nele chegou é esta (conforme suplementos do século XVI):[4]

"A esposa dele estava com ciúmes dela [de Zigu] e por isso matou-a secretamente e colocou seu cadáver na latrina. As almas-hun dos mortos circulavam e não se dispersavam. Todos os que iam à latrina ouviam o som de lamentos. Houve momentos quando ela sub-repticiamente apareceu à vista. Armas, além disso, apareciam e então ela assumia uma forma de repreensão. A partir daí houve uma grande exibição de peculiaridades numinosas. As pessoas suplicavam-lhe em nome dos falecidos. Quando eles suspendiam uma cesta, ela vinha para baixo e era capaz de prever fortuna e infortúnio. A divindade pereceu no décimo quinto do primeiro mês lunar, então é somente neste mês que ela revela numina".

Os editores do Daozang, porém, facilmente rejeitavam a inclusão de obras sobre escrita de espíritos. O primeiro editor-chefe, Zhang Yuchu (1361–1410), por exemplo, um patriarca da linhagem taoista dos Mestres Celestiais, afirmava que a escrita de espíritos era uma perversão de possessão de espíritos e explicitamente registrou suas advertências contra isso em diretrizes da codificação.[4] No entanto, obras afirmadas como "escritas por espíritos" chegaram a fazer parte de seu conjunto.[5][4] Dentre elas, Wenchang dadong xianjing ("Escritura da Grande Caverna segundo Wenchang", 文昌大洞仙經) é reconhecida como composta pela "descida do pincel no terreiro de fênix" (jiangbi yu luantai 降筆於鸞臺), revelada em 1168 ao médium Liu Ansheng. Seu santuário de escrita de espíritos, chamado "Altar da Misteriosa União na Vacuidade de Jade", é considerado um dos primeiros locais taoistas que se dedicaram à prática.[5]

Fora também incluído um manual de instruções para escrita de espíritos chamado "Ritual para Evocar a Dama Púrpura Transcendente" (Fahai yizhu), o qual foi suprimido em edições posteriores do cânone em 1923–1926. Nele, há trechos como encantamentos para chamar a descida dos transcendentes:[4]

"Divino pincel, com uma onda e tremular,
Difundindo fragrância para sempre.
Que a escrita de selo que eu agora apresento
A todos os quadrantes disponha estas convocações às alturas.
Que a carruagem nascida das nuvens, pelo redemoinho impelida,
A este local numinoso desça célere.

Dinastia Qing e após

Modelo ritual de fuji com chineses do período Qing, representados com o estilo manchu.

No período Qing, a escrita de espíritos promoveu uma reforma no taoismo.[7][5] No século XVII, livros inteiros de ensinamentos éticos foram compostos por meio dessa técnica.[8] Ela difundiu a prática leiga da doutrina taoista, e foi formada uma rede de grupos de escrita de espíritos em várias cidades, para produção, circulação e compilação de textos entre associados devotos.[7][5] Entre 1700 e 1858, uma rápida circulação e leitura dos textos era feita entre os grupos, que comentavam suas ideias e os adaptavam e republicavam. Muitos eram membros participantes simultaneamente de diversos grupos de escrita de espíritos, em vários santuários. Isso levou a um intenso processo de canonização. Os principais imortais aos quais se atribuíam as comunicações nesse período incluíam Wenchang, Lüzu, e Guandi, divinizados. Havia engajamento e competição na promoção das deidades que encabeçavam cada grupo, com ímpeto de produzir escrituras e cânones "melhores", em grandes projetos muitas vezes custosos.[7]

Suas obras se dividem nestes tópicos: textos de autocultivo (muitas vezes poéticos), sobre alquimia interna e transcendência; livros de moralidade (shanshu) e instruções para a ação; textos litúrgicos ao grupo; e escrituras (jing) como doutrinas salvacionais. A maioria dos grupos de fuji não produziam obras escritas, no entanto. Outros abandonavam essa atividade em algum momento. Registra-se que muitos apenas se destinavam a respostas para necessidades individuais.[7]

A constituição desses grupos muitas vezes era determinada por famílias ou linhagens, e havia um papel localista de que os literatos juravam publicar suas revelações. Os santuários de escrita de espíritos serviam muitas vezes como clubes de elite em vilas e vizinhanças, em alguns lugares até mesmo competindo com academias. Havia, entretanto, participação voluntária por pessoas de vários estratos sociais e uma solidariedade religiosa que superava as hierarquias oficiais. O ativismo em escrita de espíritos era uma forma válida de prestígio tanto quanto outras carreiras.[7]

O clero budista em geral desaprovava a prática. Houve exceções, como os monges Mingxi e Yinyuan Longqi (1592–1673): este último estabeleceu no Japão a escola zen Ôbaku, onde realizava ativamente o intercâmbio com imortais pela escrita de espíritos. Alguns comentários "escritos por espíritos" chegaram a um cânone budista do período Qing.[7]

Na era Qing em geral, os contadores de fortuna eram importantes como equivalentes aos modernos psicólogos em sua função de atendimento, alívio e regulação social, e, segundo Richard J. Smith, as associações de escrita de espíritos, além de fornecerem uma identidade grupal para além da família, deram esperança a indivíduos excluídos de rotas convencionais ao avanço social e econômico.[15]

No começo do século XVII, altares de escrita de espíritos (também chamados "salões de fênix") se multiplicaram em ambientes domésticos privados, por pequenos grupos encabeçados por literatos, devotados no culto ao imortal Lü Dongbin. Ele fora canonizado e cultuado como patriarca taoista, tendo se proliferado como guia espiritual entre os grupos de escrita de espíritos. Lü havia começado a se comunicar por pranchetas em algumas células no século XVI. Em um exemplo de obra, Bapin xinjin ("Escritura Imortal em Oito Capítulos", 八品仙經), de 1589, contém uma descrição por Li Yingyang em seu prefácio de como fora obtido:[5]

"O Bapin xinjin desceu do Patriarca Lü através da escrita espiritual. O primeiro e o segundo capítulos foram recebidos em Guangling 廣陵 [Yangzhou 揚州]; o terceiro e quarto capítulos em Jinling 金陵 [Nanjing 南京]; a quinta escritura em Piling 毘陵 [Changzhou 常州]; o sexto e sétimo capítulos em Xinzhou 信州 [Shangrao 上饒]; e os oitavos capítulos em Linjiang 臨江 [Zhangshu 樟樹]. O Patriarca Lü transmitiu esses capítulos a todos os seus crentes para uma circulação mais ampla.
O Senhor Imperial pediu a seu discípulo Qixuanzi 啟伭子 de Guangling para reunir e publicar os oito capítulos. O discípulo Li [Yingyang] escreveu o prefácio desta compilação das escrituras do Patriarca Lü. Depois que Qiuanzi terminou de coletar e editar os oito capítulos, ele prometeu à imortal feminina Ho [Xiangu] 何仙姑 e ao imortal Zhang Ziyang 張紫陽 realizar uma revisão por prancheta. O último xinjin de Bapin foi impresso no altar [de Qixuan zi] chamado Pavilhão da Reunião de Imortais 集仙樓 localizado em Wandian 萬店 [de Guangling]."

Ilustração do texto alquímico O Segredo da Flor de Ouro, obtido por escrita de espíritos e publicado no século XVII.

Esses grupos de leigos receberam continuamente alegados textos espirituais sobre o autocultivo e refinamento alquímico interno.[5][16] Um dos textos taoistas mais conhecidos modernamente no Ocidente como um clássico religioso chinês,[17] principalmente entre círculos psicológicos, foi obtido por esta técnica:[18] O Segredo da Flor de Ouro (Jinhua zongzi 金華 宗旨), difundido após a tradução por Richard Wilhelm e divulgação por Carl Gustav Jung,[19][20][21] embora receba pouca atenção no Oriente.[20] Em estudos conclusivos por Monica Esposito e Mori Yuria,[5][22] confirma-se que o livro foi produzido pela escrita de espíritos de grupos de dois altares devotados a Lü Dongbin: Bailong jingshe ("Assembleia Pura do Dragão Branco", 白龍精舍) e um ramo de Gu hongmei ge ("Antigo Salão de Ameixa Vermelha", 古紅梅閣) em Piling. Os membros de ambos se referiam como pertencentes à escola do Puro Brilho (Jingming dao, 淨明道), associada ao culto do imortal Xu Xun.[5]
No começo da dinastia Qing, havia seguidores de Xu Xun que recebiam textos de práticas alquímicas contemplativas (alquimia interna) e de autocultivo por meio de escrita de espíritos. Esse volume de O Segredo da Flor de Ouro foi recebido de início de forma incompleta em um primeiro grupo, em 1688; ficou incabado quando sete de seus recipientes faleceram. Em 1692, foi continuado pelo outro grupo. Alega-se que os ensinos de Xu Xun foram transmitidos por espíritos intermediários: Lü Dongbin, Qiu Chuji e Tan Chuduan. Como os escritos de Xu Xun haviam desaparecido por gerações, o texto foi considerado pelos membros do Puro Brilho como exigindo a fundação de uma nova seita taoista, que foi chamada de "Linhagem Ritual da Grande Unidade".[5] Pan Yi'an (彭伊安), um dos recipientes da obra, descreve processo de composição inicial de sua primeira parte:[5]

"Pelo que me lembro, foi no ano wushen [1668] que nosso santo patriarca Chunyang [isto é, Lü] começou a transmitir as 'Instruções'. Ninguém além destes sete recebeu esta transmissão. O ensinamento mais profundo foi [expresso em] não mais do que uma ou duas palavras. Não podia ser colocado em palavras e letras. Depois, os sete questionaram o Patriarca em detalhes. Como nosso santo patriarca não poupou misericórdia em dar esclarecimentos, [seus ensinamentos foram] compilados por dias e meses. Eventualmente, eles compuseram um volume."

Altares de escrita de espíritos taoistas se diferenciavam de outros associados ao confucianismo e seitas populares. Os taoistas estampavam a técnica com consciência de linhagem e do sistema de sua tradição, enquanto os últimos eram mais sincréticos e veneravam deuses populares. Altares taoistas também eram independentes das instituições de suas escolas, e possuíam um caráter congregacional.[5]

Membros de altares de escrita de espíritos tiveram papel importante pelo seu ímpeto de reformar o taoismo, divulgando ensinos leigos em contraposição aos métodos tradicionais de ritos esotéricos por sacerdotes taoistas tradicionais. Eles também juntaram cânones que divulgassem a prática esotérica do Elixir Dourado, ensinada por Lü Dongbin. Grupos alegaram ter recebido instruções do patriarca para compilarem rolos de seus escrituras, e há publicações do tipo em 1744 e entre 1803 e 1805.[5]

O filósofo Ji Yun (1725–1805) tentou fornecer explicações aos fenômenos e registrou notas sobre suas participações em sessões de escrita de espíritos. Em suas descrições, apresentou firme convicção nas práticas mediúnicas e predições, porém também oscilando a um ceticismo seletivo,[23] além de recomendar a cautela na análise de oráculos:[24]

"Portanto, quanto à arte de escrita de espíritos gênios, os literatos podem se divertir arbitrariamente e cantar de acordo com as regras da poesia, como se estivessem assistindo a uma peça de teatro, e então estarão bem. No entanto, no caso de adivinhação para o auspicioso e o inauspicioso, o homem superior tem que temer o resultado."

Ao longo dos tempos, também houve registros de audiências usando palavras para testar a autenticidade do fuji, em experimentos. Foi registrado na "Revista Huaixi" de Ji Yun que, quando Wang Xu foi consultar ao fuji, o espírito se apresentou como Zhang Ziyang e alguém perguntou-lhe sobre o Wuzhen Pian ("Revelação da Verdade") de Zhang Ziyang. O imortal (jixian 乩仙), porém, apenas respondeu: "O Grande Caminho do Elixir Dourado, não ouso passá-lo levianamente".[25]

Pelo século XIX, a prática tornou-se popular em diversos sincretismos e novos grupos sectários.[5] Seitas religiosas populares desenvolveram suas escrituras sagradas principais alegadamente por meio da escrita de espíritos, as quais substituíram outras escrituras sectárias mais tradicionais (baojuan ou pao-chüan, "volumes preciosos"). Esses novos livros obtidos por fuji foram por vezes também chamados de baojuan, e alguns dos antigos baojuan (originalmente não escritos por espíritos) posteriormente possuem comentários atribuídos a deidades e imortais. A supressão de textos baojuan pelo governo pode explicar em parte a mudança de a maioria das seitas se fundamentarem sobre livros de fuji no século XX, pois passaram a depender de tradição oral e de meditação. Também como outro possível fator, ao final do período imperial, santos e heróis de antigamente eram buscados por todas as classes sociais como forma de guia moral e de se garantir segurança da tradição.[8]

A escrita de espíritos foi igualmente importante na recepção de textos específicos ao gênero feminino, por meio de grupos de mulheres taoistas que recebiam instruções sobre alquimia feminina. Predominantemente essas obras eram atribuídas a deusas, tais como Xiwangmu, Sun Bu’er, He Xiangu, e um exemplo de coletânea do tipo foi Nüjindan fayao (1817).[14]

Com o cientificismo do início da República da China, a escrita de espíritos atraiu críticas e a atenção acadêmica, que levou à busca de explicações psicológicas, como em estudos por Chen Daqi, Xu Dishan e Huang Yi. Isso levou à transformação da prática e seu desenvolvimento com a criação de uma chamada "caneta de espíritos científica"; ela seria popularizada depois como diexian 碟仙 ("transcender a placa)", em uma onda de inquirições com curiosidade científica pelas pessoas, em que se perguntavam questões de vida, morte, alma e mundo espiritual.[26]

Houve também, durante o século XIX, alguns círculos acadêmicos chineses que foram influenciados pelas práticas das sociedades espíritas europeias.[24]

Com a criação da República Popular da China em 1949, as comunidades de escrita de espíritos foram vistas como "sociedades secretas reacionárias", período em que foi em grande parte abolida, enquanto considerada clandestina.[5]

Em Hong Kong, o primeiro altar é de 1848, "Academia Imortal das Nascentes Nubladas" (Yunqun xianguan, 雲泉仙館), que foi reestabelecida em 1949. Considerado taoista, não seguia, porém, sistema monástico ou de ordenação formal.[5]

Há relato da prática contemporânea em Taiwan, onde também é chamada mais comumente entre a população de pai-luan ("adoração da fênix", 拜鸞). São publicados vários livros obtidos por fuji. Ela se popularizou na ilha ao final do século XIX, após um adepto ter divulgado seu poder divino em atuação sobre o vício em ópio na China, em visita ao continente. Após isso, monges taoistas foram trazidos a Taiwan, onde efetuaram 200 curas, e devido a isso o culto de fuji se difundiu com o estabelecimento de salões de fênix e capelas de escrita de espíritos.[27] Lá, o fuji foi apropriado também na tradição popular confuciana, bem como com elementos sincréticos budistas além de taoistas.[5]

Houve influência dessa prática na formação inicial do caodaísmo (década de 1920), a partir de grupos secretos religiosos ("Cinco Minh") de chineses exilados no Vietnã.[28] Seus instrumentos de escrita de espíritos, chamados co but (literalmente "caneta como um instrumento", caneta de espíritos), foram uma herança recebida dessas sociedades sino-vietnamitas: usavam uma cesta com cabeça de fênix (ngoc co, "instrumento precioso") segurada por dois médiuns, ou uma prancheta guiada por letras, ou uma caneta especial vermelha e dourada, diretamente empunhada por um médium na escrita. Por vezes também foi combinada com técnicas do espiritismo conforme Allan Kardec. Antes de 1975, eram abertamente realizadas em templos de Caodai, porém estão tecnicamente ilegais e são feitas discretamente em casas.[29]

Observadores ocidentais

Havia europeus que consideravam uma ancianidade remota da técnica chinesa de fuji.[30] Com a voga do fenômeno das mesas girantes, um artigo publicado na revista L'Illustration de 1853 considerou com escárnio que elas não eram novidade, e cita a prática (do "Celeste Império"):[31]

"Assim, os chefes da seita dos Espíritas, que acreditavam ter inventado a tablemoving, não fizeram mais do que espalhar uma invenção há muito conhecida entre outros povos. Nihil sub sole novi, dizia Salomão. Quem sabe se ao tempo do próprio Salomão não era conhecida a maneira de fazer girar as mesas!... Que digo eu? Esse processo era conhecido muito antes do digno filho de David. Leia-se o North China Herald, citado pela Gazette d’Ausbourg de 11 de maio, e ver-se-á que os habitantes do celeste império se divertem com esse jogo desde tempos imemoriais."

O missionário John Livingstone Nevius descreve em seu livro de 1869:[32]

"Diz-se que os movimentos do lápis, involuntários para quem o segura, mas regidos pela influência dos espíritos, descrevem certos caracteres facilmente decifrados, e que muitas vezes trazem à luz divulgações e revelações notáveis. Muitos que se consideram personalidades de inteligência superior acreditam firmemente nesse modo de consultar os espíritos."

O reverendo Frederick William Scott O'Neill tinha simpatia pela "pesquisa psíquica" e observou práticas de escrita de espíritos no "Santuário do Dao" (Daoyuan). Em sua opinião, escrita em 1925, elas eram devidas "em grande parte ou totalmente à telepatia e à consciência subliminar".[33]

Richard Wilhelm (1926) também participou de sessões de descida de fênix, ao que rejeitou a possibilidade de "engodo consciente". Apesar de não acreditar em fraude, não ficou impressionado com a qualidade das obras escritas, considerando-as "exortações morais bastante vagas" e muitas vezes "rasas e sem sentido". Ele não julgou assim a obra O Segredo da Flor de Ouro, porém não havia percebido que ela havia sido obtida por escrita de espíritos.[33]

Ver também

Referências

  1. Chao, Wei-pang (1943). The Origin and Growth of the Fu Chi. Nanzan Institute for Religion and Culture: Asian Ethnology Vol. 2. pp. 9–27
  2. Despeux, Catherine (13 de maio de 2013). «fuji». In: Pregadio, Fabrizio. The Encyclopedia of Taoism (em inglês). [S.l.]: Routledge
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