GSM-R
O GSM-R (em inglês: Global System for Mobile Communications – Railway ou GSM-Railway) é o subsistema de comunicação do Sistema europeu de gestão do tráfego ferroviário (ERTMS). É um padrão internacional das comunicações sem fio para as comunicações ferroviárias e as suas aplicações.[1][2]
O GSM-R é usado para a comunicação entre os comboios (trens) e os centros do controlo da regulação ferroviária e está baseado nas especificações GSM e EIRENE - MORANE que garantem um desempenho para velocidades de até 500 km/h (310 mph), sem qualquer perda de comunicação.[3]
O GSM-R poderia ter sido suplantado pelo LTE-R, cuja primeira implementação deste produto ocorreu na Coreia do Sul. No entanto, o LTE é geralmente considerado um protocolo 4G, e o programa FRMCS (Future Railway Mobile Communication System) da UIC[4] está a considerar adotar um produto baseado em 5G (especificamente 3GPP R15/16)[5], saltando assim duas gerações tecnológicas.[6][7]



História
O GSM-R baseia-se na tecnologia GSM e beneficia-se das economias de escala da sua antecessora tecnologia GSM, com o objetivo de ser um substituto digital de baixo custo para as redes existentes de cabo incompatíveis e as redes ferroviárias de rádio analógicas. Há relatos que confirmam a existência de mais de 35 sistemas diferentes de comunicação apenas na Europa.[8]
Este padrão é o resultado de mais de dez anos de colaboração entre as várias companhias ferroviárias europeias, com o objetivo de alcançar a interoperabilidade através de uma plataforma de comunicação única. O GSM-R faz parte da norma Sistema Europeu de Gestão do Tráfego Ferroviário (European Rail Traffic Management System, ERTMS) e transporta as informações da sinalização diretamente para o maquinista, possibilitando velocidades e densidade de tráfego mais altas e com um alto nível de segurança.[9]
As especificações foram finalizadas em 2000, com base no projeto MORANE (Rádio Móvel para Redes Ferroviárias na Europa, em inglês: Mobile Radio for Railways Networks in Europe) financiado pela União Europeia. A especificação está a ser atualizada pelo projeto ERTMS da União Internacional dos Caminhos-de-Ferro (UIC). O GSM-R foi o padrão selecionado por 38 países em todo o mundo, incluindo todos os estados membros da União Europeia e países da Ásia, Eurásia e norte de África.[10]
GSM-R é uma plataforma segura para a comunicação de voz e dados entre a equipa operacional ferroviária, incluindo maquinistas, factores, despachantes, membros da equipa de manobras, engenheiros ferroviários e controladores de estação. Ele oferece recursos como chamadas em grupo (VGCS), transmissão de voz (VBS), ligações baseadas em localização e preferência de chamada em caso de emergência. Isto oferece suporte a aplicações como o rastreamento da carga, a vigilância por vídeo nos comboios (trens) e nas estações e serviços de informação aos passageiros.[9]
O GSM-R é tipicamente implementado usando antenas dedicadas nas estações base próximas à linha férrea, com a cobertura nos túneis efetuada utilizando antenas direcionais ou através da transmissão por cabo radiante (leaky feeder). A distância entre as estações base é de 7–15 km (4,3–9,3 mi). Isto cria um alto grau de redundância e uma maior disponibilidade e confiabilidade. Na Alemanha, Itália e França, a rede GSM-R tem entre 3.000 e 4.000 estações base. Em áreas onde são utilizados os Níveis 2 e 3 do Sistema Europeu de Controlo Ferroviário (ETCS Níveis 2 e 3), o comboio (trem) mantém uma ligação por modem digital com comutação de circuito para o centro de controlo do comboio (trem) em todos os momentos. Este modem opera com uma maior prioridade do que os utilizadores normais (eMLPP). Se a ligação do modem for perdida, o comboio (trem) irá parar automaticamente.[8]
Sistema superior
O GSM-R é uma camada do ERTMS (Sistema Europeu de Gestão do Tráfego Ferroviário, em inglês: European Rail Traffic Management System) que é composto por:[11]
- GSM–R: comunicação,
- ETCS (Sistema Europeu de Controlo Ferroviário, European Train Control System): sinalização,
- ETML (Camada Europeia de Gestão do Tráfego, European Train Management Layer): gestão do tráfego.
- EOR (Regras Operacionais Europeias, European Operating Rules).
Bandas de frequência
O GSM-R está padronizado para ser implementado na banda de frequência E-GSM (900 MHz-GSM) ou DCS 1800 (1.800 MHz-GSM), ambas usadas em todo o mundo.[1]
Europa
A Europa inclui os estados membros da CEPT (Conferência Europeia das Administrações de Correios e Telecomunicações), que engloba todos os membros da UE e Albânia, Andorra, Azerbaijão, Bielorrússia, Bósnia e Herzegovina, Geórgia, Islândia, Liechtenstein, Macedónia do Norte, Moldávia, Mónaco, Montenegro, Noruega, Rússia, San Marino, Sérvia, Suíça, Turquia, Ucrânia, Reino Unido e Cidade do Vaticano.[2]
O GSM-R usa uma banda de frequência específica, que pode ser descrita como a banda GSM-R padrão[12]:
- Uplink: 876-880 MHz usado para a transmissão dos dados
- Downlink: 921-925 MHz usado para a receção dos dados
Na Alemanha, esta banda foi estendida com canais adicionais na faixa dos 873-876 MHz e 918-921 MHz[13]. Sendo usada anteriormente para os sistemas de rádio troncalizados regionais, o uso total das novas frequências iniciou em 2015.[14]
China
O GSM-R ocupa uma ampla faixa dos 4 MHz da banda E-GSM (900 MHz-GSM).[15]
- Uplink: 885-889 MHz
- Downlink: 930–934 MHz
Índia
O GSM-R ocupa uma ampla faixa dos 1,6 MHz da banda P-GSM (900 MHz-GSM) cuja manutenção é assegurada pela agência Ferrovias Indianas[16]:
- Uplink: 907,8-909,4 MHz
- Downlink: 952,8-954,4 MHz
Austrália
O GSM-R está a ser implementado na banda DCS 1800[17]:
- Uplink: 1.770-1.785 MHz
- Downlink: 1.865-1.880 MHz
A banda DCS 1800 foi inicialmente dividida e leiloada em parcelas emparelhadas cada uma de 2 × 2,5 MHz com espaçamento duplex de 95 MHz. Os operadores ferroviários estaduais adquiriram seis parcelas, na sua maioria não agrupadas, que cobrem 2 × 15 MHz do espetro para implementar o GSM-R.[18]
Os operadores ferroviários estaduais re-licenciaram 2 x 10 MHz do espectro de 1800 MHz, em Adelaide, Brisbane, Melbourne, Perth e Sydney, para assegurar a segurança ferroviária e as comunicações para o controlo ferroviário. Todos, exceto o Departamento do Planeamento dos Transportes e Infraestrutura da Austrália do Sul (Adelaide), re-licenciaram 2 x 5 MHz de espectro de 1800 MHz a taxas comerciais estabelecidas pelo governo australiano.[19]
Uso da frequência técnica no GSM-R
A modulação usada é a modulação GMSK (Gaussian Minimum-Shift Keying). O GSM-R é um sistema de Acesso Múltiplo por Divisão de Tempo (em inglês: Time-division multiple access, TDMA). A transmissão dos dados é feita por quadros (frames) TDMA periódicos (com período de 4,615 ms), para cada frequência portadora (canal físico). Cada quadro (frame) TDMA está dividido em 8 intervalos de tempo, denominados canais lógicos (577 µs de comprimento, em cada intervalo de tempo), transportando 148 bits de informação.
Há preocupações de que a comunicação móvel LTE afete o GSM-R, uma vez que lhe foi atribuída uma banda de frequência bastante próxima à do GSM-R. Isto poderia causar distúrbios no ETCS, travagem de emergência aleatória devido à perda das comunicações, etc.[20]
Como resultado, há uma tendência crescente para monitorizar e gerir a interferência no GSM-R usando testes ativos e automatizados a bordo dos comboios (trens) e ao longo da via férrea[21].
Versão atual do GSM-R
A especificação do padrão GSM-R está dividida em duas especificações EIRENE[22]:
- Especificação do Requisito Funcional (em inglês: Functional Requirement Specification, FRS): a definição dos requisitos funcionais de alavanca mais elevados
- Especificação dos Requisitos do Sistema (em inglês: System Requirement Specification, SRS): a definição das soluções técnicas que suportam os requisitos funcionais
O EIRENE define as Especificações Técnica de Interoperabilidade (ETI) como o conjunto das especificações obrigatórias a cumprir para manter a compatibilidade com as outras redes europeias; as ETI atuais são o FRS 7 e o SRS 15[23]. O EIRENE também define as especificações não obrigatórias, designadas como a versão provisória, que definem as características extras que se tornarão obrigatórias nas próximas ETI. As versões provisórias atuais são FRS 7.1 e SRS 15.1. As especificações do GSM-R são bastante estáveis[24].
A versão atual do GSM-R pode ser executada tanto nas redes R99 como nas R4 3GPP.[24]
Usos do GSM-R

O GSM-R permite novos serviços e aplicações para as comunicações móveis em vários domínios[1][3]:
- transmissão dos anúncios do Long Line Public Address (LLPA) para as estações remotas ao longo da linha
- controle e proteção (Controlo Automático do Comboio / ETCS) e ERTMS
- comunicação entre o maquinista e o centro da regulação ferroviária
- comunicação dos funcionários a bordo
- envio das informações para o ETCS
- comunicação entre as estações de comboio (trem), pátio de triagem ou manobras e os carris (trilhos)
Uso principal
É usado para transmitir dados entre os comboios (trens) e os centros da regulação ferroviária com os Níveis 2 e 3 do ETCS. Quando o comboio (trem) passa por uma eurobaliza, ele transmite a sua nova posição e a sua velocidade, recebe de retorno a autorização (ou a recusa) para entrar na próxima linha e a sua nova velocidade máxima. Além disso, os sinais da via tornam-se redundantes[1].
Outros usos

Tal como outros dispositivos GSM, o equipamento GSM-R pode transmitir dados e voz. Os novos recursos GSM-R para a comunicação móvel são baseados em GSM e são especificados pelo projeto EIRENE. Os recursos da operação de chamada são[1]:
- Chamada PtP: Chamada Ponto a Ponto (em inglês: Point-to-Point Call), o mesmo tipo de chamada que uma chamada GSM normal
- VGCS: Sistema de Chamada de Voz em Grupo (em inglês: Voice Group Call System), bastante semelhante à comunicação walkie-talkie, mas com um único uplink administrado pela rede (apenas uma pessoa pode falar de cada vez)
- VBS: Sistema de Transmissão de Voz (em inglês: Voice Broadcast System), como um VGCS, mas apenas o iniciador da chamada pode falar (os outros são apenas ouvintes)
- REC: Chamada de Emergência Ferroviária (em inglês: Railways Emergency Call), é um VGCS especial definido como um 299 com a maior prioridade possível (0)
- SEC: Chamada de Emergência de Manobramento (em inglês: Shunting Emergency Call), é um VGCS especial definido como um 599 com a maior prioridade possível (0)
- Controlo da prioridade de todas as chamadas diferentes (chamadas PtP, VGCS, VBSm, REC e SEC)
Existem outros recursos adicionais[1]:
- Endereçamento Funcional (em inglês: Functional Addressing), sistema alias para chamar alguém registado na rede GSM-R, apenas conhecendo o utilizador da função temporária (maquinista do comboio senhor tal e tal,...)
- Endereçamento Dependente da Localização (em inglês: Location Dependent Addressing), sistema de roteamento para chamar o controlador ferroviário mais apropriado em relação à posição atual do comboio (trem) marcando um código de acesso pré-definido
- Modo de Manobramento (em inglês: Shunting Mode), quando os utilizadores trabalham nos carris (trilhos).
Galeria
Poste transmissor GSM-R na linha de alta velocidade Nuremberga-Ingolstadt, Alemanha.
Antena de Painel GSM-R num poste de rede do fabricante Kathrein.
Referências
- railways, UIC-International union of (14 de julho de 2021). «GSM-R». UIC - International union of railways (em inglês). Consultado em 14 de julho de 2021
- fpfis-admin (26 de outubro de 2018). «Radio Communication». ERA (em inglês). Consultado em 14 de julho de 2021
- «GSM-R: the railway's mobile communication system». Network Rail (em inglês). Consultado em 14 de julho de 2021
- «FRMCS: More than just a successive replacement for GSM-R». Global Railway Review (em inglês). Consultado em 14 de julho de 2021
- «GSM-R: a migration strategy to its successor? | Rail Engineer». web.archive.org. 22 de fevereiro de 2019. Consultado em 14 de julho de 2021
- «Beyond GSM-R: the future of railway radio». 1 de março de 2017. Cópia arquivada em 2017
- «A General Perspective of 5G – Rail Engineer». web.archive.org. 12 de outubro de 2018. Consultado em 14 de julho de 2021
- Reading 5/14/2003, LR Mobile News Feed Light. «Siemens Wins Belgian GSM-R». Light Reading (em inglês). Consultado em 29 de setembro de 2021
- railways, UIC-International union of (30 de setembro de 2021). «ERTMS». UIC - International union of railways (em inglês). Consultado em 29 de setembro de 2021
- «implementation». web.archive.org. 14 de outubro de 2007. Consultado em 29 de setembro de 2021
- «Home». ERTMS (em inglês). Consultado em 29 de setembro de 2021
- «Willtek - Technologies - GSM-R». web.archive.org. 11 de janeiro de 2014. Consultado em 14 de julho de 2021
- «Wayback Machine» (PDF). web.archive.org. 28 de novembro de 2009. Consultado em 14 de julho de 2021
- Meldung DB darf zusätzliche GSM-R-Frequenzen für Bahnfunk nutzen. In: DB Welt, Heft 12/2009, v. 15.
- «Railway Safety Regulator» (PDF)
- «Wayback Machine» (PDF). web.archive.org. 21 de maio de 2012. Consultado em 14 de julho de 2021
- «Register of Radiocommunications Licences»
- Communications. «Radiocommunications (Spectrum Access Charges - 1800 MHz Band) Determination 2012 (No. 1)». www.legislation.gov.au (em inglês). Consultado em 14 de julho de 2021
- Communications. «Radiocommunications (Spectrum Access Charges — 1800 MHz Band) Determination 2013 (No. 2)». www.legislation.gov.au (em inglês). Consultado em 14 de julho de 2021
- «The GSM-R Frequency Workshop - UIC Communications». web.archive.org. 14 de março de 2012. Consultado em 14 de julho de 2021
- «Interference solutions». Comtest Wireless (em inglês). 21 de junho de 2016. Consultado em 14 de julho de 2021
- «Background - UIC - International Union of Railways». web.archive.org. 11 de janeiro de 2014. Consultado em 14 de julho de 2021
- «GSM-R Implementation Report - UIC - International Union of Railways». web.archive.org. 11 de janeiro de 2014. Consultado em 14 de julho de 2021
- «GSM-R Technology | GSM-R Industry Group». web.archive.org. 11 de julho de 2011. Consultado em 14 de julho de 2021