Jaque

O jaque, jeque, jaco, bandeira de gurupés ou bandeira de proa constitui uma bandeira cerimonial destinada a ser içada na proa de um navio - ou no gurupés dos antigos veleiros - por oposição à bandeira nacional ou pavilhão, que se destina a ser içada à popa.[1] Os termos "jaque", "jeque" e "jaco" derivam da palavra inglesa "jack", que, por sua vez se refere à Union Jack, a bandeira nacional e jaque naval do Reino Unido, tendo prevalecido sobre os termos "bandeira de gurupés" e "bandeira de proa" a partir do século XIX.[2]

Jaque naval do Reino dos Países Baixos.
O atual jaque naval dos Estados Unidos, sendo içado no USS Kitty Hawk a 23 de dezembro de 2011
Jaque irlandês.

A maioria dos países tem apenas um único jaque nacional, normalmente para uso exclusivo dos navios de guerra (é o caso de Portugal ou do Brasil, onde é chamado "Bandeira do Cruzeiro"). No entanto, outros países podem ter vários jaques, para usos distintos. O Reino Unido e os Países Baixos possuem jaques civis, para uso em embarcações mercantes. Vários departamentos governamentais do Reino Unido têm jaques privativos para uso nas respetivas embarcações. As embarcações mercantes de alguns países içam como jaque, a bandeira da divisão administrativa (estado, província ou município) onde se encontra o seu porto de armamento (é o caso da Alemanha ou, antigamente, de Portugal).

História

Na história da navegação desde a Idade Média, a bandeira arvorada à proa de uma embarcação identificava geralmente o seu porto de origem. Esta tradição ainda é mantida na marinha mercante de alguns países, cujas embarcações costumam usar como jaque bandeiras locais das regiões onde os respetivos portos de registo se localizam.

Uma das primeiras bandeiras destinada a ser usada especificamente como jaque foi o Jaque do Príncipe de Orange (Prinsengeus em neerlandês), reportado como tendo sido usado pelos Mendigos do Mar neerlandeses na batalha em que capturaram a cidade de Brielle aos espanhóis, travada a 1 de abril de 1572. Não se conhece o aspeto deste jaque na época da batalha, mas uma descrição posterior, datada de 1590, descreve o Jaque do Príncipe como sendo uma bandeira com listas das cores laranja, branca e azul (cores simbólicas do libré da Casa de Orange), portanto idêntica à que viria a ser a Bandeira dos Países Baixos. O termo "Mendigos do Mar" (Watergeuzen em neerlandês) ou abreviadamente "Mendigos" (geuzen, no singular geus) foi criado pelos governantes espanhóis para se referirem aos nobres flamengos pobres que, chefiados pelo Príncipe Guilherme I de Orange, reivindicavam igualdade com os mesmos. O termo "geus" acabou por ser adotado pelos neerlandeses para designar as bandeiras de proa das suas embarcações. Por influência neerlandesa, vários países da Europa do Norte adotaram e ainda hoje usam termos derivados de "geus" para designar os jaques, como gösch em alemão, gös em sueco, gøs em dinamarquês ou Гюйс [guis] em russo.

Um dos mais conhecidos e marcantes jaques da história daria origem em 1707 à bandeira do Reino Unido. Em 1603, o Rei Jaime VI da Escócia sucedeu no trono de Inglaterra e tornou-se rei deste país sob o nome de Jaime I. Apesar dos dois países se manterem estados independentes, apenas sob a união pessoal do mesmo rei, Jaime I decidiu criar uma bandeira de uso marítimo que representasse a união, a qual foi aprovada a 12 de abril de 1606. Esta bandeira resultou da conjugação cruz vermelha de São Jorge sobre campo branco (bandeira de Inglaterra) com a cruz branca de Santo André sobre campo azul (bandeira da Escócia). Inicialmente foi usada tanto pelas embarcações de guerra como mercantes de ambos os países. No entanto, a partir de 5 de maio de 1634, o seu uso foi restrito aos navios de guerra e outras embarcações reais, onde passou a ser arvorado como jaque. Por essa razão passou a ser conhecido como "Jaque da União" (Union Jack em inglês). O Jaque da União foi adotado como bandeira do Reino Unido quando do Ato da União em 1707. Não se sabe exatamente a origem do termo inglês jack mas pensa-se que poderia referir-se ao diminutivo comum do nome Jaime. O termo jack ou derivados do mesmo acabaram por ser adotados em vários países para designarem as bandeiras de proa das embarcações.

Uso e etiqueta

O jaque é arvorado num pequeno mastro, localizado à proa de uma embarcação, designado "pau do jaque". No tempo da marinha à vela, o pau do jaque erguia-se no mastro do gurupés da maioria dos veleiros. Atualmente contudo, como a maioria das embarcações não dispõe de gurupés, tem o respetivo pau do jaque situado no bico de proa.

Habitualmente, o jaque não é arvorado quando o navio se encontra a navegar, mas apenas quando o mesmo se encontra fundeado ou quando está embandeirado em arco por ocasiões especiais. Nessas ocasiões, é içado e arriado ao mesmo tempo que a bandeira nacional.

Formatos e desenhos

Os jaques são normalmente retangulares ou quadrados, sendo menores que a bandeira nacional. Os jaques de alguns países constituem uma versão menor da respetiva bandeira nacional ou uma reprodução do cantão da mesma. Outros países usam uma única bandeira nacional para todos os fins, incluindo como jaque, pavilhão mercante e pavilhão de guerra. Alguns países que dispõem de pavilhões nacionais distintos da bandeira nacional, usam esta como o jaque. A versão quadrada da bandeira nacional é usada como jaque em alguns países. Um grande número de jaques mostram as armas nacionais dos respetivos países, quer ocupando a totalidade do pano do mesmo (formando uma bandeira armorial) ou como um emblema disposto no seu centro. Outros países usam como jaque uma bandeira resultante do rearranjo da respetiva bandeira nacional, contendo as suas cores e eventuais emblemas, mas dispostos de outra forma. Também existem casos de países que usam como jaque uma versão de antigas bandeiras nacionais ou navais. Os modelos de jaques de alguns países podem enquadrar-se em dois ou mais tipos dos descritos acima.

Pavilhões nacionais

Países que usam o seu pavilhão nacional como jaque. Normalmente o jaque é idêntico ao pavilhão de guerra.

Quadraturas das bandeiras nacionais

Países que usam como jaque uma versão quadrada da sua bandeira nacional.

Cantões das bandeiras nacionais

Países que usam como jaque o cantão da sua bandeira nacional. Neste caso, o jaque tem as dimensões do cantão do pavilhão nacional que estiver arvorado no navio.

Bandeiras armoriais

Países que usam como jaque uma bandeira armorial. Estes jaques consistem na quadratura do campo de um brasão de armas, sendo normalmente representadas as armas nacionais, mas em alguns casos poderão ser outras.

Bandeiras nacionais

Países que usam como jaque a sua bandeira nacional. Neste o jaque é idêtico à bandeira nacional para arvorar em terra, a qual poderá ser diferente do pavilhão nacional para arvorar em navios.

Rearranjos das bandeiras nacionais

Países que usam como jaque um rearranjo da sua bandeira nacional. Normalmente contém todos ou a maioria dos elementos da bandeira nacional, mas ordenados de outra forma.

Cruzes de Santo André

Países que usam como jaque uma bandeira contendo a cruz de Santo André. Em vários casos, a cruz de Santo André é sobreposta a uma uma cruz de São Jorge, normalmente usando as cores da bandeira nacional.

Bandeiras históricas

Países que têm como jaque uma das suas bandeiras históricas. Exemplos, são antigas bandeiras nacionais ou pavilhões navais.

Outros

Países que têm como jaque uma bandeira que não se enquadra nas anteriores. Frequentemente consistem em bandeiras de pano azul sobre o qual são colocados emblemas nacionais, militares ou navais.

Referências

  1. ESPARTEIRO, António Marques, Dicionário Ilustrado de Marinha (2ª edição), Clássica Editora, Lisboa: 2001
  2. «Royal Navy Customs and Traditions». www.hmsrichmond.org

Literatura

  • Album des pavillons nationaux et des marques distinctives. National flags and distinctive markings, Service hydrographique et océanographique de la marine, Brest, 2000

Ver também

Ligações externas

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