Massacre de Dersim
O Massacre de Dersim ocorreu em 1937 e 1938 em Dersim, atualmente província de Tunceli, na Turquia. Foi o resultado de uma campanha militar turca contra a Rebelião de Dersim por grupos locais e minorias étnicas contra a Lei de Reassentamento da Turquia de 1934. Milhares de alevitas e Zazas morreram e muitas pessoas outras foram deslocadas devido ao conflito.

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Os assassinatos são classificados por alguns como um etnocídio ou genocídio e defendido por outros como um ato militar legítimo. Em 23 de Novembro de 2011, o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan pediu desculpas em nome do Estado turco pelo massacre, descrevendo-o como "um dos acontecimentos mais trágicos da nossa história recente".
Rebelião em Dersim

Em 1934, a Turquia aprovou uma Lei de Reassentamento, visando assimilar comunidades de minorias étnicas no país.[1] As medidas incluíram o deslocamento forçado de pessoas dentro do país, com o objetivo de promover a homogeneidade cultural. Em 1935, a Lei de Reassentamento passou a se chamar lei de Tunceli devido a renomeação da província de Dersin, que era habitada Alevitas e Zazas, que passaria a se chamar Tunceli.[2] Esta área tinha uma reputação de ser rebelde, tendo sido o cenário de onze conflitos armados distintos em 40 anos.[3]
Várias manifestações públicas aconteceram em janeiro de 1937, levando a redação de uma carta de protesto contra a lei, sendo enviada ao governador local. De acordo com fontes curdas, os emissários da carta foram presos e executados. Em maio, um grupo de moradores locais atacaram um comboio da polícia em resposta ao assassinatos, sendo este o primeiro foco rebelde localizado.[4]
Cerca de 25 000 soldados foram mobilizados para conter o princípio de rebelião. Esta tarefa foi substancialmente concluída no Verão e os líderes da rebelião, incluindo o líder tribal Sayid Riza, foram enforcados. No entanto, os restos das forças rebeldes continuaram a resistir e o número de tropas na região foi duplicado. Os métodos utilizados pelo exército eram brutais, incluindo o assassinato em massa de civis, a destruição das casas, bombardeamento aéreo[3] e a deportação de pessoas para áreas menos hostis. Os rebeldes continuaram a resistir até que a região foi pacificada em outubro de 1938.[5]
Números de mortos
As estimativas do governo britânico acerca do número de mortes foi de 40 000, embora os historiadores sugerem que este número possa ser exagerado.[3] Tem sido sugerido que o número total de mortes possa ter variado de 7 594 e 13 000 pessoas.[2] Cerca de 3 000 pessoas foram deportados à força da região de Dersim.[2] Segundo um relatório oficial da época revelado em 2009, o número de civis morto teria sido 13 160 e de deportados 11 818.[6]
A conferência de 2008 organizada pelo Centro de estudos curdos (PEN turco), chegou à conclusão de que o Estado Turco tinha sido o real e único culpado do genocídio, estimado em 50 a 80 mil mortos na sequência da rebelião Dersim.[7]
Controvérsia acerca do genocídio

Muitos curdos e alguns turcos étnicos consideram os acontecimentos que tiveram lugar em Dersim como constituindo um genocídio . Um defensor proeminente dessa visão é o acadêmico İsmail Beşikçi.[8] Segundo as leis internacionais, tem-se argumentado que as ações das autoridades turcas não foram genocídio, porque eles não tinham como objetivo o extermínio de um povo, mas sim a um reassentamento e supressão.[9] Muitos estudiosos, tais como Martin van Bruinessen, tem caracterizado as ações do governo Turco como uma "cruzada anti-cultural" contra a identidade e a língua local ao invés de um etnocídio.[10][11]
Em março de 2011, um tribunal turco decidiu que as ações do governo turco em Dersim não podem ser consideradas como genocídio de acordo com a lei, porque elas não eram dirigidas sistematicamente contra um grupo étnico.[12]
Pedido de desculpas do governo

Em 23 de Novembro de 2011, o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdoğan pediu desculpas em nome do Estado pelo o massacre Dersim durante uma reunião televisionada de seu partido em Ancara. Seus comentários foram incisivamente dirigidos ao líder da oposição, Kemal Kılıçdaroğlu. Erdogan lembrou em seu discurso que o partido de Kılıçdaroğlu, o Partido Republicano do Povo (CHP), estava no poder na época do massacre, até então o único partido político na Turquia. Ele descreveu o massacre como "um dos eventos mais trágicos de nossa história recente" dizendo que, enquanto alguns procuravam justificá-la como uma resposta legítima aos acontecimentos, na realidade foi "uma operação que foi planejada passo a passo".[13]
Houve especulação na imprensa turca de que pedido de desculpas de Erdoğan possa ter sido um prelúdio para outros pedidos de desculpas acerca de outros eventos na história da Turquia, e que seus comentários podem ter sido destinados para a defesa contra as acusações de hipocrisia na sua crítica de abusos dos direitos humanos pelo líder síria Bashar al-Assad.[14]
Referências
- Çağaptay, Soner (2002). «Reconfiguring the Turkish nation in the 1930s» (PDF). Harvard University. Consultado em 2 de agosto de 2010
- Lundgren, Asa (2007). The unwelcome neighbour: Turkey's Kurdish policy. Londres: Tauris & Co. 44 páginas
- McDowall, David (2007). A Modern History of the Kurds. Londres: Tauris & Co. pp. 207–208
- Jwaideh, Wadie (2006). The Kurdish National Movement: It's origins and development. [S.l.]: Syracuse University Press. 215 páginas
- Chaliand, Gerard (1993). A People without a country: the Kurds and Kurdistan. Londres: Olive Branch Press. 58 páginas
- «Resmi raporlarda Dersim katliamı: 13 bin kişi öldürüldü». www.radikal.com.tr (em turco). Jornal Radikal. 19 de novembro de 2009. Consultado em 11 de maio de 2013
- «Dersim '38 Conference» (PDF). PEN Kurd
- İsmail Besikçi (1990). Tunceli Kanunu (1935) ve Dersim Jenosidi. [S.l.]: Belge Yayınları
- Martin van Bruinessen (1994). Genocide in Kurdistan?. [S.l.: s.n.] pp. 141–170
- Martin van Bruinessen (1994). «The Suppression of the Dersim Rebellion in Turkey (1937-38)» (PDF). Consultado em 3 de dezembro de 2011. Arquivado do original (PDF) em 8 de janeiro de 2016
- George J. Andreopoulos (1994). Conceptual and historical dimensions of genocide. [S.l.]: University of Pennsylvania Press. pp. 141–170
- Saymaz, Ismail (14 de Março de 2011). «Turkish prosecutor refuses to hear Dersim 'genocide' claim». Hürriyet Daily News. Consultado em 24 de Novembro de 2011
- «Turkey apologises for 1930s killing of thousands of Kurds». The Telegraph. 24 de Novembro de 2011. Consultado em 24 de Novembro de 2011
- «The first apology and its consequences». Hurriyet Daily News. 24 de Novembro de 2011. Consultado em 24 de Novembro de 2011
Ligações externas
- Dersim 1938 – 70 Years After (em inglês)
- Dersim on Turkey's ‘genocide' list (em inglês)
- EU-Parliament hosts Armenian and Kurdish conferences on genocides (em inglês)
- Hür, Ayşe (23 de Novembro de 2008). «Atatürk Dersim'i vuracağız dedi, vurduk» (em turco). Consultado em 23 de Novembro de 2008