Massacre do Paralelo 11
O Massacre do Paralelo 11 ocorreu em novembro de 1963 no Mato Grosso, Brasil, quando homens contratados por uma empresa de extração de borracha mataram 3,5 mil membros do povo indígena cinta-larga da Amazônia e destruíram sua aldeia.[1][2] Apenas dois aldeões sobreviveram ao massacre.[1][3] O massacre foi parte do genocídio maior e contínuo dos povos nativos do Brasil.

Contexto histórico
No final do século XIX, houve um boom da borracha na Amazônia. Isso foi um desastre para as tribos indígenas da região, pois eram usadas como mão-de-obra escrava nas plantações de seringueiras.[4] A população indígena diminuiu em 90% conforme morriam de doenças e violência.[4][5] Muitos dos sobreviventes fugiram para partes mais remotas da selva, onde seus descendentes ainda vivem hoje.[4][5]
A partir da década de 1920, o conflito entre o grupo Cinta Larga e os seringueiros aumentou até a década de 1960.[4] Em 1960 a situação piorou, quando a rodovia Cuiabá-Porto Velho (BR-364) foi inaugurada.[6] Os Cinta Larga enfrentaram ameaças não só de seringueiros, mas também de garimpeiros que buscavam suas terras por ouro e diamantes.[6]
Massacre e depois
O Massacre do Paralelo 11 aconteceu nas cabeceiras do rio Aripuanã, no Mato Grosso, no paralelo 11, sul , onde a empresa Arruda, Junqueira & Co coletava borracha.[4] O massacre foi planejado pelo chefe da empresa, Antonio Mascarenhas Junqueira. Ele queria remover os Cinta Larga da área que ele planejava explorar.[4] Ele disse: "esses índios são parasitas, são vergonhosos. É hora de acabar com eles, é hora de eliminar essas pragas. Vamos liquidar esses vagabundos".[4]
Junqueira contratou um avião, que lançou dinamite na aldeia.[4] Depois disso, homens armados atacaram a aldeia a pé com metralhadoras para matar os sobreviventes.[4] Em um incidente, eles pegaram um bebê de uma mulher amamentando e atiraram na cabeça do bebê.[4] Eles então penduraram a mulher de cabeça para baixo e a cortaram ao meio.[4] Trinta aldeões foram mortos no ataque.[1] Apenas dois sobreviveram.[1]
O atentado chamou a atenção quando um dos agressores, Atayde Pereira dos Santos, denunciou e os responsáveis da Inspetoria do SPI em Cuiabá , aparentemente depois de não receber a quantia prometida.[6] No julgamento de um dos acusados, o juiz disse: "Nunca ouvimos um caso em que havia tanta violência, tanta ignomínia, egoísmo e selvageria e tão pouca apreciação da vida humana".[4] Em 1975, um dos perpetradores, José Duarte de Prado, foi condenado a 10 anos de prisão, mas foi perdoado no final daquele ano.[4] Ele declarou durante o julgamento: "É bom matar índios - eles são preguiçosos e traiçoeiros".[4]
Detalhes do massacre foram incluídos no Relatório Figueiredo de 1967, um marco que levou à substituição do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI).[1][7]
Quase dez anos depois do massacre o fazendeiro Antonio Junqueira era o maior latifundiário da região do rio Aripuanã e obteve das autoridades a abertura de uma estrada que atenderia sua fazenda e atravessava a terra indígena então existente.[8]
Mais recentemente, o grupo de defesa dos direitos dos indígenas Survival International usou este massacre como um exemplo do motivo pelo qual as tribos isoladas evitam contato com o mundo exterior, em um artigo intitulado "Por que elas se escondem?"[4]
Referências
- «'Lost' report exposes Brazilian Indian genocide»
- dos Santos, Júlio César (2015). «O Processo de Multiterritorialização no Noroeste de Mato Grosso: Uma Reflexão Sobre os Impactos Sociais nas Vidas de Indígenas, Seringueiros, Colonos e Garimpeiros» (PDF). Consultado em 25 de janeiro de 2019
- «Chacina de indígenas em MT pode repetir-se». Correio da Manhã, ano LXIII, edição 21702, página 3/republicado pela Biblioteca Nacional-Hemeroteca Digital Brasileira. 3 de janeiro de 1964. Consultado em 4 de setembro de 2022
- «Why do they hide?»
- «Uncontacted Tribes By Choice or By Chance?»
- «Cinta larga». pib.socioambiental.org
- «Cintas-largas, garimpeiros e o Massacre do Paralelo 11». Observatório da Imprensa. 20 de abril de 2004. Consultado em 25 de janeiro de 2019
- «Professor acha que parques podem ser nocivos ao índio». Jornal do Brasil, ano LXXXII, edição 337, página 13/republicado pela Biblioteca Nacional-Hemeroteca Digital Brasileira. 28 de março de 1973. Consultado em 4 de setembro de 2022