Ricardo Salgado
Ricardo do Espírito Santo Silva Salgado (Cascais, Cascais, 25 de junho de 1944) é um economista português.[1] Foi presidente do Banco Espírito Santo e era, à data de 24 de Julho de 2014, o banqueiro há mais tempo no ativo em Portugal.[2] Era conhecido geralmente como "O Dono Disto Tudo".[3][4]
| Ricardo Salgado | |
|---|---|
![]() Ricardo Salgado | |
| Nascimento | 25 de junho de 1944 Cascais |
| Cidadania | Portugal |
| Alma mater | |
| Ocupação | banqueiro |
Início de vida
Ricardo Salgado passou os primeiros anos da sua vida em Lisboa, vivendo na Lapa.
Fez todo o seu percurso escolar em escolas públicas, frequentando uma primária na Lapa e, mais tarde, o Liceu Pedro Nunes.[5][6]
Em 1969 licenciou-se em Economia pelo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (actual ISEG) da Universidade Técnica de Lisboa.
Cumpriu o serviço militar na Marinha Portuguesa, onde fez o Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval, antes de se juntar ao Banco Espírito Santo & Comercial de Lisboa, em 1972.[1]
Carreira
Em 1972, no Banco Espírito Santo & Comercial de Lisboa, assume a direção do gabinete de estudos económicos e posteriormente a direção de crédito, onde fica até 1975, altura em que o banco foi nacionalizado.[1]
Ele foi para o exterior onde participa na reconstrução do Grupo Espírito Santo primeiro a partir do Brasil (1976-1982) e depois na Suíça (1982-1991), de onde regressava para investir em Portugal. Começou pela criação do Banco Internacional de Crédito em 1986, quando a Constituição da República Portuguesa ainda não permitia reprivatizações.[5] Mais tarde esse banco é absorvido pelo Banco Espírito Santo.
Em 1991, após a reprivatização, Ricardo Salgado assume a presidência executiva do Banco Espírito Santo e dá início a um percurso que conduziu a um aumento de quota de mercado de 8% para 20% e à internacionalização do BES. Em 2002 foi nomeado para o Supervisory Board da Euronext NV (Amesterdão) e em 2006 participa na fusão da Euronext com o New York Stock Exchange (NYSE), tendo feito parte do seu Conselho como membro não Executivo até 2011. Foi Administrador não Executivo do Banco Bradesco (Brasil) de 2003 a 2012.[7]
Foi presidente da comissão executiva e vice-presidente do Conselho de Administração do Banco Espírito Santo. Foi também membro do conselho superior do Grupo Espírito Santo. Acumulou essas funções com as de presidente do Conselho de Administração do Espírito Santo Financial Group sedeada em Luxemburgo) e do Banco Espírito Santo de Investimento (BESI). Foi ainda administrador do Espírito Santo Bank of Florida (EUA), da E.S. International Holding (Luxemburgo), da Espírito Santo Resources (Bahamas), do Banque Privée Espírito Santo (Suiça) e do Banque Espírito Santo et de la Vénétie (França).[6] Foi mentor da internacionalização do BES apostando no triângulo estratégico África, Brasil e Espanha. Hoje a área internacional pesa metade dos lucros do banco.[8] Em 2012 o banco liderado por Ricardo Salgado foi o único dos três maiores bancos privados portugueses a aumentar capital recorrendo apenas aos acionistas e ao mercado de capitais, sem recorrer ao dinheiro dos contribuintes.[9] Em Janeiro de 2013 o BES foi o único banco português a gerir a operação que marca o regresso de Portugal aos mercados desde que o país foi alvo de intervenção da troika.[10]
Operação de aumento de capital do BES
Em Junho de 2014, o banco liderado por Salgado levou a cabo uma operação de aumento de capital, considerada pelo banqueiro como a de maior sucesso desde a privatização em 1992. O aumento de capital do BES foi totalmente subscrito, tendo a procura superado 178% da oferta disponível.[11][12]
O prospeto de informação aos investidores não tinha toda a informação devida. Foi com ela que os acionistas e investidores aplicaram mais de mil milhões de euros no BES que, pouco mais de um mês e meio, foi alvo de uma medida de resolução aplicada pelo Banco de Portugal, perdendo-se esse investimento.
Por exemplo, no prospeto não havia os dados verdadeiros e completos sobre a exposição dos clientes do BES a sociedades do Grupo Espírito Santo, bem como o que se passava na exposição ao BES Angola (havia nota sobre a garantia estatal angolana, mas não sobre a situação em que se encontrava o próprio BESA).
Ao longo da operação de aumento de capital, ocorreram várias transações que deviam ter sido comunicadas ao mercado, o que não aconteceu. Aqui estão as operações financeiras com dívida do BES, como também as cartas-conforto a entidades venezuelanas.
Em Janeiro de 2021, Ricardo Salgado foi alvo de uma nova condenação, aplicada pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários. A coima é de um milhão de euros. Em causa está o processo relativo ao aumento de capital do banco, em que a instituição recebeu mais de mil milhões de euros de acionistas e investidores[13].
Afastamento da liderança do BES
No entanto, no mês seguinte Salgado foi afastado da liderança do Banco e substituído por Vitor Bento[14] devido à revelação de prejuízos e irregularidades de contas,[15] mais tarde confirmados como consequências de "gestão ruinosa" praticada por Salgado.[16]
Acusação
Em Julho de 2020 o Ministério Público vai acusou Ricardo Salgado de liderar uma associação criminosa enquanto esteve à frente do Grupo Espírito Santo. Em causa está uma estrutura fraudulenta criado pelo antigo banqueiro, uma organização montada sem conhecimento da maioria da equipa de gestão e das entidades de fiscalização do banco, nomeadamente, do Banco de Portugal. Ricardo Salgado foi o cérebro e o líder de uma rede criminosa, por si estruturada dentro Grupo Espírito Santo e do Banco Espírito Santo, com a finalidade de cometer delitos de forma organizada. Através desta estrutura faz pagamentos ocultos, cometeu fraudes no comércio internacional e desviou fundos de centenas de milhões de euros para corrupção, tendo desnatado o BES em mais de mil milhões de euros.
Este caso é a mais grave acusação alguma vez feita até hoje a um banqueiro em Portugal e será o maior escândalo financeiro da história do país.[17]
Em Outubro de 2021, A defesa do antigo banqueiro pediu a suspensão do processo fundamentando-o com um atestado médico a comprovar o diagnóstico de doença de Alzheimer[18].
Prémios
Foi nomeado Economista do Ano, pela Associação Portuguesa de Economistas (1992) e Personalidade do Ano, pela Câmara Portuguesa de Comércio do Brasil (2001).
Condecorações
Recebeu as seguintes condecorações:
Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito de França (? de ? de 1994)
Grande-Oficial da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul do Brasil (? de ? de 1998)
Medalha de Mérito Empresarial da Câmara Municipal de Cascais (? de ? de 1999)[19][20]
Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra de França (? de ? de 2005)
Grã-Cruz da Ordem do Mérito da República da Hungria (27 de Novembro de 2012)[21]
Distinções
Distinguido na categoria Lifetime achivement em Mercados Financeiros nos Investor Relations and Governance Awards 2012, iniciativa da Deloitte que distingue as melhores práticas no sector empresarial.[22]
Em dezembro de 2014, Salgado foi considerado o pior presidente executivo de 2014 pela BBC. Esta escolha foi baseada no facto de Salgado ser o principal agente na queda do segundo maior banco português.[23]
Doutoramentos Honoris Causa
Em julho de 2013 foi-lhe atribuído o doutouramento Honoris Causa pela Universidade Técnica de Lisboa, tendo sido distinguido por serviços prestados à Economia, Cultura, Ciência e à Universidade.[1]
Outros cargos
Ricardo Salgado foi membro do Instituto Internacional de Estudos Bancários desde 2003 e seu presidente entre outubro 2005 e dezembro 2006. Foi também membro do Board of Directors, do Human Resources e Compensation Committee da NYSE Euronext.[5]
Operação Monte Branco
Em 2012, Salgado rectificou por três vezes a sua declaração de IRS de 2011, tendo no total das rectificações pago mais de 4,3 milhões de euros de IRS face à colecta inicial.[24][25] Em 2003, em entrevista ao jornal Expresso tinha afirmado: "As pessoas têm de aprender que devem pagar impostos".[26]
Em 24 de Julho de 2014, no Estoril, Salgado foi detido em sua casa, por alegado envolvimento na Operação Monte Branco, "que investiga a maior rede de branqueamento de capitais alguma vez detetada em Portugal". Depois de prestar declarações no Tribunal Central de Instrução Criminal foi posteriormente libertado e sujeito à prestação de uma caução de três milhões de euros. Segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR), Salgado está indiciado por crimes de burla, abuso de confiança, falsificação e branqueamento de capitais. De acordo com o que foi defendido pelo procurador do Ministério Público após o interrogatório e ordenado pelo juiz Carlos Alexandre, o banqueiro ficou ainda proibido de se ausentar do território nacional e de efectuar contactos com determinadas pessoas que estão relacionadas com o processo.[27]
Por pressão do Banco de Portugal, Ricardo Salgado pediu demissão em 20 de Junho 2014 do cargo de Presidente da Comissão Executiva do BES,[28] tendo sido substituído por Vítor Bento.[29] A 2 de Julho 2014, demite-se da presidência do BESI.[30]
Ricardo Salgado transferiu para a mulher e os três filhos quase 2 mil milhões de euros, cinco meses antes do colapso do BES.[31]
Em Maio de 2015, Salgado enfrentou acusações de prática de atos dolosos de gestão ruinosa. Salgado ordenou que a contabilidade do Espirito Santo Internacional fosse alterada, o que mostra que Salgado terá mentido na comissão parlamentar de inquérito. Estas práticas terão lesado depositantes, investidores e demais credores, segundo as acusações do BdP.[32]
Em julho de 2015, foi constituído arguido, indiciado por crimes de burla qualificada, falsificação de documentos, falsificação informática, branqueamento, fraude fiscal qualificada e corrupção no setor privado, no âmbito das investigações relacionadas com o denominado "Universo Espírito Santo". O juiz decidiu aplicar ao arguido a medida de coação de prisão domiciliária com vigilância policial (24 horas).[33]
Em junho de 2016, o Banco de Portugal condenou Salgado a uma multa de quatro milhões de euros e à proibição de exercer qualquer actividade na banca durante 10 anos. Foi condenado por cinco atos ilícitos referentes à venda de dívida da Espírito Santo International a clientes do antigo BES e da ESAF.[34]
Operação Marquês
Ricardo Salgado é arguido no processo Operação Marquês.[35]
Está acusado de corrupção ativa de titular de cargo político (1), corrupção ativa (2), branqueamento de capitais (9), abuso de confiança (3) falsificação de documento (3) e fraude fiscal qualificada (3).
No Ministério Público, confrontado com milhões transferidos do GES, terá negado que alguma vez tenha pago luvas ao antigo primeiro-ministro.
No dia 7 de Março de 2022, o Tribunal Central Criminal de Lisboa condenou Ricardo Salgado a seis anos de prisão efetiva por desvio de 10,7 milhões de euros do Grupo Espírito Santo para a sua esfera pessoal.[36]
Caso EDP
Ricardo Salgado, foi acusado em dezembro de 2022 de corrupção pelo Ministério Público, no âmbito do caso EDP, juntamente com Manuel Pinho. O ex-banqueiro foi acusado em concurso efetivo e autoria material de um crime de corrupção ativa para ato ilícito, um crime de corrupção ativa e outro de branqueamento de capitais.[37]
Família
Filho de João Carlos Roma Machado Cardoso Salgado (1916 - a. 1986), Economista de ascendência Austríaca, e de sua mulher (Cascais, Cascais) Maria da Conceição Cohen do Espírito Santo Silva (Lisboa, São Mamede, 21 de Dezembro de 1920 - Cascais, Cascais, 28 de Dezembro de 2010), de ascendência Judaica Sefardita e Italiana, neto materno de Ricardo Ribeiro do Espírito Santo Silva, meio-sobrinho-bisneto do 1.º Barão de Sendal e sobrinho-trineto do 1.º Visconde de Faria e Maia, primo de José Maria Ricciardi, Maria João Bustorff e António Bustorff e primo-tio em segundo grau de Patrícia Brito e Cunha e Ana Brito e Cunha.[38] É também primo do arquitecto e ex-vereador da Câmara Municipal de Lisboa Manuel Salgado.[39][40]
Referências
- «Nota Biográfica de Ricardo Salgado». Site BES. Consultado em 20 de novembro de 2013. Arquivado do original em 8 de agosto de 2014
- «José Maria Ricciardi é primo de Ricardo Salgado e o principal candidato à sucessão no BES». SIC Notícias. Consultado em 20 de novembro de 2013. Arquivado do original em 3 de dezembro de 2013
- Diário de Notícias (10 de Julho de 2014). «A ascensão e queda do "Dono Disto Tudo"». Consultado em 14 de Dezembro de 2014
- Maria João Gago (20 de Junho de 2014). «De Dono Disto Tudo a banqueiro reformado». Jornal de Negócios. Consultado em 19 de Dezembro de 2014
- «O Banqueiro do costume». Diário Económico. Consultado em 20 de novembro de 2013
- Romeira, Maria (14 de fevereiro de 2003). «OS RICOS PORTUGUESES». Correio da Manhã. Consultado em 11 de maio de 2012. Arquivado do original em 12 de novembro de 2013
- «Nota Biográfica de Ricardo Salgado». Site BES. Consultado em 21 de novembro de 2013. Arquivado do original em 8 de agosto de 2014
- «O Banqueiro do costume Diário Económico» 🔗. 24 de julho de 2011. Consultado em 21 de novembro de 2013
- «Como o BES evitou o dinheiro dos contribuintes» (PDF). Revista Exame. 1 de outubro de 2012. pp. 24 a 34
- «Barcalys, Deutsche Bank, BES e Morgan Stanley montam regresso ao mercado». Diário Económico. 21 de janeiro de 2013
- Jornal de Negócios, Ricardo Salgado: "Foi o aumento de capital com mais sucesso desde 1992"
- Jornal de Negócios, Procura no aumento de capital do BES supera oferta em 79%
- «Nova condenação da CMVM no caso BES: coimas de €1 milhão para Salgado e de €1,8 milhões para outros ex-gestores»
- Martins, Nuno André. «Vítor Bento será o novo presidente do BES». Observador. Consultado em 12 de outubro de 2017
- Lusa, PÚBLICO,. «Banca. "Irregularidades" na Espírito Santo Internacional podem afectar reputação e cotação do BES». PÚBLICO
- SOL, Jornal. «Confirmada gestão ruinosa no BES». Semanario SOL
- «Ricardo Salgado vai ser acusado de liderar organização criminosa dentro do BES»
- «Defesa de Ricardo Salgado pede suspensão do processo por diagnóstico de Alzheimer»
- «Cascais discute proposta para tirar medalha de mérito a Ricardo Salgado». Diário de Notícias. 1 de Abril de 2015. Consultado em 2 de Abril de 2015
- «Ricardo Salgado pode perder medalha atribuída pela Câmara de Cascais». TVI24. 1 de Abril de 2015. Consultado em 2 de Abril de 2015
- «Ricardo Salgado condecorado pelo governo húngaro». cclusohungara.pt. Consultado em 11 de Dezembro de 2014
- «Investor Relations and Governance Awards 2012». site Deloitte. Deloitte.com. Consultado em 2 de agosto de 2014
- «Salgado eleito pior gestor do ano pela BBC»
- «Ricardo Salgado regularizou 4,3 milhões de euros de IRS». Jornal de Negócios. 17 de Janeiro de 2013. Consultado em 6 de março de 2013
- Por Carlos Diogo Santos e Luís Rosa (17 de Janeiro de 2013). «Ricardo Salgado esqueceu-se de declarar 8,5 milhões de euros ao fisco». Jornal i. Consultado em 6 de Março de 2013
- «Ricardo Salgado: "As pessoas têm de aprender que devem pagar impostos"». Expresso.sapo.pt
- Ana Henriques, Pedro Sales Dias (24 de julho de 2014). «Ricardo Salgado fica em liberdade sujeito a caução de três milhões». Publico. Consultado em 24 de julho de 2014
- Dinheiro Vivo (19 de junho de 2014). «Ricardo Salgado entrega demissão de presidente do BES». Dinheiro Vivo. Consultado em 25 de julho de 2014
- Jornal Observador (4 de julho de 2014). «Vítor Bento será o novo presidente do BES». Jornal Observador. Consultado em 25 de julho de 2014
- RTP (2 de julho de 2014). «Ricardo Salgado demitiu-se da administração do BESI». RTP. Consultado em 25 de julho de 2014
- «BES. Salgado transferiu 1800 milhões de euros para a família antes do colapso»
- «Banco de Portugal acusa 15 gestores do BES de gestão ruinosa e falsas informações»
- «Ricardo Salgado está em prisão domiciliária com vigilância policial»
- «Bdp condena Ricardo Salgado a multa de 4 milhões e inibição de trabalhar na banca»
- «Contas bancárias: MP investiga as de Manuel Pinho, Suíça arresta as de Ricardo Salgado»
- «Ricardo Salgado condenado a seis anos de prisão efetiva por desviar milhões do GES»
- «Caso EDP. Manuel Pinho e Ricardo Salgado acusados de corrupção»
- José Maria Raposo de Sousa Abecassis (1990). Genealogia Hebraica. 1.ª Edição, Lisboa: Edição do Autor. pp. Volume II Beniso – Fresco. 580-1, 584-5 e 586-7
- «Manuel Salgado. Há 14 anos a ser o DLT (Dono de Lisboa Toda)». www.dn.pt. Consultado em 21 de março de 2022
- «Manuel Salgado debaixo de fogo após buscas na Câmara Municipal de Lisboa». Jornal SOL. Consultado em 21 de março de 2022
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