Rio Paivó
O Paivó é um rio português afluente do rio Paiva. Há dois afluentes do rio Paiva com o nome muito parecido, ainda que sejam dois rios distintos um do outro. São eles o Paivô (com acento circunflexo no ô) que nasce na serra da Arada e o rio Paivó (com acento agudo no ó).
| Paivó | |
|---|---|
| Nascente | Monte dos Testos |
| Foz | Rio Paiva |
| País(es) | |
História
Nas Inquirições de D. Afonso III, datadas de 1258, encontram-se várias referências ao Rio Paivó (Pavoo) e, numa delas, este rio aparece associado ao lugar da Relva, dito assim:
«Donus Pelagius de Folgosa juratus e interregatus dixit quod Petrus pater ejus testavit ecclesia de Castro in loco qui dicitur Petra Nigra, tempore Domini Regis Sancii fratibus istius Regis; e addit quod ille in vita sua dedit eidem ecclesia alliam hereditatem forariam Regis in termino de Pavoo, in loco dicitur Relva»
Ora, sendo certo que «termino», segundo Viterbo (Ilucidário, vol. II pp. 606), significa «termo, limites, confrontações, balizas» e, segundo o Lello Universal «termo» significa« região próxima, circunvizinhança» poder-se-á concluir que este afluente do Paiva, que dá pelo nome de Paivó, já em 1258 passava próximo da Relva, sendo que esta Relva aqui referida é a povoação que pertence à freguesia de Momteiras tal como se conclui das Memórias Paroquiais mandadas fazer por D. José em 1758, onde se lê o seguinte acerca dos povos que constituem essa freguesia:
«É esta terra do termo da vila de Castro Daire e compreende em si mais três lugares ou aldeias um chamado Colo de Pito tem vinte moradores e vizinhos, das Carvalhas dezanove e da Relva vinte e seis»..
E depois, referindo-se aos rios que correm na freguesia diz:
«Os regatos que tem esta terra, um chama-se o da Louçã e outro Payvó. Estes nascem em um monte chamado Cervela (...) Sempre tem mantido o mesmo nome (...) Morrem no rio chamado Paiva junto à vila de Crasto Daire».
Dois «regatos (...) que sempre mantiveram o mesmo nome» - Louçã e Paivó - atravessam, pois, a freguesia das Monteiras. Ora, sendo certo que em 1258 o lugar da Relva se situava nas proximidades do Paivó e que a Relva pertence à freguesia das Monteiras em 1758, parece poder concluir-se que este afluente do Paiva, cedo recebeu o seu nome de baptismo, cedo passou a exibir a sua certidão de idade, nela atestando o lugar do seu nascimento e a região onde se atreveu a dar os primeiros passos, muito próximo do seu irmão de aventura que, partindo do mesmo sítio topográfico seguiram encostas diferentes para se encontrarem uns quilómetros mais abaixo. De facto, como dois meninos desavindos no ventre materno, dois rios resolvem romper as águas e vir ao mundo nas vertentes opostas do Monte dos Testos (a Cervela referida nas Memórias Paroquiais, ainda hoje existente em sentido mais abrangente.
Separados à nascença com alguma experiência de vida correndo entre montes e vales de curtos horizontes, escorropichando gemedoiros e fontes ao longo dos seus cursos, resolvem confluir no sítio da Louçã e, irmanados, com um só nome, descerem ao rio Paiva (junto de Castro Daire) para depois este entrar no Douro e chegar ao Atlântico.
Um desses rios, o que toma o nome Paivó, encontra o primeiro alento na fonte da Lameira do Abade e logo a seguir na fonte de Chã de Medas e o outro há de hesitar durante muito tempo entre chamar-se Aguinaldo, Delobra ou Louçã. Este, depois de ter tentado roubar o nome ao irmão (cf. Carta do Exército 1945), parece ter adoptado definitivamente o nome Delobra, dando o seu a seu dono.
E nestas coisas da história, geografia, hidrografia e história regionais e locais, bem andará o investigador se for para o terreno e, nos seus apontamentos, não descorar a informação oral e os topónimos vivos, pois estes, quais bilhetes de identidade, daquilo que designam, são uma espécie de esteios que permaneceram séculos sem arredar pé dos sítios, lugares, povos, rios, montes e vales onde foram colocados. Até porque as Matrizes Prediais, para efeito de impostos a tanto obrigavam.
Mas, no encalço do rio Paivó, como complemento do conhecimento adquirido e contra eventuais dúvidas que eventualmente possam ser suscitadas entre o nome e o referente, nada melhor que recorrer-se à acta arquivada nas Juntas de Freguesia de Monteiras e de Cujó, com data de 3 de Abril de 1961. Nesta acta, estas duas Juntas vizinhas resolveram reunir-se para «acordarem entre si sobre os limites que para o futuro ficará a ter a zona baldia existente dentro do termo da freguesia de Monteiras, mas usufruída também pelos habitantes da freguesa de Cujó» e na sequência do acordo estabelecerem uma linha divisória entre as duas freguesias de molde a cada qual saber até onde chegava a sua jurisdição. Eis a transcrição que ajuda a preencher a lacuna deixada em aberto em 1758, pelo Cura, Manuel Cardoso, relativamente à identificação e localização exacta do rio Paivó. Assim:
«(...) segue dali em direcção ao terreno de José Pereira Vaz, seguindo a linha de água ao fundo do lameiro de José Teixeira onde estão gravadas duas cruzes numa fraga no regato no sítio denominado Morgado e dali segue pelo ribeiro abaixo até entroncar no rio Paivó seguindo pelo curso deste abaixo até à passagem das poldras do Sabugueiro onde estão gravadas três cruzes numa fraga e dali segue pelo caminho do Sabugueiro até à bifurcação dos caminhos desviado da poça das Margaridas, cerca de oitenta metros para o lado de sudoeste da referida poça (...)».
Assim sendo o rio Paivó é mesmo aquele que passa ao pé da Relva, aquele que foi referido nas Inquirições de 1258, que foi referido no Inquérito de 1758 e que, em 1961, foi referido e escolhido pelas Juntas das Freguesias de Cujó e de Monteiras para que uma parte do seu curso servisse de fronteira entre as duas freguesias. De resto, os povos serranos, interpelados que sejam sobre a geografia, hidrografia e toponímia locais, sem apoio de manuscritos, de livros, mapas ou cartas geográficas, civis e/ou militares não perdem pé no que afirmam. E o rio Paivó, nunca teve outro nome senão aquele que, na memória dos vivos, chegou dos avoengos mortos.