Siglas poveiras

As siglas poveiras ou marcas poveiras são uma forma de "proto-escrita primitiva", tratando-se de um sistema de comunicação visual simples usado na Póvoa de Varzim, durante séculos, em especial nas classes piscatórias. Para se escrever usava-se uma navalha e eram escritas sobre madeira, mas também poderiam ser pintadas, por exemplo, em barcos ou em barracos de praia.

Siglas Poveiras base para a maioria das siglas familiares.

Foram estudadas por diversos historiadores, de entre os quais se destaca António Graça, e Paulo de Sousa Pinto. As siglas têm uma possível origem viking e coincidem com o antigo alfabeto nórdico, as runas, tese que é promovida por antropólogos como o professor Octávio Lixa Felgueiras,[1] que refere haver indícios antropológicos de comunidades nórdicas que se terão fixado na região. É também sabido que pela Europa, outros povos utilizaram este tipo de escrita logográfica, conhecida como marcas de casa, visto facilitar a comunicação não-verbal e materializar uma maior sensação de pertença sobre os bens marcados.

As siglas e a sua origem

Calçada em mosaico português com siglas
Placa de logradouro com várias siglas poveiras na moldura.

A atividade piscatória na enseada natural da Póvoa de Varzim está comprovada desde a antiguidade, mas é nos séculos XVIII e XIX que o povoado ganha o estatuto de maior praia de pescado do norte e centro do país. Nessa altura eram milhares de pescadores a usavam o areal para secarem e consertaram os seus inúmeros (e idênticos) aprestos de pesca, pelo que a identificação de posse se tornava uma questão especialmente sensível.

Também a faina no mar levantava questões da mesma natureza, como a do reconhecimento das redes de cada embarcação ou a marcação do peixe capturado por cada um dos membros da “companha”. Revelando um grande sentido prático, a “colmeia” piscatória desenvolveu diferentes sistemas de marcação, cada um adaptado à situação identificada, formando sistemas organizados cujos códigos eram totalmente dominados pela comunidade, mas desconhecidos fora dela.[2]

Para a identificação dos aprestos o poveiro partiu de um conceito cujas raízes se perdem nas brumas da história, mas acrescentou-lhe peculiaridades que lhe adicionaram outras funções. O sistema baseia-se no uso de símbolos gráficos – siglas ou marcas (marka) – criados a partir da estilização de referências visuais do dia-a-dia. O enquadramento de um novo pescador na comunidade passava pelo desenvolvimento da sua própria sigla/marca, que não podia ser confundida com a de nenhum outro membro da “colmeia”. A partir da sigla inicial, este sistema de identificação individual obedecia a normas de construção e transmissão que permitiam a referenciação de cada individuo à família e, dentro desta, o respetivo lugar na linhagem.[2]

Nas primeiras décadas do século XX, com a crescente alfabetização da classe e as profundas alterações nas técnicas e equipamentos de pesca, todas estas práticas caíram em desuso. Atualmente as siglas continuam a ser uma referência cultural às raízes piscatórias da Póvoa, mas agora totalmente desprovidas da simbologia de outrora. Vemo-las aplicadas como elementos decorativos em alguns equipamentos da cidade, ou recuperadas pelas famílias que orgulhosamente as usam como verdadeiros brasões, mesmo que as suas ligações à pesca tenham sido quebradas há várias gerações.[3][4]

As siglas foram estudadas, pela primeira vez, por António dos Santos Graça no seu livro Epopeia dos Humildes. Editado em 1952, o livro contém centenas de siglas e a história e tragédia marítima poveiras. Outras das suas obras são O Poveiro (1932), A Crença do Poveiro nas Almas Penadas (1933) e Inscrições Tumulares por Siglas (1942).

Em 1980 uma exposição sobre as siglas, organizada por João Francisco Marques no Museu de História e Etnografia, recebeu o prémio internacional European of the Year Award como a melhor exposição temática.[5] Para valorizar essa antiga tradição, a Câmara decidiu adoptar um novo modelo nas placas identificatórias de alguns logradouros, com o nome do local rodeado de uma moldura onde são gravadas diversas siglas. 287 placas foram instaladas em todas as artérias centrais da cidade.[4]

Mais recentemente, Eduardo da Silva Travessas em Rema Parente Que Lá Fora Vem Mar. História das tragédias marítimas de Aver-o-Mar apresenta uma lista de marcas utilizadas por pescadores de Aver-o-Mar com um grafismo e tradição semelhantes às siglas poveiras.[6]

Marcas familiares

Marca na soleira de uma garagem particular na Rua Cândido Landolt no centro da Póvoa.

As marcas são consideradas brasões de família, usadas desde tempos imemoriais pela comunidade, e com estes símbolos marcam-se todos os objetos marítimos e caseiros, ou seja, são um registo de propriedade. A "marca-brasão" de uma família era conhecida por toda a comunidade poveira, sendo os filhos reconhecidos através da contagem dos piques, uma sigla que corresponderia a um traço.[2]

Este sistema de assinatura familiar revelava-se útil, eram usadas pelos vendedores no seu livro de conta fiada, sendo lidas e reconhecidas como reconhecemos um nome escrito em alfabeto latino. Os valores em dinheiro eram simbolizados por rodelas e riscos designando vinténs e tostões, respectivamente; e desenhados depois da marca de um dado indivíduo. Mas é nos túmulos que a «marca-sigla» adquire o cunho pessoal, a sigla gravada na lousa tumular indicava o indivíduo que jazia na sepultura.

Segundo conta o capitão do Porto de Leixões, o Conde de Vilas Boas, um indivíduo furtou uma bússola na Póvoa de Varzim e foi vendê-la a Matosinhos, mas desconhecia que uns "sarrabiscos" gravados na tampa indicavam quem era o dono. A primeira pessoa a quem tentou vender foi a uma poveira. Esta reconheceu imediatamente a sigla e seu dono e com outros pescadores, que também reconheceram a marca, levaram o homem, à força, para a capitania.[7]

Herança da marca

Um exemplo de siglas poveiras hereditárias numa família de quatro filhos. A posição dos piques varia consoante a família.

As marcas são brasões de famílias hereditários, transmitidos por herança de pais para filhos, têm simbolismo e só os herdeiros podem usar.

As marcas eram passadas do pai para o filho mais novo. Aos restantes filhos eram dadas a mesma marca mas com «pique». Assim, o filho mais velho tem um pique, o segundo dois, e por aí em diante, até ao filho mais novo que não teria nenhum pique, herdando assim a marca-brasão de seu pai. Existiam vários modos de colocar os piques na marca, desde picar, gradar até cruzar a marca. Formando-se assim, conforme o número de piques, cruzes, estrelas, grades.[7]

Na tradição poveira, que ainda perdura, o herdeiro da família é o filho mais novo tal como na antiga Bretanha e Dinamarca. O filho mais novo é o herdeiro dado que é esperado que tome conta dos seus pais quando estes se tornassem idosos. O Poveiro, ao chegar à meia idade, dava o lugar na lancha ao filho mais novo, que lhe tomava conta da rede e aprestos sinalados.[7]

Para as gerações seguintes, a dos netos, a regra é idêntica. Estes têm para além dos seus piques, os piques na marca do pai, caso nenhum dos dois seja o filho mais novo.

Siglas mágico-religiosas

Sanselimão desenhado junto à porta de uma casa na Rua da Quingosta, uma das mais estreitas e antigas ruas poveiras.

Capelas em praias e montes

Locais úteis para o estudo das siglas são os templos religiosos localizados não só na cidade e no seu concelho, mas também por todo o noroeste peninsular, em especial no Minho (em Portugal), e também na Galiza.

Os Poveiros, ao longo de gerações, costumavam gravar nas portas das capelas perto de areais ou montes a sua marca como documento de passagem ou como promessas da campanha. Todos os barcos têm o seu santo patrono e em toda a divisão de lucros, há sempre umas moedas para o santo. Estas moedas ficavam na posse do mestre da embarcação. Quando este as vai cumprir, quase sempre no dia de festa ou romaria do santo invocado, grava a sua marca na porta da capela, arco cruzeiro ou caixa das Esmolas testemunhando que desempenhou devotadamente o encargo que lhe foi confiado. A marca serviria para como que os poveiros que mais tarde a vissem que passou por ali ou para trazer boa ventura a si mesmos pelo santo que fora venerar. Isso pode ser verificado na Nossa Senhora da Bonança, em Esposende, e Santa Trega (Santa Tecla) no monte junto à Guarda, Galiza.

Em 23 de Setembro de 1991 é inaugurada nas festividades de Santa Trega, uma escultura em honra às siglas poveiras que recorda a antiga porta coberta de siglas da capela de Santa Trega, por forma a perdurar o que tinha sido perdido, com a inauguração veio da Póvoa de Varzim uma expedição a bordo da lancha poveira Fé em Deus, cujos pescadores subiram ao Trega e oraram na ermida dedicada à padroeira do Monte. Os montes perto da costa, por serem visíveis do mar, têm importância na religiosidade dos poveiros. Outrora, os pescadores iam ao monte rezar à santa num ritual com cantigas de forma a mudar os ventos para que pudessem regressar a casa.

As marcas eram usadas de forma semelhantes nos templos de Senhora da Abadia e São Bento da Porta Aberta, em Terras de Bouro, São Torcato, em Guimarães e Senhora da Guia, em Vila do Conde e na Capela de Santa Cruz em Balazar.

Divisas

Representação de siglas poveiras num azulejo que representa a Ala-Arriba!. É visível a "divisa" da embarcação.

O peixe apanhado na rede pertencia ao seu proprietário, quer seja lanchão ou sardinheiro, os peixes eram assim marcados com sigla e entregues às mulheres dos donos da rede. As "marcas de peixe" são golpes feitos em forma de sigla no peixe em diferentes pontos.

A tripulação de cada barco tinha também uma sigla que era usada por todos os tripulantes, caso estes mudassem de barco passariam a usar a sigla desse barco. Estas siglas eram chamadas de "divisas".[2]

As divisas são verdadeiros "escudos d'armas", destinados ao reconhecimento do barco, mas, curiosamente, eram diferentes da marca do dono do barco. Note-se que tudo o que o poveiro possuía era marcado com a sua marca pessoal, excepto o barco. Este facto aponta, segundo Octávio Lixa Filgueiras, para que os barcos estivessem sujeitos predominantemente a invocações mágico-religiosas, adoptando-se um santo-patrono para a embarcação, ganhando um carácter mítico, envolto em símbolos protectores.[1]

Cinco dias depois, entrava na barra da Póvoa, uma lancha encarnada que, pelas suas divisas, sarilho, peixe e panal à proa, panal e quatro piques em cruz à ré, se reconheceu ser a lendária lancha Santa Philomena.
Vinha finalmente, descansar de tanta luta e fadiga na acolhedora praia da terra-mãe.[8]


Ver também

Referências

  1. Lixa Filgueiras, Octávio (1965). "Acerca das Siglas Poveiras". In: IV Colóquio Portuense de Arqueologia.
  2. Arnoni, Rafael & Barreto, Susana. "Estudo comparativo entre as siglas poveiras de Póvoa de Varzim/Portugal e as marcas de gado do sertão nordestino/Brasil: aproximações e distinções na construção dos padrões gráficos e transmissão hereditária". In: Revista Internacional de Folkcomunicação, 2017; 15 (34) Dossiê Folkcomunicação e políticas públicas
  3. Carneiro, Deolinda (2017). As Siglas Poveiras. Póvoa de Varzim: Museu Municipal Póvoa de Varzim
  4. Marques, Ana Trocado. "Brasões de pobres enriquecem cidade". JN, 12/01/2009
  5. Ramos, Luís A. de Oliveira; Ribeiro, Jorge Martins; Polónia, Amélia. "Na hora da jubilação". In: Ramos, Luís A. de Oliveira; Ribeiro, Jorge Martins; Polónia, Amélia. (coords.). Estudos em homenagem a João Francisco Marques, Volume 1. Universidade do Porto, 2001, p. 25
  6. Travessas, Eduardo (2016). Rema Parente Que Lá Fora Vem Mar. História das tragédias marítimas de Aver-o-Mar. Maia: Sersilito. p. 97
  7. Santos Graça, António (1942). Inscrições Tumulares Por Siglas. Edição de autor, Póvoa de Varzim.
  8. Graça, A. Santos. Epopeia dos Humildes: para a história trágico-marítima dos poveiros. Câmara Municipal de Póvoa de Varzim, 2005, p. 146

Ligações externas

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