Sindemia global
Sindemia global refere-se às interações entre as pandemias de desnutrição, de obesidade e de mudanças climáticas, problemas de saúde pública que coexistem na maioria dos países do mundo atualmente. A partir da combinação e da sinergia entre as pandemias, são produzidas consequências tanto para a saúde humana quanto para o meio ambiente.[1] O conceito foi divulgado no relatório “A Sindemia Global da Obesidade, da Desnutrição e das Mudanças Climáticas”, elaborado pela Comissão de Obesidade The Lancet em 2019.
A desnutrição, a obesidade e as mudanças climáticas, quando combinadas, constituem uma sindemia visto que coexistem no tempo e espaço, bem como compartilham determinantes, como aqueles presentes nos sistemas de alimentação, transporte, desenho urbano e uso do solo. Os fatores que compõem a sindemia global ainda interagem entre si, produzindo sequelas complexas.[1][2]
As pandemias de desnutrição e obesidade são formas da má nutrição, que também inclui carências nutricionais específicas, sobrepeso e doenças crônicas não transmissíveis. Há um amplo reconhecimento de que o sistema agroalimentar global impulsiona a má nutrição, além de ser um dos principais contribuintes para mudanças climáticas, uso da terra, poluição da água e do ar - gerando cerca de 25 - 30% das emissões de gases do efeito estufa , sendo a produção de gado a principal responsável pelas emissões.[1][2]
Relação entre sistemas alimentares e sindemia global

Sistemas alimentares são formados por um conjunto de fatores do processo alimentar, desde as etapas de produção, processamento e distribuição até o consumo de alimentos e o seu impacto socioeconômico e ambiental.[2] Contribuem no desdobramento de adversidades climáticas e ambientais da mesma forma que são, também, afetados por estas.[2]
Considera-se um sistema alimentar sustentável aquele que, além de reconhecer o acesso à alimentação como direito fundamental, possui a capacidade de manter-se por longo prazo sem comprometer ecossistemas , economias e a segurança alimentar e nutricional dos indivíduos.[2]
Os sistemas alimentares dominantes possuem íntima relação com o padrão de consumo alimentar dos indivíduos. Do mesmo modo que o sistema alimentar disponibiliza os alimentos para o consumo, compondo a dieta e as preferências alimentares, estas criam demandas que direcionam os sistemas alimentares.[2][3] Assim, as preferências alimentares são responsáveis por guiar o processo de produção, fomentando um sistema alimentar específico.[2]
O sistema alimentar dominante decorre de escolhas políticas e econômicas, que moldam os sistemas naturais e resultam nas pandemias de obesidade, de desnutrição e de mudanças climáticas predominantes em todo o mundo. A interação simultânea dos fatores que constituem a sindemia global tem como efeito a influência mútua entre eles. Eventos climáticos podem, por exemplo, afetar a agricultura e a segurança alimentar de uma ou mais populações. Da mesma forma, a desnutrição na infância está associada a maior risco de incidência de obesidade e doenças crônicas não transmissíveis na idade adulta.[1]
No Brasil
De acordo com a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) realizada nos anos de 2017 e 2018 no Brasil, 4,9% da população (10,3 milhões de pessoas) viviam sob condições de insegurança alimentar grave.[4] Paralelamente, dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) realizada em 2019 mostram que 25,9% da população acima de 18 anos (41,2 milhões de pessoas) estavam obesas.[4]
A associação entre má nutrição e alimentação não saudável culminam no avanço das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) e resultam em impacto socioeconômico negativo, através de gastos despendidos com sistemas de saúde que são sobrecarregados pelas duas vias.[4]
Além disso, a insustentabilidade do sistema de produção de alimentos atual está intimamente ligada à emissão de gases de efeito estufa, que contribuem diretamente para as mudanças climáticas.[4]
Referências
- Swinburn BA, Kraak VI, Allender S, Atkins VJ, Baker PI, Bogard JR, et al. The global syndemic of obesity, undernutrition, and climate change: the Lancet Comission Report. Lancet [online]. 2019 [acesso em 10 Jul 2022]. 393:791-846. Disponível em: https://www.thelancet.com/commissions/global-syndemic
- Marchioni DM, Carvalho AM, Villar BS. Dietas sustentáveis e sistemas alimentares: novos desafios da nutrição em saúde pública. Rev USP [online]. 2021 [acesso em: 10 Jul 2022]. 128:61-76. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/185411/171516
- Peres J, Matioli V, Swindurn, B. Boyd Swinburn, a sindemia global e a classificação NOVA. Cad Saúde Pública [online]. 2021 [acesso em: 10 Jul 2022]. 37(Supl. 1):1-7. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csp/a/dFdBzBbCFtsmYkmmmWfqJZG/?format=pdf&lang=pt
- Machado DA, Bertolini AM, Brito LS, Amorim MS, Gonçalves MR, Santiago RA, et al. O papel do sistema único de saúde no combate à sindemia global e no desenvolvimento de sistemas alimentares sustentáveis. Ciênc Saúde Colet [online]. 2021 [acesso em 10 Jul 2022]. 26(10):4511-4518. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csc/a/X85SHrxL7tHdcppJspKd5mb/?format=pdf&lang=pt