Soleímidas
Soleímidas, ou soleimitas ou Banu Soleime (em árabe: بنو سليم; romaniz.: Banu Sulaym eram uma tribo árabe que dominava parte do Hejaz na era pré-islâmica. Mantiveram laços estreitos com os coraixitas de Meca e os habitantes de Medina, e lutaram em várias batalhas contra o profeta islâmico Maomé antes de se converterem ao Islã antes de sua morte em 632. Participaram da conquista muçulmana do Levante, e estabeleceram-se na Alta Mesopotâmia, enquanto parte da tribo permaneceu no Hejaz. Durante o início da era muçulmana, a tribo produziu generais notáveis como Safuane ibne Muatal, Abulatar e Omeir ibne Hubabe. Aqueles que permaneceram na Arábia foram em grande parte absorvidos pelos hárbidas do Iêmem no início do século IX, enquanto aqueles na Síria e Mesopotâmia foram expulsos para o Alto Egito pelos califas fatímidas no final do século X por ajudarem os carmatas. Em meados do século XI, uma fome prolongada no Egito levou a tribo a migrar para o oeste com hilálidas à Líbia. Os soleímidas e suas subtribos se estabeleceram principalmente na Cirenaica, onde até os dias atuais muitas das tribos árabes daquela região traçam sua descendência deles.
Origens e ramos
De acordo com a tradição genealógica árabe, eram descendentes de Solaíme ibne Mançor ibne ICrime ibne Caçafa ibne Cais Ailã. Assim, faziam parte do grupo tribal mais amplo dos cáicidas (Cais Ailã). Se dividiam em três divisões principais, Inru Alcais, harítidas (Harite) e talabaída (Talaba), todas fundadas por filhos ou netos do progenitor da tribo, Solaíme.[1]
- Inru Alcais foi a divisão mais forte. Foi subdividida nos ramos cufáfidas (Cufafe), aufídas (Aufe) e bázidas (Baz). Os cufáfidas incluíam os clãs de Uçaia (cuja família proeminente era a Xáride), Nacira, Amira e Maleque. Os clãs de Aufe eram Samal e Maleque, com o último incluindo as famílias de Ril, Matrude e Cunfude.[1]
- Os ramos da divisão harítida eram os moáuidas (Moáuia), zafáridas (Zafar), rifaídas (Rifá), cábidas (Cabe) e abéssidas (Abes). Os zafáridas foram parcialmente incorporados à tribo de Banu Aus, e os rifaídas incluíam o clã de Abes ibne Rifá, que gerou a família principesca Jaria.[1]
- Os talabaídas consistiam em duas divisões: os malíquidas, que mais tarde se separaram dos soleímidas e passaram a ser protegidos pelos ucaílidas e ficaram conhecidos como bájilas em homenagem a sua mãe; e os dacuânidas, que eram aliados próximos dos coraixitas de Meca e frequentemente se casavam com a tribo. [1]
Localização
Na era pré-islâmica, ou seja, antes de 610, e no início da era islâmica, habitavam o norte de Hejaz, com o campo vulcânico Harrá formando o coração de seu território. Este último era anteriormente denominado Harrate Bani Solaíme em homenagem à tribo. Era uma região defensiva ideal, pois os cavaleiros inimigos não podiam controlar seu terreno ou entrar nas encostas leste e oeste, onde os soleímidas tinha seus himas (pastagens protegidas). A divisão Inru Alcais habitava em grande parte as encostas orientais, onde os bázidas possuíam lucrativas minas de ouro. Os harítidas estavam concentrados principalmente nas encostas ocidentais, embora membros de seu ramo moáuida habitassem a cidade de Iatrebe (Medina) antes da chegada das tribos judaicas árabes de Banu Aus e cazerajitas. Com o tempo, o ramo moáuida se converteu ao judaísmo. Alguns membros do tamo talabaída também viviam em Meca e Medina.[1]
Após as conquistas muçulmanas da década de 630, a maioria dos soleímidas migrou para o norte da Síria e de lá para Jazira (Alta Mesopotâmia), embora outros tenham se estabelecido em Cufa, Baçorá e em todo o Coração. No entanto, uma presença soleímida significativa foi mantida na terra natal da tribo.[2] A partir do século XI, partes dos soleímidas estabeleceram seus acampamentos na Cirenaica. Até os dias atuais, seus descendentes, conhecidos como Sadá, dominam a região. Os Saadis são divididos em duas divisões principais, Harabi e Jabarina. O primeiro consiste nas tribos Ubaidate, Baraça, Haça, Deraça e Ailate Faíde, enquanto a Jabarina consiste em Auaquir, Magarba, Majabira, Aribate e Baraguite; o último também inclui os clãs Abide e Arafá.[3]
História
Era pré-islâmica
De sua terra natal no Hejaz, mantinham relações estreitas com outras tribos cáicidas, particularmente os hauazínidas. Os membros do clã dacuânida formaram fortes laços com os habitantes de Meca no final do século VI, a saber, os coraixitas. Antes disso, um chefe dacuânida, Maomé ibne Alcuzai, foi nomeado comandante de um contingente de confederados tribais rebíadas e modáridas por Abramo, o vice-rei axumita do Iêmem e inimigo dos mecanos. Outro membro dacuânida, Aláqueme ibne Omaia, serviu como motácibe da Meca pré-islâmica, encarregado de supervisionar a lei e a ordem com o consentimento unânime dos clãs coraixitas. Os soleímidas também mantinham boas relações com o povo de Medina, vendendo cavalos, camelos, ovelhas e manteiga clarificada nos mercados da cidade e mediando entre clãs rivais dos Banu Aus. Também adoravam Camis, o ídolo pagão compartilhado com os cazerajitas.[1]
Estiveram envolvidos em várias expedições distantes ao Iêmem e ao sudoeste da Arábia, incluindo uma invasão liderada pelo chefe Sulaimi Alabás ibne Mirdas contra as tribos zubaídidas e cudaídas, e outra contra quindidas e cudaídas em Sadá durante a qual o irmão de Alabás foi morto. De acordo com o historiador Michael Lecker, o envolvimento soleímida nas expedições do Iêmem provavelmente estava ligado ao seu papel conjunto com os hauazínidas na escolta de caravanas de Hira ao Iêmem e ao Hejaz.[1]
Tempo de Maomé
Durante as atividades de Maomé em Meca e Medina, os soleímidas, como seus aliados coraixitas, eram hostis a ele e sua mensagem. Uma exceção entre os homens da tribo era Safuane ibne Muatal, um dacuânida em Medina que se tornou companheiro de Maomé. Vários clãs se juntaram ao chefe quilabida Amir ibne Atufail em seu ataque aos missionários muçulmanos em Bir Maona em 625. Os soleímidas sob o chefe dacuânida Sufiane ibne Abde Xemece continuaram a lutar ao lado dos coraixitas na Batalha da Trincheira em 627,[1] mas quando Maomé entrou vitoriosamente em Meca em janeiro de 630, a grande maioria dos soleímidas se converteu ao Islã e desertou para o seu lado. Eles lutaram ao lado de Maomé e dos coraixitas contra uma coalizão de tribos árabes pagãs na Batalha de Hunaine no final daquele ano; apenas o filho de Sufiane ibne Abde Xemece, Abulatar, lutou ao lado dos pagãos.[2]
Períodos Ortodoxo e Omíada
A maioria dos soleímidas apostatou do Islã durante no tempo de Abacar (r. 632–634). Entre as divisões e clãs apóstatas estavam os Aufe ibne Inru Alcais, uçaiaídas e xarídidas, os amiraídas liderados por Alfuja, os jariaídas e possivelmente os dacuânidas. No entanto, após a vitória muçulmana nas Guerras Rida, os contingentes soleímidas participaram das conquistas muçulmanas da Síria e do Iraque. Na Primeira Guerra Civil Muçulmana, houve alguns membros que se aliaram a Ali, mas a maioria aparentemente apoiou Moáuia I, onde seu apoio provou ser uma grande contribuição para sua vitória final em 661. Um dos generais de Moáuia nesta guerra foi o já mencionado Abulatar.[2]
Como membros da confederação cáicida, desertaram dos omíadas e reconheceram o califado de Abedalá ibne Zobair. Participaram da Batalha de Marje Raite em 684, durante a qual os omíadas e seus aliados cálbidas derrotaram os cáicidas. Cerca de 600 membros dos soleímidas foram mortos durante a batalha. Mais tarde, em 686, se vingaram dos omíadas quando, sob seu chefe dacuânida Omeir ibne Hubabe, desertaram no meio do caminho durante a Batalha de Cazir, que resultou numa derrota omíada nas mãos das forças de Almoquetar Atacafi. Depois disso, se juntaram ao líder rebelde cáicida Zufar ibne Alharite Alquilabi, que estava centrado em Circésio. Sob Omeir, invadiram o território tribal dos taglíbidas ao longo do rio Cabur, provocando uma guerra durante a qual Omeir foi morto em 689. Posteriormente, foram liderados por Jaafe ibne Haquim Adacuani em suas batalhas finais com os taglíbidas em 692 e 693.[2]
Períodos Abássida e Fatímida
Os soleímidas na Arábia rebelaram-se contra as autoridades abássidas em 845. No final do século IX, os hárbidas do Iêmem entrou no território soleímida no Hejaz e gradualmente absorveu grande parte deles.[2] Os soleímidas e hilálidas estavam entre as tribos cáicidas que se aliaram ao movimento rebelde carmata no ataque aos Fatímidas na Síria. Em resposta, o califa Alaziz (r. 975–996) conseguiu realocar à força as duas tribos para o Alto Egito. Ambas eram enormes e foram comparadas a nações pelo historiador Amar S. Baadj.[4] As tribos ou subtribos soleímidas que foram expulsas para o Alto Egito eram as de Haibe, Labide, Dababe, Aufe, Zugueba e Rauá; cada um deles continha vários clãs.[5]
Estabelecimento no Magrebe
Cronistas muçulmanos medievais relatam que em 1050 ou 1051, os nômades soleímidas e hilálidas foram despachados ou encorajados a migrar para e assumir Ifríquia pelos fatímidas para punir os governantes ziridas daquela região por mudarem de lealdade ao Califado Abássida rival.[4] No entanto, Baadj insiste que tais relatórios "devem ser tratados com ceticismo", já que o Califado Fatímida na época estava passando pela Grande Crise, que foi marcada por uma longa fome e grave instabilidade política. Assim, os fatímidas não estavam em posição de coagir as duas tribos beduínas a invadir o Reino Zirida; em vez disso, as más condições no Egito, nomeadamente a ameaça de fome, motivaram soleímidas e hilálidas a migrar para o oeste rumo ao Magrebe. A migração pode ter ocorrido em uma grande onda ou em várias ondas, mas em qualquer caso, os soleímidas aparentemente se estabeleceram na Cirenaica e na Tripolitânia, enquanto os hilálidas continuaram à Ifríquia e Cairuão sob controle zirida.[5]
Em meados do século XII, os soleímidas expulsaram os hilálidas da Ifríquia e os forçaram a se mover para o oeste e para o sul.[6] No final do século XII, todos os soleímidas da Cirenaica se uniram à causa do mameluco aiúbida Caracuxe e do comandante almorávida Ali ibne Ixaque ibne Maomé ibne Gania contra o Califado Almóada.[7] No entanto, essa aliança logo ruiu e o soleímidas suportaram o peso dos ataques de Caracuxe, particularmente a subtribo Dababe, cujos líderes massacrou.[8]
Referências
- Lecker 1997, p. 817.
- Lecker 1997, p. 818.
- Obeidi 2001, p. 44.
- Baadj 2015, p. 24.
- Baadj 2015, p. 25.
- Baadj 2015, p. 72.
- Baadj 2015, p. 82.
- Baadj 2015, p. 166.
Bibliografia
- Baadj, Amar S. (2015). Saladin, the Almohads and the Banu Ghaniya. Leida: Brill. ISBN 978-90-04-29620-6
- Lecker, M. (1997). «Sulaym». In: Bosworth, C. E.; van Donzel, E.; Heinrichs, W. P.; Lecomte, G. The Encyclopedia of Islam. IX, San–Sze. Leida e Nova Iorque: Brill. pp. 817–818. ISBN 90-04-10422-4
- Obeidi, Amal S. M. (2001). Political Culture in Libya. Richmond, Surrey: RoutledgeCurzon. ISBN 0-7007-1229-1