Alfabeto tifinague

O alfabeto tifinague[1] (em neo-tifinague, Tifinaɣ [tifinagh] em berbere latinizado) é um alfabeto usado por alguns povos berberes para escrever línguas berberes. Esse alfabeto não é usado na comunicação ordinária, diária, mas serve para marcar de forma política e simbólica a identidade berbere.

Alfabeto tifinague

Séminario sob Tifinague em Marraquexe durante WikiArabia 2019.
Tipo Abjad
Línguas Línguas tuaregues
Período de tempo
Data desconhecida, mas ainda em uso.
Sistemas-pais
Hieróglifos
Sistemas-filhos
Neo-tifinague

História

A escrita tifinague[1] original apresenta poucas letras, com pouquíssimas vogais e sua escrita é vertical. É usada tão somente pelos tuaregues, o único povo berbere que ainda usa a antiga escrita líbico-berbere, que é derivada de uma escrita mais antiga, o líbico ou líbio-amazigue. Há registros do uso dessa escrita por povos amazigues ao longo do Norte da África e talvez nas Canárias desde o século III a.C. até o século III d.C.

Trata-se de uma língua de origem fenícia. Seu nome, tifinague, vem possivelmente do fenício tafineqq (letras fenícias), outros atribuem seu nome à expressão fenícia tifin negh, "nossa invenção"[2][3].

Estudiosos e ativistas da identidade berbere modificaram e adaptaram o alfabeto tifinague original para um neo-tifinague, desenvolvido na Academia Berbere nos anos 1960, com vogais, escrita da esquerda para direita. Mais recentemente fontes para PC estão disponíveis.

Variantes

  • São duas as formas de tifinague:
  • A variante oriental usada em Constantina, Argélia, também em aures e na Tunísia. É a versão que foi melhor decifrada pela descoberta de muitas inscrições bilingues numídias em regiões da Líbia e Tunísia. São 24 letras das quais 22 foram decifradas.
  • A variante ocidental é mais primitiva, foi usada na costa do Mediterrâneo entre Kabila até as Ilhas Canárias. Usava mais 13 letras do que a versão oriental.
  • Essa escrita líbico-berbere era um abjad, sem vogais.
  • A escrita era vertical, de baixo para cima, ou da direita para esquerda, apresentando mesmo outras distribuições.
  • Não tinha marcação de vogais longas ou curtas.
Fenício Som Líbico-berbere oriental
ʾ
b
g
d
h
w
z
y
k
l
m
n
s
ɛ
p,f
q
r
š
t
j

Tifinague tradicional (tuaregue)

Tradicionalmente, essa escrita não marca as vogais, exceto aquelas do final de palavras. Recentemente houve propostas para a marcação das vogais, como ocorre em certas áreas com o uso de diacríticos árabes aplicados às letras tifinagues.

A forma dos caracteres varia bastante ao longo da extensa área geográfica de uso do tifinague. Também variam as formas (sentidos) da escrita, sendo a mais comum a da direita para a esquerda, havendo, porém, o sentido vertical, de baixo para cima, em antigas inscrições "líbias". Por vezes a escrita tifinague é usada para escrever outras línguas da região, tais como o tagdal, do grupo songai.

Neo-tifinague

Placa bilíngue "Pare" em Nador, escrita em arábico e neo-tifinague

Nos anos 1960, um grupo de jovens berberistas de Kabila criaram a Academia Berbere e desenvolveram uma nova versão da escrita, o "neo-tifinag", que é escrito da esquerda para direita, marca as vogais e apresenta mais letras. Foram publicados textos, artigos e revistas nessa escrita que se popularizou entre os Kabila, como no "Movimento Cultural Berbere", no "JS Kabylie", no "Rali pela Cultura e Democracia", sendo adotada nas áreas onde o berbere é falado.

Houve ainda outras propostas de modificações no tifinague: do "Instituto Nacional de Línguas e Civilizações Orientais (Inalco, Prof. Salem Chaker), da associação Afus Deg Wfus de Roubaix (França), da Revista de Marrocos, de produtores de Software da Arabia Ware Benelux (Países Baixos) e do Instituto Real de Cultura Amazigue (Marrocos, IRCAM)".

Pessoas que usavam essa escrita eram presas por esse motivo nos anos 1980 e 90. Até pouco tempo não havia nem livros nem websites disponíveis na escrita neo-tifinague. Mesmo ativistas utilizavam o alfabeto latino e mais raramente o árabe, ficando o tifinague apenas para uso simbólico, com os livros e websites em latino ou arábico simplesmente apresentando logotipos ou títulos nessa escrita. Porém, no Marrocos em 2003, o rei adotou essa escrita como uma das oficiais, visando tomar uma posição neutra na disputa entre os defensores da escrita árabe e da escrita latina. Com isso, livros passaram a ser publicados em tifinague, sendo esse alfabeto ensinado em algumas escolas. Marrocos é único país que tem esse alfabeto como oficial[4].

Codificação da escrita neo-tifinague

O neo-tifinague é codificado pelo Unicode de U+2D30 até U+2D7F, desde a versão 4.1.0. São definidos 55 caracteres, que são de fato os mais utilizados. No ISO 15924 o código para o neo-tifinague é Tfng.

Tabela da representação em "Glyphs" Unicode (da esquerda para direita)
Código +0+1+2+3 +4+5+6+7 +8+9+A+B +C+D+E+F
U+2D30
U+2D40
U+2D50
U+2D60            
U+2D70                    

Tabela de Comparação entre "Glyph" e sua transliteração.

Color keys
CorSignificado
 Tifinague básico (IRCAM)
 Tifinague estendido (IRCAM)
 Outras letras tifinagues
 Letras modernas tuaregues
 Posição não usada
Letras simples (e letra modificadora)
CódigoGlyphUnicodeTransliteraçãoNome
LatinoÁrabe
U+2D30aاya
U+2D31bبyab
U+2D32bٻyab fricativa
U+2D33gگyag
U+2D34gڲyag fricativa
U+2D35djجyadj da Academia Bérbere
U+2D36djجyadj
U+2D37dدyad
U+2D38dدyad fricativa
U+2D39ضya
U+2D3Aضya fricativa
U+2D3Beهyey
U+2D3Cfفyaf
U+2D3Dkکyak
U+2D3EkکTuareg yak
U+2D3Fⴿkکyak fricativa
U+2D40h
b
ھ
ب
yah
= yab Tuareg
U+2D41hھyah da Academia Bérbere
U+2D42hھyah Tuareg
U+2D43حya
U+2D44ˤ (ε)عyaε
U+2D45kh (x)خyax
U+2D46kh (x)خyax Tuareg
U+2D47qقyaq
U+2D48qقyaq Tuareg
U+2D49iيyi
U+2D4Ajجyaj
U+2D4BjجAhaggar yaj
U+2D4CjجTuareg yaj
CódigoGlyphUnicodeTransliteraçãoNome
LatinoÁrabe
U+2D4Dlلyal
U+2D4Emمyam
U+2D4Fnنyan
U+2D50nyنيyagn Tuareg
U+2D51ngڭyang Tuareg
U+2D52pپyap
U+2D53u
w
و
ۉ
yu
= yaw Tuareg
U+2D54rرyar
U+2D55ڕya
U+2D56gh (γ)غyaγ
U+2D57gh (γ)غyaγ Tuareg
U+2D58gh (γ)
j
غ
ج
Aïr yaγ
= yaj Adrar
U+2D59sسyas
U+2D5Aصya
U+2D5Bsh (š)شyaš
U+2D5Ctتyat
U+2D5Dtتyat fricativo
U+2D5Ech (tš)تشyatš
U+2D5Fطya
U+2D60vۋyav
U+2D61wۉyaw
U+2D62yيyay
U+2D63zزyaz
U+2D64zزTawellemet
yaz Arpão
U+2D65yaẓ
U+2D6F+wۥ+Marca de lábio-velarização
Tamatart
2D61
Letras Dígrafas (ligaturas são possíveis)
CódigoGlyphUnicodeTransliteraçãoNome
LatinoÁrabe
U+2D5C U+2D59ⵜⵙtsتسyats
U+2D37 U+2D63ⴷⵣdzدزyadz
CódigoGlyphUnicodeTransliteraçãoNome
LatinoÁrabe
U+2D5C U+2D5Bⵜⵛch (tš)تشyatš
U+2D37 U+2D4Aⴷⵊdjدجyadj

Amostra de texto

Transliteração

Imdanen, akken ma llan ttlalen d ilelliyen msawan di lḥweṛma d yizerfan-ghur sen tamsakwit d lâquel u yessefk ad-tili tegmatt gar asen.

Em português

Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São providos de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros num espírito de fraternidade.

(Artigo 1 - Declaração dos Direitos Humanos)

Referências

  1. «Como se diz "tifinagh" em português? Como se traduz tifinagh?». dicionário e gramática. Consultado em 29 de setembro de 2015
  2. «Tifinagh : l'alphabet berbère de A à Z». Consultado em 29 de Dezembro de 2010
  3. «Tifinagh : l'alphabet berbère de A à Z». Consultado em 29 de Dezembro de 2010
  4. «Rapport sur le calvaire de l'écriture en Tifinagh au Maroc». Consultado em 29 de Dezembro de 2010

Bibliografia

  • Aghali-Zakara, Mohamed (1994). Graphèmes berbères et dilemme de diffusion: Interaction des alphabets latin, ajami et tifinagh. Études et Documents Berbères 11, 107-121.
  • Aghali-Zakara, Mohamed; and Drouin, Jeanine (1977). Recherches sur les Tifinaghs- Éléments graphiques et sociolinguistiques. Comptes-rendus du Groupe Linguistique des Études Chamito-Sémitiques (GLECS).
  • Ameur, Meftaha (1994). Diversité des transcriptions : pour une notation usuelle et normalisée de la langue berbère. Études et Documents Berbères 11, 25-28.
  • Boukous, Ahmed (1997). Situation sociolinguistique de l’Amazigh. International Journal of the Sociology of Language 123, 41-60.
  • Chaker, Salem (1994). Pour une notation usuelle à base Tifinagh. Études et Documents Berbères 11, 31-42.
  • Chaker, Salem (1996). Propositions pour la notation usuelle à base latine du berbère. Études et Documents Berbères 14, 239-253.
  • Chaker, Salem (1997). La Kabylie: un processus de développement linguistique autonome. International Journal of the Sociology of Language 123, 81-99.
  • Durand, O. (1994). Promotion du berbère : problèmes de standardisation et d’orthographe. Expériences européennes. Études et Documents Berbères 11, 7-11.
  • O’Connor, Michael (1996). The Berber scripts. The World’s Writing Systems, ed. by William Bright and Peter Daniels, 112-116. New York: Oxford University Press.
  • Encyclopaedia of Islam, s.v.Tifinagh.

Ligações externas

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