Turcos mesquécios

Os turcos mesquécios (em georgiano: თურქი მესხები; romaniz.: t'urk'i meskhebi; em turco: Ahıska Türkleri) são um subgrupo étnico dos turcos nativos da região da Mesquécia, na Geórgia, junto a fronteira com a Turquia. A presença turca na região começou com a expedição militar turca de 1578, embora tribos turcos se assentaram na região tão cedo quanto os séculos XI-XII.[9] Hoje, os turcos mesquécios estão amplamente dispersados por toda a antiga União Soviética (bem como na Turquia e Estados Unidos) devido as deportações forçadas durante a Segunda Guerra Mundial.[10]

Turcos mesquécios
Ahıska Türkleri
მესხეთის თურქები
Mesquécios em Karabük (2019)
População total

de 400 000 a 600 000[1][2][3]

Regiões com população significativa
 Geórgia1 500[4][5]
Cazaquistão150 000-180 000[4][5]
 Azerbaijão87 000–110 000[4][5]
 Rússia70 000–95 000[4][5]
 Quirguistão42 000–50 000[4][5]
 Turquia40 000-76 000[5][6]
 Uzbequistão15 000-38 000[5][6]
 Ucrânia8 000-10 000[5][6]
 Estados Unidos9 000-16 000[5][6]
Chipre do Norte180[5]
Línguas
turco, azeri, russo, georgiano, cazaque
Religiões
Islão sunita (predominante)
Etnia
Túrquicos
Grupos étnicos relacionados
turcos e azeris (carapapaques e terequemes)

À época, a União Soviética estava preparando uma campanha de pressão contra a Turquia e Joseph Stalin queria limpar a população turca estratégica na Mesquécia que provavelmente eram hostis às intenções soviéticas.[10] Em 1944, os turcos mesquécios foram acusados de contrabando, bandidagem e espionagem em colaboração com seu povo além da fronteira turca. Expelidos da Geórgia por Stalin em 1944, eles enfrentaram discriminação e abusos dos direitos humanos antes e após a deportação. Aproximados 115 000 turcos mesquécios foram deportados à Ásia Central e apenas algumas centenas foram capazes de retornar à Geórgia desde então. Aqueles que imigraram à Ucrânia em 1990 assentaram-se nas favelas habitadas por trabalhadores sazonais.[11]

Origem e termos

Turcos mesquécios segurando a bandeira com os dizeres Osmanlıların Torunları: Ahiskalı Türkler (os netos dos otomanos: turcos mesquécios)
Reino da Geórgia após sua fragmentação em 1490. O Principado da Mesquécia está mais a oeste

A origem dos mesquécios é ainda inexplorada e amplamente controversa. Mas agora parece que há 2 principais vertentes:

  • A vertente pró-turca: os mesquécios foram etnicamente turcos, descendentes de colonos otomanos, dentro os quais há elementos georgianos.[12]
  • A vertente pró-georgiana: a historiografia georgiana tradicionalmente argumenta que os turcos mesquécios, que falam o dialeto turco de Cars e pertencem a escola hanafi sunita, são simplesmente georgianos turquizados convertidos ao islã no período entre o século XVI e 1829, quando a região de Mesquécia-Javaquécia (Mesquécia histórica) estava sob jugo do Império Otomano.[13]

Contudo, Anatoly Michailovich Khazanov argumenta que "é muito possível que os aderentes dessa visão super simplificaram a história étnica do grupo, particularmente se compararmos com outro grupo georgiano muçulmano, os ajares, que, apesar da conversão ao islã, mantiveram, não só a língua, mas de algum modo a cultura tradicional georgiana e alto-independência. Ao contrário, a cultura tradicional dos mesquécios apesar de conter elementos georgianos, era similar a turca."[13] Kathryn Tomlinson argumenta que nos documentos soviéticos sobre as deportações de 1944 dos turcos mesquécios são referidos só como "turcos", e que foi após sua 2º deportação do Uzbequistão que o termo "turcos mesquécios" foi inventado.[14] Ademais, segundo Ronald Wixman, o termo "mesquécio" apenas começou a ser usado no final da década de 50.[15] De fato, a maioria dos mesquécios chamam-se "turcos" ou "turcos aiscanos" em referência a região. Eles afirmam às vezes que os medievais cumanos-quipchacos da Geórgia podem ser alguns de seus possíveis ancestrais.[16]

História

Conquista otomana

Pela Paz de Amásia (1555), a Mesquécia foi dividida em dois, com os safávidas mantendo a porção oriental e os otomanos ganhando a porção ocidental.[17] Em 1578, os otomanos conduziram uma invasão bem-sucedida nos domínios safávidas na Geórgia, iniciando a Guerra Otomano-Safávida de 1578-1590 e por volta de 1582 estiveram em controle da porção oriental da Mesquécia. Os safávidas reganharam controle sobre a porção oriental da Mesquécia no começo do século XVII, contudo, pelo Tratado de Zuabe (1639), toda a Mesquécia ficou sob controle otomano e isso levou ao fim das tentativas iranianas para retomar o país.[18][19]

Deportação de 1944 da Geórgia à Ásia Central

Em 15 de novembro de 1944, o secretário-geral do PCUS Joseph Stalin ordenou a deportação de mais de 115 000 turcos de sua terra natal,[20] que foram secretamente retirados de suas casas e reunidos em vagões. Entre 30 000 e 50 000 morreram de fome, sede e frio e sofreram no exílio.[21][22] Segundo censo soviético de 1989, 106 000 turcos viviam no Uzbequistão, 50 000 no Cazaquistão e 21 000 Quirguistão.[20]

Área dos turcos mesquécios em 1926
Jovens turcos mesquécios como camisetas nas quais se lê: 14 de novembro, 1944, nós não esquecemos a deportação

Diferente de outros nacionalidades deportadas na Segunda Guerra Mundial, nenhuma razão foi dada para essa deportação, que permaneceu secreta até 1968. Foi apenas em 1968 que o governo soviético finalmente reconheceu que os mesquécios foram deportados. A razão foi porque em 1944 a União Soviética preparou campanha de pressão contra a Turquia. Em junho de 1945, Vyacheslav Molotov, então ministro das relações exteriores, apresentou exigência ao embaixador turco em Moscou para render três províncias anatólias (Cars, Ardaã e Artvin). Como Moscou também preparou-se para apoiar as exigências armênias de várias outras províncias anatólias, a guerra contra a Turquia parecia possível, e Joseph Stalin quis resolver a questão da estratégica fronteira turco-georgiana onde os turcos mesquécios estavam assentados que eram provavelmente hostis às intenções soviéticas.[10]

Diferente de outros grupos muçulmanos deportados, os mesquécios não foram reabilitados nem permitidos retornar a sua terra natal. Em abril de 1970, os líderes do monimento nacional turco mesquécio enviaram ao embaixador turco em Moscou um pedido para emigrar à Turquia como cidadãos turcos se o governo soviético persistisse negando o reassentamento deles na Mesquécia. Contudo, como resposta, o governo soviético ordenou a prisão dos líderes mesquécios.[23]

1989 - deportação do Uzbequistão para outros países soviéticos

Em 1989, revoltas eclodiram entre turcos assentados no Uzbequistão e uzbeques nativos. Ressentimentos nacionalistas contra os mesquécios que também competiam com os uzbeques no superpovoado vale de Fergana também estiveram presentes. Centenas de mesquécios foram mortos ou feridos, quase 1 000 propriedades foram destruídas e milhares de mesquécios fugiram ao exílio. A maioria deles, aproximados 70 000, foram ao Azerbaijão, enquanto o resto foi para várias regiões da Rússia (especialmente o crai de Crasnodar), Cazaquistão, Quirguistão e Ucrânia.[20][24]

Guerra Civil no Leste da Ucrânia

Aproximados 2 000 mesquécios foram forçados a fugir de suas casas na Ucrânia desde maio devido os conflitos entre as forças do governo e separatistas pró-russos. Representante da comunidade mesquécia em Donetsk diz que aqueles que fugiram procuraram refúgio na Rússia, Azerbaijão, Turquia e diferentes partes da Ucrânia.[11] mais de 300 mesquécios da minoria falante de turco na Ucrânia Oriental chegaram à província turca de Erzincan onde viveram sob as medidas recém-adotadas de asilo do país.[25]

Demografia

Mesquécios fora da Casa Branca em Washington

Segundo censo soviético de 1989, havia 207 502 turcos vivendo na União Soviética. Porém, autoridades sovietes registram muitos mesquécios como pertencendo a outras nacionalidades como "azeris", "cazaques", quirguizes, e "uzbeques".[1] Portanto, os census oficiais não necessariamente mostram um reflexo real da população mesquécia; por exemplo, segundo censo azeri de 2009, havia 38 000 turcos vivendo no país; contudo, nenhuma distinção é feita entre mesquécios e turcos da Turquia que se tornaram cidadãos azeris, como ambos os grupos sendo classificados como "turcos" ou "azeris".[26] Segundo relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados publicado em 1999, 100 000 mesquécios viviam no país e o descontinuado Instituto da Paz e Democracia de Bacu afirmou, em 2001, que entre 90 000 e 110 000 mesquécios viviam ali. Similarmente, estimativas acadêmicas sugeriram que eles compreendiam 90 000 e 110 000 pessoas.[27]

Mais recentemente, alguns mesquécios na Rússia, especialmente aqueles de Crasnodar, enfrentaram a hostilidade da população local. Os mesquécios de Crasnodar sofreram significativa violação dos direitos humanos, incluindo a privação de sua cidadania. Eles também foram privadas de direitos civis, políticos e sociais e foram proibidos de obterem propriedade e emprego.[28] Assim, desde 2004, muitos turcos deixaram Crasnodar em direção aos Estados Unidos como refugiados, com boa parte deles, cerca de 1 300 indivíduos, se assentando em Dayton, Ohio. Eles ainda estão impedidos de total repatriação na Geórgia[29] e mesmo aqueles que ainda habitam o país, sofrem com a tensão racial decorrente da divergência doutrinária e étnica.[30]

Cultura

noiva mesquécia em vestimentas típicas

A maioria dos turcos mesquécios são sunitas e a minoria sao xiitas.[7][8] Eles falam um dialeto anatólio oriental de turco, que vem das regiões de Cars, Ardaã e Artvin. Seu dialeto também possui empréstimos de outras línguas (incluindo o azeri, georgiano, cazaque, quirguiz, russo e uzbeque), pois os mesquécios estiveram em contato com outros povos durante o governo soviético.[31]

Casamento

Os casamentos mesquécios consistem numa proposta tradicional dos pais do noivo e se os pais da noiva aceita a proposta, uma festa (Nişan) é feita. A todos é dado nessa cerimônia uma bebida doce chamada Xarbate (Sharbat). O casamento de fato dura dois dias. No primeiro as noivas deixam sua casa e no segundo é quando o casamento ocorre. Antes da noiva entrar na casa de seu marido ela usa um salto para quebrar dois pratos com seu pé e coloca mel na soleira da porta. Essa tradição serve para desejar felicidade aos noivos em seu casamento. Ao fim da cerimônia, uma dança é performada com os homens e mulheres dançando separadamente. Finalmente, os recém-casados tem sua última dança que é chamada "Valsa", concluindo a cerimônia.[32]

Referências

Bibliografia

  • Barton, Frederick D.; Heffernan, John; Armstrong, Andrea (2002). Being Recognised as Citizens. Nova Iorque: Commission on Human Security
  • Bennigsen, Alexandre; Broxup, Marie (1983). The Islamic threat to the Soviet State. Londres: Taylor & Francis. ISBN 0-7099-0619-6
  • Coşkun, Ufuk (2009). Ahiska/Meskhetian Turks in Tucson: An Examination of Ethnic Identity. Tucson, Arizona: University of Arizona
  • Floor, Willem (2001). Safavid Government Institutions. Costa Mesa, Califórnia: Mazda Publishers. ISBN 978-1568591353
  • Glück, Helmut (2016). Metzler Lexikon Sprache. Estugarda e Veimar: J.B.Metzler
  • Khazanov, Anatoly Michailovich (1995). «People with Nowhere To Go: The Plight of the Meskhetian Turks». After the USSR: Ethnicity, Nationalism and Politics in the Commonwealth of Independent States. Madison, Wisconsin: University of Wisconsin Press. ISBN 0-299-14894-7
  • Mikaberidze, Alexander (2015). Historical Dictionary of Georgia (2 ed.). Lanham, Marilândia: Rowman & Littlefield. ISBN 978-1442241466
  • Minahan, James (2002). Encyclopedia of the Stateless Nations: L-R. Westport, Connecticut: Greenwood Publishing Group. ISBN 0-313-32111-6
  • Polian, Pavel (2004). Against Their will: The History and Geography of Forced Migrations in the USSR. Budapeste: Central European University Press. ISBN 963-9241-68-7
  • Ranard, Donald (2006). Meskhetian Turks: An Introduction to their History, Culture and Resettlement Experiences. Washington: Center for Applied Linguistics
  • Seferov, Rehman; Akış, Ayhan (2011). Sovyet Döneminden Günümüze Ahıska Türklerinin Yasadıkları Cografyaya Göçlerle Birlikte Genel Bir Bakıs. Cônia: Türkiyat Araştırmaları Dergisi
  • Tomlinson, Kathryn (2005). «Living Yesterday in Today and Tomorrow: Meskhetian Turks in Southern Russia». In: Crossley, James G.; Karner, Christian. Writing History, Constructing Religion. Farnham: Ashgate Publishing. ISBN 0-7546-5183-5
  • UNHCR (1999a). Background Paper on Refugees and Asylum Seekers from Azerbaijan. Genebra: Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados
  • UNHCR (1999b). Background Paper on Refugees and Asylum Seekers from Georgia. Genebra: Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados
  • Wixman, Ronald (1984). The Peoples of the USSR: An Ethnographic Handbook. Armonk, Carolina do Norte: M.E. Sharpe. ISBN 0-87332-506-0
  • Yunusov, Arif (1999). «The Akhiska (Meskhetian Turks): Twice Deported People». Lulea, Suécia. Central Asia and Caucasus. 1(2)
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