O inquietante
O inquietante, o estranho familiar ou a inquietante estranheza[1] (originalmente, em alemão, Das Unheimliche) é um conceito freudiano que se refere a algo (ou uma pessoa, uma impressão, um fato ou uma situação) que não é propriamente misterioso mas estranhamente familiar, suscitando uma sensação de angústia, confusão e estranhamento - ou mesmo terror - que remonta àquilo que é desde há muito conhecido.
História
O termo, usado por Freud em 1919, numa perspectiva psicanalítica, já estava presente na obra de E. T. A. Hoffmann (1776–1822), como um conceito da estética.[2][3]
Na psiquiatria, o tema do estranho foi introduzido em 1906, por Ernst Jentsch,[4] que formula o conceito como sendo a incerteza intelectual sobre se um objeto, evidentemente animado, está realmente vivo; ou, ao contrário, se um objeto inanimado pode ser, de alguma forma, dotado de vida autônoma. Jentsch referia-se à impressão dada pelas figuras de cera, pelos autômatos e fantoches engenhosamente construídos. Efeitos perturbadores são geralmente obtidos quando o observador está colocado em presença da repetição contínua, "automática", da mesma situação, a exemplo de um mesmo movimento. Assim Jentsch explicava a sensação de perturbação que algumas pessoas experimentam antes de uma crise epiléptica ou de manifestações de loucura.
Jentsch enfatiza que, na literatura, o dispositivo narrativo empregado para produzir uma sensação perturbadora é usado por alguns romancistas, que introduzem em suas histórias figuras cuja natureza (de ser vivo ou autômato) não é esclarecida, deixando o leitor em dúvida e incapaz de decidir. Uma vez que a situação ou o objeto perturbador tem conotações familiares e, ao mesmo tempo, estranhas produz-se uma incerteza intelectual, que, na psicologia do século XX, seria definida como uma dissonância cognitiva no sujeito que a experimenta. Jentsch analisa os contos de Hoffmann, especialmente "O Homem de Areia", no qual a boneca Olympia se constitui como o elemento perturbador.
No ensaio "Das Unheimliche" (1919), Freud analisa o mal-estar que nasce de uma ruptura na racionalidade tranquilizadora da vida quotidana. Em carta a Sándor Ferenczi, datada de 12 de maio daquele ano, Freud informa ter "desenterrado" um velho trabalho. A data exata da primeira versão do ensaio não é conhecida, mas as notas de rodapé indicam que Das Unheimliche seria posterior à publicação de Totem e Tabu.[5]:vii [6]
Unheimlich: palavra sem equivalente em português
Unheimlich vem de Heim, palavra que significa 'lar' e que introduz uma noção de familiaridade, mas é também raiz da palavra Geheimnis, que pode ser traduzida como 'segredo', no sentido de algo que é da família ou que deve permanecer escondido.[7] Os anglófonos traduzem Das Unheimliche como the uncanny,[8] termo que está na ideia do Uncanny valley (Vale da estranheza), não sem relação com o conceito de Freud.[9]
"El sinistro", na tradução espanhola, "l'inquiétante étrangeté" ou l'« inquiétante familiarité » ou, ainda, l'étrange familier, na tradução francesa,[10] ou il perturbante, na tradução italiana, pode ser traduzido em português como "inquietante estranheza"[2] ou "o estranhamente familiar".[11]
Heimlich tem várias significações. É, a princípio, aquilo que faz parte da casa (häuslich), da família. Isso diz respeito à intimidade, a uma situação de tranquilidade e satisfação. Heimlich é também sinônimo de dissimulação, de segredo ou mesmo de sagrado. A parte heimlich da casa corresponde aos banheiros, uma arte heimlich está próxima à da magia. Un- é um prefixo antonímico. Logo, Unheimlich é o contrário de Heimlich, tanto no primeiro sentido como no segundo. De fato, pode corresponder a uma situação que gera mal-estar, que provoca uma certa angústia ou mesmo terror, como diante de um segredo que é revelado, quando deveria ter permanecido oculto.
Em Freud, encontra-se estabelecida, como generalidade, a concepção positivista de que o homem se encontra num estágio de desenvolvimento em que ultrapassou ou libertou-se das crenças animistas. Ora, são duas as categorias do estranho: primeira, quando “acontece realmente em nossas vidas algo que parece confirmar as velhas e rejeitadas crenças”; já a segunda “provém de complexos infantis reprimidos”. Enquanto a primeira categoria ocorre quando vem à luz algo “superado”, a segunda acontece quando algo “reprimido” nos atinge, emerge. Daí, se algo está efetivamente superado, como pode vir à luz, emergir? Interessa aqui a tênue fronteira entre superação e repressão. Por um instante, Freud chega a igualar os termos, mas logo se corrige; na seqüência do parágrafo, ele próprio admite a nebulosidade dessa distinção: “Quando consideramos que as crenças primitivas relacionam-se da forma mais íntima com os complexos infantis e, na verdade, baseiam-se neles, não nos surpreenderemos muito ao descobrir que a distinção é muitas vezes nebulosa”.[12]
Em 1959, Lacan criou a palavra extimité ('extimidade'), expressão que dá a ideia de algo interior, algo pertencente ao sujeito e, ao mesmo tempo, não reconhecido como tal – o que torna o sujeito tenso e apreensivo.
Ver também
Referências
- Saceanu, Patrícia O estranho e seus destinos. Rio de Janeiro: UFRJ, 2001.
- Inquietante estranheza (Das Unheimliche). Por Rosa Busse. E-Dicionário de Termos literários de Carlos Ceia, 2010.
- Ver "Der unheimliche Gast" ('O estranho hóspede'), um dos contos do terceiro volume de Die Serapionsbrüder ('Os irmãos de Serapião'), publicado em 1820. A literatura fantástica de Hoffmann, importante escritor do romântico alemão, "combina com o universo dos contos de fadas, o grotesco e o absurdo de uma nova sensibilidade plasmada pela sociedade burguesa". In BENJAMIN, Walter, O capitalismo como religião, Boitempo Editorial, 2015. "Indice onomástico: Hoffmann, E.T.A."
- JENTSCH, Ernst. "Zur Psychologie des Unheimlichen". Psychiatrisch-Neurologische Wochenschrift 8.22 (25 de agosto de 1906): 195-98 e 8.23 (1º de setembro de 1906): 203-05 ". Tradução (em inglês) por Roy Sellars: "On the Psychology of the Uncanny (1906)"
- Royle, Nicholas (2003). The Uncanny. [S.l.]: Manchester University Press. ISBN 978-0-7190-5561-4
- Freud, Sigmund (1919). «Das Unheimliche». Consultado em 30 de dezembro de 2015. Arquivado do original em 14 de julho de 2011
- Sandrine Bazile, Gérard Peylet (2007). Presses universitaires de Bordeaux, ed. Imaginaire et écriture dans le roman haussérien. [S.l.: s.n.] p. 143.
- Sophie Geoffroy-Menoux (2000). Éditions du Temps, ed. Introduction à l'étude des textes fantastiques dans la littérature anglo-américaine. [S.l.: s.n.] p. 102. 214 páginas.
- Adorável Estranheza - Jentsch, Freud e o Uncanny Valley na faceta não horrível do Unheimliche no filme Ted. Por Tiago Alves de Moraes. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. XXXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Manaus, 4 a 7 de setembro de 2013 .
- Ver os comentários de François Stirn em S. Freud, L'Inquiétante étrangeté
- O "Unheimlich" em Freud e Schelling. Por Bernardo Carvalho
- Ribeiro, Daniel Glaydson (11 de maio de 2017). «Ensaio por uma aula estranha; ou sobre literatura e palavra». Magma (em inglês). 0 (13): 295–313. ISSN 2448-1769. doi:10.11606/issn.2448-1769.mag.2016.126770
Ligações externas
- Freud, Sigmund, O estranho, 1919
- (em castelhano) Freud, Sigmund,Lo ominoso, 1919 (Das Unheimliche)
- (em francês) Freud, Sigmund , L'Inquiétante étrangeté