Zeferino Brasil

Zeferino Antônio de Souza Brasil (Taquari, 26 de abril de 1870 Porto Alegre, 2 de outubro de 1942) foi um poeta, escritor, jornalista, cronista e crítico brasileiro.[1]

Zeferino Brasil
Nascimento 1870
Morte 1942
Cidadania Brasil
Ocupação jornalista, escritor, poeta

Biografia

Nasceu na zona rural de Taquari e com nove anos sua família se mudou para Porto Alegre, começando a trabalhar muito cedo. Em 1889 foi aprovado em concurso público e nomeado oficial do Tesouro do Estado. Um ano depois conheceu Celina, irmã do intelectual Mário Totta, casando-se em 1891. Permaneceu no serviço público até aposentar-se, mas nas horas vagas dedicava-se intensamente à literatura.[2]

Colaborou em vários jornais, incluindo o Jornal do Comércio, Correio do Povo, Última Hora e Gazeta do Comércio,[2] e em vários periódicos literários, como a Revista do Grêmio Literário José de Alencar, O Mecenas, e Letras e Artes.[3] Foi um dos fundadores da Sociedade Literária Apeles Porto Alegre, que funcionou até 1891 no Colégio Rio-Grandense; foi membro da Sociedade Ensaios Literários e um dos fundadores da sua revista; participou da Sociedade Literária Castro Alves.[2]

Foi um dos fundadores da Academia Rio-Grandense de Letras (ARL) em 1901, membro da primeira diretoria como secretário e um dos responsáveis pela elaboração dos estatutos e do regimento interno, e desempenhou um papel central na vida desta entidade. Contudo, no fim da década a ARL entrara em um recesso. Em 1910, junto com outros literatos empenhados na preservação de uma vida acadêmica na cidade, fundou a Academia de Letras do Rio Grande do Sul (ALRS), que também paralisou suas atividades a partir de 1924. Em 1932 participou da fundação do Instituto Rio-Grandense de Letras, que seria extinto logo em 1934, mas cujo patrimônio foi a base para a reconstituição da ARL, onde Zeferino novamente ocupou uma cadeira até falecer em 3 de outubro de 1942. Foi um dos mais fortes proponentes da fusão da ARL com a ALRS, e embora não tenha testemunhado sua efetivação, ela ocorreu um ano depois de sua morte.[2]

Seu desaparecimento causou grande consternação nos meios intelectuais do estado, sendo amplamente divulgado e recebendo obituários em vários jornais, todos invariavelmente elogiosos, sendo reiterada sua importância para as letras gaúchas e em particular para a ARL, cuja existência e atividades muito deveram a ele. Jornais do centro do Brasil também noticiaram seu passamento, foi erguido um busto em Taquari, seus admiradores promoveram uma cerimônia solene no Theatro São Pedro, e a Academia Brasileira de Letras manifestou seu pesar e realizou uma sessão em sua homenagem, louvando-o como "ilustre e admirado poeta, escritor e jornalista, consagrado em todos os círculos literários do país".[2]

Seu nome batiza um parque em Taquari,[4] a biblioteca do Sport Club Internacional,[5] e ruas em Porto Alegre, Esteio, Rio de Janeiro e São Paulo.

Obra

Com uma produção que transita por diferentes gêneros literários, é mais lembrado como poeta. Incorporando influências parnasianas, românticas, naturalistas e simbolistas, sua obra foi muito popular em seu tempo, chegando a receber o título de "o príncipe dos poetas gaúchos". Sua temática é variada, passando pelo lirismo amoroso, pelo comentário do cotidiano, pelo regionalismo, pela crítica dos costumes, pela política e humor. O crítico Olinto Sanmartin era um entusiasta da sua obra, considerando-o "o nosso maior poeta lírico. [...] Poeta que se tornou uma imagem destacada, inconfundível, que punha toda a grandeza da sua sentimentalidade nos versos que escrevia. Editou oito livros exclusivamente de versos, de poesia pura, cromáticos, com muita expressão humana". Heitor Saldanha refere que foi "considerado pela crítica o maior poeta parnasiano do Rio Grande do Sul".[6]

Para Guilhermino César seu romance Juca, o letrado é a última expressão de uma linhagem de escritores que "defenderam nesta região do Brasil a trincheira do romance experimental" à maneira de Zola, e que "superou, aliás, os seus antecessores no concernente à 'escritura artística' ao gosto de Huysmans, dos irmãos Goncourt, do nosso Raul Pompéia e de Eça de Queirós".[6]

Em várias de suas obras a vida boêmia e seus típicos excessos de álcool e ópio são tematizados, como no romance Meio e no longo poema Visão do ópio, sendo nítida a marca do decadentismo, com uma temática mórbida, melancólica e desesperada e alusões à obra de Baudelaire e Edgar Allan Poe, expressando, segundo Cássia Macedo da Silveira, "a concepção que se tinha daqueles que escreviam poemas, na boêmia do fin-de-siècle, como um doente, um louco, o homem de gênio e o homem anormal estando separados por uma linha tênue". Esta linha de abordagem foi uma referência para toda uma nova geração de escritores.[7]

Augusto de Carvalho o chamou de "romancista de vastos recursos, prosador imaginoso e ágil, lidador da imprensa diária, humorista fino e mordaz, orador elegante e fluente, tudo isto Zeferino Brasil conseguiu ser! O poeta, porém, constituía o feitio integral daquele espírito cheio de harmonias e de doçuras infindas!" [6] "Nenhum artista teve tão larga e prestigiosa projeção na vida intelectual do seu tempo".[8]

Publicações

  • Alegros e Surdinas, 1890
  • Traços Cor de Rosa, 1892
  • Comédia da Vida, 1896
  • O Sul na Ponta, 1897
  • Juca, o Letrado , 1900
  • Na Vida e na Morte, 1901
  • Ester, 1902
  • Vovó Musa, 1903
  • Amores de Velho, 1903
  • O Outro, 1904
  • Visão do Ópio, 1906
  • Na Torre de Marfim, 1910
  • O Beijo, 1922
  • Meio, 1922
  • Teias de Luar, 1924
  • Boêmia da Pena, 1932
  • Alma Gaúcha, 1935
  • Hino ao Padre Joâo Cacique de Barros
  • O Carneiro

Referências

  1. "Zeferino Brazil". Delfos - Espaço de Documentação e Memória Cultural, PUCRS
  2. Woloski, Aline Rullian Germann. A Academia Rio-Grandense de Letras: gênese e trajetória de um sistema literário. Doutorado. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2013, pp. 103-114
  3. Ferreira, Athos Damasceno. Imprensa literária de Porto Alegre no século XIX. EdUFRGS, 1975
  4. "Taquari derruba busto em homenagem a Costa e Silva". Jornal de Novo Hamburgo, 17/12/2014
  5. "Totta, Saul". Museu de História da Medicina do Rio Grande do Sul
  6. Kohlrausch, Regina. "Zeferino Brazil na revista província de São Pedro e no "caderno de sábado" (Correio do Povo - RS): aspectos biobibliográficos". In: Cadernos Literários, 2020; 22 (1): 75–82
  7. Silveira, Cássia Daiane Macedo da. "Modernidade e tradições intelectuais entre Porto Alegre e o Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX". In: Topoi, 2020; 21 (44): 454-474
  8. "A morte do Príncipe dos Poetas Gaúchos". O Momento, 10/10/1942
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