Abayomi

As Abayomi são bonecas de pano, criação original de Lena Martins, artista e artesã natural de São Luís do Maranhão.[1] A boneca foi criada na década de 1980, em oficinas que Lena fazia então com comunidades do Rio de Janeiro.[2]

Lena Martins era educadora popular e militante do Movimento de Mulheres Negras, que procurava na arte popular um instrumento de conscientização e sociabilização. Assim, foi Lena Martins a artista quem criou a boneca sem costura e sem cola, que mais tarde recebeu o nome de Abayomi - dado pela própria Lena por ocasião do nascimento do filho de uma amiga sua - que, se fosse menina, se chamaria Abayomi - Lena, achou o nome lindo e não quis desperdiçá-lo - dando-o à boneca de sua criação. Logo, outras mulheres, e várias gerações, vindas de vários movimentos sociais e culturais, aprenderam com ela, juntaram-se e fundaram no Rio de Janeiro a Cooperativa Abayomi, em dezembro de 1988, dando continuidade ao trabalho desde então.[3]

Lenda das bonecas Abayomi

A origem das bonecas Abayomi tem sido frequentemente contada como remontando à época da escravidão, sendo confeccionadas a bordo de navios negreiros. Segundo essa estória, as mães as faziam para os filhos com os retalhos de suas roupas, as quais rasgavam à unha na esperança de os acalentar naqueles momentos dolorosos que viviam. Assim, as bonecas representariam a resistência, e o amor de mãe, a proteção. A ausência de traços faciais teria o intuito de abarcar todas as etnias trazidas escravas pelos colonizadores, levando a ideais de inclusão, de coletividade, de força conjunta. Não obstante, essa versão é falsa, sem qualquer registo ou indício histórico que a sustente, e de origem recente, sendo disseminada sobretudo já na década de 2000. A artesã Lena Martins lamenta a apropriação da sua criação por uma falsa lenda, mais uma vez negando aos negros e afrodescendentes brasileiros o direito de ter uma boneca que os represente. O historiador Marcelo Rezende confirma a ausência de indícios históricos que suportem a versão ligada ao tráfico de escravos, chamando a atenção para o perigo de distorções históricas como esta poderem deslegitimar algumas pautas do movimento negro. Para Rezende, “É importante lutar para o reconhecimento da história e cultura negra como ela realmente é, como parte constituinte da cultura brasileira. Há imensos símbolos ancestrais africanos, pode-se trazê-los e valorizá-los."[2]

Referências

  1. «'Tem que ser bem preta', ensina criadora das bonecas Abayomi». Folha de S.Paulo. 27 de agosto de 2021. Consultado em 30 de agosto de 2021
  2. Chevalier, Henri (23 de abril de 2019). «Bonecas Abayomi: por que a origem romantizada dura mais?». Conexão Lusófona. Consultado em 31 de julho de 2021
  3. Silva, Sonia Maria (2009). Experiência Abayomi: coletivos, ancestrais, femininos, artesaniando empoderamentos (PDF). V ENECULT - Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura. Salvado: Faculdade de Comunicação/UFBa. Cópia arquivada (PDF) em 1 de novembro de 2018

Bibliografia

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