Michelle Remembers
Michelle Remembers é um livro desacreditado que narra alegações de agressões sexuais em rituais satânicos. Foi co-escrito pelo psiquiatra canadense Lawrence Pazder e sua paciente (e mais tarde esposa) Michelle Smith.[1]
| Michelle Remembers | |
|---|---|
![]() Michelle Remembers | |
| Autor(es) | Lawrence Pazder Michelle Smith |
| Idioma | inglês |
| País | Canadá |
| Editora | St. Martin's Press |
| Lançamento | 1.º de novembro de 1980 |
| ISBN | 978-0-671-69433-3 |
O livro se tornou um bestseller e contribuiu para o surgimento do pânico moral de abuso de ritual satânico na década de 1980. No entanto, foi amplamente desacreditado, uma vez que usa a terapia de memória recuperada para fazer alegações macabras.[2][3] Embora o livro apresente suas alegações como fatos e tenha sido amplamente comercializado, nenhuma evidência foi fornecida pelos autores; especialistas descreveram o conteúdo como uma ficção baseada em elementos da cultura popular.[4][5]
Antecedentes
Michelle Remembers narra a terapia de Pazder submetida em sua paciente Michelle Smith durante a década de 1970.[6] Pazder começou a tratar Smith em sua clínica psiquiátrica privada em Vitória, Colúmbia Britânica, em 1973.[7][8] Três anos depois, quando estava em tratamento para depressão, Smith confidenciou que sentiu necessidade de contar algo importante, mas não conseguia lembrar o que era.[8] Logo depois, ela gritou por 25 minutos sem parar em uma sessão e eventualmente começou a falar com voz de uma criança de cinco anos.[7] De acordo com Pazder, durante os próximos 14 meses, ele passou mais de 600 horas usando hipnose para ajudar Smith a recuperar memórias aparentes de um abuso ritual satânico que ela sofreu quando criança.[7][8]
Publicação
Michelle Remembers foi divulgado pela primeira vez em artigos na revista People e no National Enquirer.[7] Em 1980, Pazder e Smith viajaram pelos Estados Unidos para promover o livro.[7] O sucesso comercial rendeu aos autores um adiantamento de 100 mil dólares e até mesmo um filme foi cogitado.[7][9] Em 1989, quase dez anos após a publicação, Oprah Winfrey colocou Smith como convidada em seu programa ao lado de Laurel Rose Willson, autora do livro Satan's Underground. As experiências de ambas foram apresentadas por Winfrey como fato incontestável, e nenhuma vez ela questionou a autenticidade de qualquer afirmação apresentada nos livros.[10]
Investigação de desacreditação
Pazder era um psiquiatra credenciado e membro do Royal College of Physicians and Surgeons of Canada. O livro, por sua vez, afirmava que seus materiais de origem, as fitas das sessões de terapia, foram examinados. No entanto, a veracidade das alegações foi questionada logo após a publicação do livro. Pazder, inclusive, retirou sua afirmação de que a Igreja de Satã teria sido a responsável pelos abusos de Smith quando o fundador da mesma, Anton LaVey, ameaçou processá-lo por difamação.[7]
Em 27 de outubro de 1980, Paul Grescoe entrevistou o pai de Smith, Jack Proby, que negou os acontecimentos e afirmou que poderia refutar todas as alegações do livro. Grescoe também observou que o livro não fez qualquer menção às duas irmãs de Smith, ao casamento de Pazder e Smith ou quaisquer investigações policiais.[7] Na década seguinte, algumas alegações do livro foram investigas, incluindo um suposto acidente de carro e uma cerimônia de 81 dias. No entanto, os investigadores foram incapazes de encontrar alguém que conhecesse Smith e pudesse corroborar com as alegações do livro.[4]
Em 2002, Kerr Cuhulain discorreu sobre o assunto e considerou as alegações de Smith como improváveis. Entre outras coisas, Cuhulain observou que parecia improvável que um culto sofisticado poderia realizar rituais em bairros residenciais ou que uma cerimônia ininterrupta de 81 dias com centenas de participantes passaria despercebida em Vitória.[5] Como outros autores,[8][9][11] Cuhulain também observou que muitas das chamadas memórias recuperadas de Smith se pareciam com elementos da cultura popular da época e com as próprias crenças e experiências religiosas de Pazder.[5]
Apesar da falta de evidências e críticas, ainda há pessoas que acreditam que as alegações de abuso de Smith são verdadeiras e evidências de uma conspiração satânica para abusar e sacrificar seres humanos.[8] O conteúdo do livro não foi substanciado por nenhuma evidência além do testemunho de Smith. Apesar disso, o livro supostamente inspirou acusações imitativas em todo o mundo,[8][12][13] mais especificamente contra membros da Igreja de Satã e ocultistas.[14]
Impactos
Na década de 1980, muitas pessoas acreditavam nos relatos de Michelle Remembers. Como resultado, Pazder foi considerado um especialista e bastante requisitado em casos de abuso de ritual satânico.[15][16] Ele participou de entrevistas, palestras e atuou como consultor no julgamento da escola McMartin.[17][18][19] O livro, por sua vez, era usado como material de guia para promotores e assistentes sociais.[20][21]
Referências
- Victor, Jeffrey S. (1993). Satanic Panic: The Creation of a Contemporary Legend. [S.l.]: Open Court Publishing Company. p. 13-14. ISBN 978-0-8126-9192-4
- Cara, Ed (3 de novembro de 2014). «The Most Dangerous Idea in Mental Health». Pacific Standard (em inglês). Cópia arquivada em 12 de outubro de 2017
- Yuhas, Alan (31 de março de 2021). «It's Time to Revisit the Satanic Panic». The New York Times (em inglês). ISSN 0362-4331. Consultado em 14 de abril de 2021. Cópia arquivada em 6 de junho de 2022
- Nathan, Debbie; Snedeker, Michael (2001) [1995]. Satan's Silence: Ritual Abuse and the Making of a Modern American Witch Hunt 2.ª ed. Lincoln: iUniverse. pp. 45–46. ISBN 0-595-18955-5
- Cuhulain, Kerr (8 de julho de 2002). «Michelle Remembers» (em inglês). Pagan Protection Center. Consultado em 16 de maio de 2006. Arquivado do original em 25 de maio de 2006
- Smith, Michelle (1989). Michelle Remembers. Nova Iorque: Pocket. ISBN 0-671-69433-2
- Paul Grescoe (27 de outubro de 1980). «Things That Go Bump in Victoria». Maclean's
- Wenegrat, Brant (2001). Theater of disorder: patients, doctors, and the construction of illness. Oxford: Oxford University Press. ISBN 0-19-514087-7
- de Young, Mary (2004). The day care ritual abuse moral panic. Jefferson: McFarland. ISBN 0-7864-1830-3. Consultado em 10 de outubro de 2008
- Shewan, Dan. «CONVICTION OF THINGS NOT SEEN: THE UNIQUELY AMERICAN MYTH OF SATANIC CULTS». Pacific Standard (em inglês). Consultado em 18 de março de 2020. Arquivado do original em 18 de março de 2020
- Nathan & Snedeker 2001, pp. 33–34, 50.
- Frankfurter, David (2006). Evil Incarnate: Rumors of Demonic Conspiracy and Ritual Abuse in History. Princeton, New Jersey: Princeton University Press. pp. 60–2. ISBN 0-691-11350-5
- Ney, Tara (1995). «The Assessment and Investigation of Ritual Abuse». True and False Allegations of Child Sexual Abuse: Assessment and Case Management. [S.l.]: Psychology Press. p. 304. ISBN 9780876307588
- Aquino, Michael (1994). Witchcraft, Satanism & Occult Crime: Who's Who & What's What, a Manual of Reference Materials for the Professional Investigator (em inglês). [S.l.]: Phoenix Pub. ISBN 0-919345-86-7. Arquivado do original (reprint) em 27 de agosto de 2015
- Nathan & Snedeker 2001, p. 50.
- Ellis, Bill (2000). Raising the devil: Satanism, new religions, and the media. Lexington, Kentucky: University Press of Kentucky. p. 62. ISBN 0-8131-2170-1
- Nathan & Snedeker 2001, p. 89.
- «The Devil Worshippers». ABC News 20/20 transcript, show #521. 16 de maio de 1985. pp. 6–7
- Nathan & Snedeker 2001, p. 113.
- Shirley Downing and Tom Charlier (17–23 de janeiro de 1988). «Justice Aborted: A 1980s Witch-Hunt». The Commercial Appeal
- «Michelle Remembers: Fiction, not Fact». Consultado em 23 de agosto de 2011. Arquivado do original em 24 de março de 2013
