Pensamento selvagem

O Pensamento selvagem (La pensée sauvage) é um livro do antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908 — 2009) publicado em 1962 pela editora Plon em Paris.

O Pensamento selvagem / La pensée sauvage
Autor(es) Claude Lévi-Strauss
Idioma Francês /Português Tradução: Maria Celeste da Costa e Souza e Almir de Oliveira Aguiar
País França Brasil
Assunto 1.Etnologia 2.Homem primitivo 3.Sociedades Primitivas
Série Ciências Sociais
Editora Companhia Editora Nacional
Lançamento 1976 (1962)
Páginas 390

Esse antropólogo, criador do método estrutural, estudou os povos ditos primitivos, contestando o racismo e a noção de primitivo, e comparou etnografias realizadas em todos os continentes. [Nota 1] Talvez a sua principal contribuição seja sua demonstrável constatação de que os chamados selvagens não são atrasados, "menos evoluídos", selvagens nem primitivos, apenas operam de modo distinto da nossa civilização ocidental, com o que a antropologia convencionou denominar pensamento mítico-religioso ou magia. Lévi-Strauss nos demonstra que o pensamento mítico em termos de operações mentais é comparável ao pensamento científico, [1] diferindo quanto à questões do determinismo causal, global e integral para o primeiro e em níveis distintos, não aplicáveis uns aos outros, no pensamento científico (Levi-Strauss o.c. p.31-32)

O mito e o rito, escreve Lévi-Strauss, não são simples lendas fabulosas, mas uma organização da realidade a partir da experiência sensível enquanto tal. Para explicar a composição do mito, organiza três características principais: função explicativa, o presente é explicado por alguma ação passada cujos efeitos permaneceram no tempo; função organizativa, o mito organiza as relações sociais (de parentesco, de alianças, de trocas, de sexo, de identidade, de poder, etc.) de modo a legitimar e garantir a permanência de um sistema complexo de proibições e permissões; e, por fim, uma função compensatória, o mito narra uma situação passada, que é a negação do presente e que serve tanto para compensar os humanos de alguma perda como para garantir-lhes que um erro passado foi corrigido no presente, de modo a oferecer uma visão estabilizada e regularizada da natureza e da vida comunitária. [2]

O reverso do totemismo, o homem naturalizado. Ilustração de Charles Le Brun utilizada no livro

Segundo Viveiros de Castro, antes de limitar-se à uma interpretação de mitos Levi-Strauss, em alguns de seus livros, analisa as disposições universais do pensamento humano: ameríndio, europeu, asiático ou qualquer outro. Em suas palavras: O “pensamento selvagem” não é o pensamento dos “selvagens” ou dos “primitivos” (em oposição ao “pensamento ocidental”), mas o pensamento em estado selvagem, isto é, o pensamento humano em seu livre exercício, um exercício ainda não-domesticado em vista da obtenção de um rendimento. O pensamento selvagem não se opõe ao pensamento científico como duas formas ou duas lógicas mutuamente exclusivas. Sua relação é, antes, uma relação entre gênero (o pensamento selvagem) e espécie (o pensamento científico). Ambas as formas de pensamento se utilizam dos mesmos recursos cognitivos; o que as distingue é, diz Lévi-Strauss, o nível do real ao qual eles se aplicam: o nível das propriedades sensíveis (caso do pensamento selvagem), e o nível das propriedades abstratas (caso do pensamento científico). [3]

O livro

Subdividido em 9 capítulos com um apêndice sobre a planta, Pansy (Pensée des champs / Viola tricolor, amor perfeito entre nós) homônima ao nome do livro em francês, Pensée sauvage, esse livro instaura uma nova perspectiva de análise dos mitos e sistemas de classificações de objetos, plantas, animais dos povos considerados primitivos. É um livro que se contrapõe segundo seu autor às clássicas definições do totemismo em etnologia. Tem com referencial o seu livro anterior “O totemismo hoje” (Le totémisme aujourd’hui. PU, Paris, 1962), as contribuições de Maurice Merleau-Ponty, a quem o livro é dedicado em memória e Jean Paul Sartre sem buscar uma oposição entre ambos conforme revela no seu prefácio da obra.

O professor brasileiro Eduardo Viveiros de Castro acredita que ao elaborar o conceito básico de" pensamento selvagem " Lévi-Strauss mostrou que a ciência, filosofia, arte, religião, mitologia, magia etc. constituem na realidade em um único eixo, que é, o conhecimento humano [4]

Assim subdivide-se o livro:

O reverso do totemismo. A natureza humanizada. Ilustrações de Grandville (Jean-Ignace-Isidore Gérard,) utilizadas no livro

1 – A ciência do concreto

2 – A lógica das classificações totêmicas

3 – Os sistemas de transformações

4 – Totem e casta

5 – Categorias, elementos, espécies, números

6 – Universalização e particularização

7 – O indivíduo como espécie

8 – O tempo redescoberto

9 – História e dialética

Epigrafe

" Nada se compara no mundo aos Selvagens, aos camponeses e aos provincianos, para estudarem, a fundo, em todos os sentidos, o que lhes diz respeito; eis porque, quando passam do Pensamento ao Fato, encontrais tudo completo. "

" Il n'y a rien au monde que les Sauvages, les paysans et les gens de province pour étudier à fond leurs affaires dans tous les sens; aussi quand ils arrivent de la Pensée au Fait, trouvez vous les choses complètes. " (Honoré de Balzac, Le Cabinet des Antiques)

Referências

  1. Levi-Strauss, Claude. O pensamento selvagem SP, Ed. Nacional, 1976
  2. Levi-Strauss, C. Mito e significado. Lisboa, Pt, Edições 70, 1963 apud: Cotta, Mirian de Abreu. A filosofia dos mitos indígenas - mitologias e cultura na américa Curso de Filosofia da U.F. Juiz de Fora. 2009 Pdf Jun. 2011
  3. Castro, Eduardo Viveiros. O pensamento em estado selvagem do pensamento científico Com Ciência 46 Jan. 2011
  4. Il a montré l'universalité de la raison », Books, n°1, décembre 2008 janvier 2009, p. 53.

Ligações externas

  • 1962. O Pensamento selvagem. C. Ed. Nacional, 1970 Google Livros Jan. 2011
  • Goldman, Marcio. Lévi-Strauss e os sentidos da História. Rev. Antropol. vol.42 n.1-2 São Paulo 1999 Scielo Jan. 2011
  • O pensamento Selvagem. Resenha Shvoong Jan. 2011

Ver também

Notas

  1. Há referências no livro às seguintes etnias: Axântis; Algonquinos; Arabanna (Arabana); Aranda; Arunta; Aimarás; Azande; Bahima; Banioro (Bantos); Bemba; Bateso; Blackfoot; Bororos Brasil; Bororos África (Peul, Kaguru); Bosquímanos (coisã); Canelas; Chickasaw; Chineses; Chinook; Chippewa; Coahuilla (América Central); Creek; Crows; Dakotas (Sioux); Dayak; Delaware; Devanga (Bengala); Dinka; Dobu (I. Amphlett) ver: Kula; Dogon; Elema (Sul da Nova Guiné; Esquimós; Fang; Fox (Meskwahki-haki - Ohio); Gahuku-Gama (Nova Guiné); Guaranis; Hanunoo (Sul das Filipinas); Havaí; Hopis; Iakute (Gagaúzes); Iatmul; Iban (Dayak do mar); Ioway; Iroquês; Itelmene; Kaguru; Kaitish - Unmatjera (Língua arrernte); Kalar (Sibéria); Karadjeri; Karuba; Kauralaig; Kavirondo (Bantos); Kazak (Cossacos); Kiway (Nova Guiné); Koko Yao (Cabo York); Kuruba; Kwakiult; Luapula; lubara (Uganda); Luvale (Rodésia - Zâmbia); Mabuiag (Austrália); Maias; Maithakudi; Malecite (América do Norte); Mandan; Mashona (Bantos); Matabele; Menomini (Região dos Grandes Lagos); Miwok; Mocassino; Mixe; Mohawk (Moicanos); Munda; Muskogi; Murngin (Arnhem - Austrália); Naga (Assam); Nandi (Uganda); Naskapi (Inuítes); Navajos; Ndembu (Angola - Zaire - Zâmbia); Negritos; Nueres; Oirote; Ojibwa; Okerkila (Austrália); Omaha (Missouri); Oraon; Osage; Ossete; Papago (Pima-papago); Pawnee; Penan (Bornéu - Penang; Penobscot (Maine); Peul; Pigmeus; Pima; Pinatubos (Negritos - Filipinas); Ponapê (Pohnpei - Micronésia); Ponca (Dakota do Sul - Nebraska); Pueblos (Novo México); Russos (Altai); Russos (Sibéria); Russos (Surgut); Saibai (Austrália); Samoa; Sauk (Eastern Woodlands - Wisconsin); Seminoles; Senufôs; Sioux; Subanum (Filipinas); Tanoan (kiowa-tanoano); Tewa (Pojoaque Pueblo - Novo México); Tikopia; Tiwi (Yermalner Ilha Melville); Tjongandji (Australia); Tlingit; Toradja (Indonésia Celebes do Sul); Toreya (Sul da Índia; Trobriand; Tucunas (Ticunas); Tupis cavaiba (Tupis); Tutu; Ulawa (Makira-Ulawa); Ungarinyin (Ngarinyin - Australia); Unmatjera (Anmatjera - Norte da Austrália); Walpari, Walpiri (Australia); Warramunga, Waramanga (Australia); Winnebago (Wisconsin); Wik munkan (Cabo York - Austrália); Wotjobaluk (Jadawadjali Austrália); Xerentes; Yoruba; Yuma (Quechan Colorado); Yorok); Zuni.
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