Rodrigues

Rodrigues é um sobrenome da língua portuguesa, sendo de ocorrência mais frequente entre os habitantes de Portugal e Brasil. Pertence a onomástica luso-hispânica e é comumente encontrado nos países de língua oficial portuguesa e de língua castelhana respectivamente. O nome de família Rodrigues é de origem Patronímica e surgiu na Península Ibérica no Periodo medieval. É um sobrenome bastante popular em Portugal, e é importante ressaltar que a maioria dos brasileiros possui alguma ancestralidade portuguesa, ainda que remota na maior parte dos casos, uma vez que os portugueses constituíram o grupo que mais povoou o Brasil. Durante mais de três séculos de colonização, somada à imigração pós-independência, os portugueses deixaram profundas heranças para a cultura do Brasil e também para a etnicidade do povo brasileiro.

 Nota: Se procura a ilha do Oceano Índico, veja Rodrigues (ilha).
Brasão de armas dos Rodrigues

Inicialmente significava "filho ou descendente de Rodrigo" e pode ter se originado no século IX, quando outros patronímicos também se originaram. Seu equivalente em Castelhano é "Rodríguez". Tem origem patronímica, provém do prenome "Rodrigo" ou da forma contraída "Rui/Ruy", que tem sua origem no Povo Visigodo, significando "poderosamente famoso", "famoso pela sua glória" ou "governante poderoso", "rei famoso", "rico em glória", composto pela união dos vocábulos "Hrod", que quer dizer: célebre ou famoso e "Ric" glória/glorioso. Surgiu do germânico antigo "Hrodric" e chegou a língua portuguesa através do Latim "Rodericus". No Galego-português (português antigo), o nome era escrito na forma "Ruderic", "Rudric", "Roderico" e por fim "Rodrigo". Rodrigues evoluiu de Rodrigo, que era sufixado por -iz no período medieval, "Rodriguiz", o mesmo que "filho de Rodrigo", ou "filho daquele que é rico em glória".

Os Rodrigues predominam na Espanha, em Portugal e em suas respectivas ex-colônias, tendo sido Senhores de Morgado, Fidalgos da Casa real, Governadores ultramarinos, Abades e Cardeais. Com registros originários de Portugal o sobrenome Rodrigues é comum entre pessoas de ascendência portuguesa. De Portugal o sobrenome começou a chegar ao Brasil no século XVII, entre os administradores coloniais e principalmente com os demais colonos portugueses, no período das Capitanias hereditárias e depois com os Governos gerais.

Rodrigues é um sobrenome de bastante prestígio na lusofonia, principalmente em Portugal e no Brasil. Possuindo apenas uma variação: na versão Espanhola o Rodrigues fica Rodríguez. Esta grafia também é utilizada nos países hispanófonos.

Alguns nomes e sobrenomes passaram a existir a partir de abreviaturas como por exemplo: "Roiz", "Röiz" e "Ruiz" que é a forma reduzida (ver: hipocorístico) de Rodrigues. Os sobrenomes Rodrigues e Roiz eram sinónimos um do outro, sendo que o segundo é a abreviatura do primeiro.

Hoje constituem apelidos diferentes mas, historicamente, a variante abreviada "Roiz" (ver: Ana Rodrigues) era usada com frequência já que ambos evoluíram a partir do nome Rodrigo.

Também é bastante conhecido nos países hispânicos e acabou se espalhando de uma forma que hoje se encontra o sobrenome Rodríguez até mesmo nos Estados Unidos.[1][2][3][4][5][6][7][8][9]

Em Portugal, são conhecidos três Brasões diferentes relativos a este sobrenome e segundo o genealogista português Manuel José da Costa Felgueiras Gaio, em seu “Nobiliário de Famílias de Portugal”, edição composta por 33 volumes, ao menos 3 famílias com origens na nobreza portuguesa suspeitam que sejam descendentes do Rei Rodrigo, o último rei visigodo da Hispânia entre os anos 710 e 711, século VIII antes da conquista islâmica e mourisca.[10][11]

A família Rodrigues original tinha origem nobre, não deve ser confundida com os judeus sefarditas que adotaram o apelido posteriormente para se camuflar e escapar das perseguições religiosas aos judeus em Portugal e Espanha. Não se trata apenas de um sobrenome português de origem "Cristã-velha", mas também é de origem "Cristã-nova", pois há também os Rodrigues de Origem judaica, tendo sido comprovado que este também foi um dos sobrenomes adotados pelos chamados "Cristãos-novos" em Portugal, Judeus portugueses forçadamente conversos ao Catolicismo Romano, posteriormente estabelecidos no Brasil Colônia (ver: América Portuguesa), para escapar da intolerância religiosa e das perseguições na Europa.

A presença de judeus na Península Ibérica é de remotíssima memória, já se referindo a ela o Concílio de Orleans, realizado no ano de 538, e o Concílio de Toledo, em 633. Por essa época, os judeus ostentavam nomes e sobrenomes hebraicos. Mais tarde, com a ocupação muçulmana da Península Ibérica, a antroponímia judaica também assimilou essa influência, aparecendo nomes de sonoridade árabe, ao lado dos puramente hebraicos e espanhóis.

Em 1492, os Reis Dom Fernando II de Aragão e Dona Isabel I de Castela, conhecidos como os "Reis Católicos", decretaram a expulsão dos judeus da Espanha. Em razão disso, cerca de cento e vinte mil pessoas foram buscar refúgio em Portugal e, nessa mudança, levaram consigo sobrenomes árabes, hebraicos e espanhóis, além dos nomes de família representados por topônimos. O crescimento da comunidade judaica em Portugal não agradou aos Reis Católicos, que passaram a exercer pressão política sobre o rei português no sentido de que este também expulsasse os semitas do território lusitano.[12][13][14][15][15]

Por volta de 1496, D. Manuel I decretou a expulsão dos judeus de Portugal, oferecendo, contudo, a oportunidade de permanecerem no país, mediante conversão religiosa ao Catolicismo. Essa conversão, através do batismo, exigia nomes cristãos e, como via de regra, o converso assumia nome e sobrenome tipicamente portugueses. Alguns documentos ainda mantêm registrados os nomes originais dos judeus que, ao serem batizados, assumiram nomes e sobrenomes portugueses como foi o caso do Cristão-novo “Salomão Coleiria”, que utilizava o nome “Gonçalo Rodrigues”, em Pernambuco.

No Brasil é um dos sobrenomes mais comuns usados entre Cristãos-novos, judeus convertidos estabelecidos no Brasil colonial. Na Bahia no século XVIII vivia um Diogo Rodrigues, judeu português de ascendência francesa de nome Abraão e chamado popularmente de “Dioguinho Hebreu”.[16][17][18][19][20][21]

Muitos judeus portugueses convertidos mantinham, reservadamente, seus nomes originais, pois grande parte das conversões era apenas de "fachada", preservando sua fé na lei judaica, no seio da intimidade da família. No entanto, em março de 1497, foi imposta a expulsão da comunidade judaica de Portugal por meio de uma lei que entrou em vigor naquele mesmo ano, iniciando uma série de medidas persecutórias aos Judeus em todo território português.[22][23][24]

Em 1536, estabeleceu-se o Tribunal do Santo Ofício, com isso iniciou-se uma caçada aos "Cristãos-novos", que durou até 31 de março de 1821, quando as Côrtes Constituintes decretaram a extinção do Tribunal do Santo Ofício, instituição criada em Portugal, com o objetivo de suprimir as chamadas "heresias", que apareceram e qualquer tipo de sincretismo religioso, julgar e punir os ditos "crimes" contra a religião católica. A Inquisição, como ficaria conhecida, caracterizou-se pela sua desumanidade, levando a cabo práticas de terror, horror e tortura seguida de morte. A Inquisição medieval ocorreu nos Séculos XIII e XIV e a Inquisição moderna durou do Século XV ao XIX. Fato este que motivou e levou os judeus portugueses a fugir deixando Portugal para trás, assim emigrando em fuga, em direção ao Brasil, principalmente para a Região Nordeste.

No início da Colonização portuguesa no Nordeste do Brasil, a maioria dos portugueses que queriam começar uma nova vida eram na verdade: Cristãos-novos, que buscavam viver em anonimato nas novas terras, sem vínculos com o passado de perseguições aos Judeus na Europa. Muitas famílias de "Cristãos-novos", praticaram secretamente o Criptojudaísmo (ver: Branca Dias), em áreas isoladas e de difícil acesso no Sertão nordestino, chegando a praticar e promover a endogamia, isto é: casamento entre parentes próximos, por exemplo: casamentos entre primos. Muitos outros "Cristãos-novos", a grande maioria, optava por não retomar o Judaísmo, preferindo ocultar totalmente suas origens, assim crescendo seus filhos e gerações seguintes na fé católica e sem ter conhecimento sobre suas legítimas raízes e a antiga crença de seus antepassados.[25][26][27][28][29][5]

A intenção do Santo Ofício era extinguir da sociedade os "infectos de sangue" (árabes, judeus, ciganos, etc) e os de conduta reprovável (feiticeiros, adúlteros, sodômicos, etc). Como a Comunidade judaica era a de número mais significativo em Portugal, que foi uma das nações mais intolerantes em toda Europa e sempre associados à imagem de "assassinos de Cristo", pelo pensamento antissemita popular, passando, portanto, a sofrer maior perseguição. Nas listas de processados pelo Tribunal do Santo Ofício contém nomes de acusados de práticas judaicas, ou por serem "Cristãos-novos", encontram-se nomes e sobrenomes genuinamente portugueses, causando estranheza em pesquisadores, já que nomes hebraicos raramente eram mencionados.[30][31]

Tendo sido o sobrenome Rodrigues adotado pelos judeus portugueses justamente por ser classificado como um patronímico, isso através da terminação "-es", este sufixo, portanto, significava "filho de", que era uma forma de identificar parentesco paterno, utilizada para dar a idéia de descendência em Portugal, o significado é o mesmo do sufixo "-ez" utilizado na língua castelhana. Na Idade Média, existia em Castela, Leão, Navarra, Aragão e Portugal a prática de adicionar a desinência -ez, por vezes -z ou -iz, e em Portugal também "-es", para formar o sobrenome dos filhos e descendentes a partir do nome do pai ou chefe de família.

Por volta dos séculos XIV e XV começaram a surgir as primeiras famílias com este sobrenome, que tinham como patriarca alguém com o nome de Rodrigo. Tanto na Península Ibérica Medieval quanto em outras culturas, era comum formar o sobrenome de um indivíduo a partir do nome próprio do pai (ver: prenome). Por ter origem Patronímica, inúmeras famílias com origens diversas sem qualquer tipo de laço consanguíneo ou ligação de parentesco adotaram este sobrenome, bem como os Judeus portugueses de ascendência Sefardita também o fizeram, assim não levantando suspeitas da inquisição, por também ser utilizado por famílias de origem "Cristã-velha".

Como outros sobrenomes patronímicos, muitas famílias o adotaram sem terem parentesco algum entre si. Isso porque diferentes patriarcas de nome "Rodrigo" poderiam ter iniciado linhagens distintas, tendo sido seus nomes perpetuados nos descendentes. Também, semelhantemente a vários outros sobrenomes portugueses, "Rodrigues" poderia ser adotado por motivos alheios, como, por exemplo, à libertação d'um escravo, "herdando" o sobrenome de seu antigo senhor ou sinhá.

Não há uma única família, mas várias que adotaram o sobrenome ao longo do tempo. Há muitas famílias, com origens diversas. Em Portugal pelo menos três delas eram nobres. A de Martim Rodrigues, mencionado em um armorial de 1509. A do bacharel António Rodrigues, ao qual foi concedido um brasão de armas em 1510. E a família Rodrigues de las Varillas ou Rodrigues de Salamanca, por terem origem nessa cidade. Estes passaram a Portugal durante o reinado de Felipe II. Há ainda, segundo alguns pesquisadores, a família de André Rodrigues de Áustria.[32]

Segundo a historiadora e pesquisadora Anita Novinsky, especializada na Inquisição portuguesa no Brasil e nos costumes dos cripto-judeus, os sobrenomes adotados pelos Cristãos-novos eram os mesmos usados por Cristãos-velhos. Entretanto isso não invalida o fato que ramos desta e outras famílias são de origem judaica. O mesmo ocorre com judeus, tanto da Europa Oriental, quanto na Europa Ocidental, pois muitos não judeus dividem sobrenomes com judeus de mesma pátria de origem. O documentárioA Estrela Oculta do Sertão”, que versa sobre comunidades de Cripto-judeus no Nordeste do Brasil, está baseado parcialmente nas investigações de Novinsky, incluindo uma entrevista com ela.[33][34][35][36][37]

Durante o século XVIII, o sobrenome Rodrigues é mencionado mais de 130 vezes no "Livro dos Culpados", onde eram escritos os nomes dos detidos pela Inquisição portuguesa, estabelecida pelo Tribunal do Santo Ofício, sob a acusação de praticar o Judaísmo que era tido como "crime inafiançável", quem praticava a religião em Portugal ou nas colônias portuguesas, fazia da forma mais escondida possível (ver: Criptojudaísmo), para não ter problemas com a Igreja Católica e o Tribunal do Santo Ofício.

Além de condenações à fogueira, como aconteceu no pogrom de Lisboa de 1506, quando uma multidão perseguiu e matou milhares de judeus e houve o confisco de bens, de modo geral, os "Cristãos-novos" partiam de Portugal Continental sem recursos, com ocupações humildes como lavradores, artesãos, alfaiates e sapateiros, chegando ao Brasil, principalmente à região setentrional do Nordeste brasileiro, que foi o berço da colonização européia e sobretudo da colonização portuguesa do Brasil. Conforme leituras de processos identificados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo em Lisboa, em cada três portugueses que imigraram para o Brasil, em média um possuía ascendência ou origem judaica.[38][39][40][1]

Armas

  • Martim Rodrigues: de ouro, com 5 flores-de-lis e vazia de ouro; timbre: um leão de ouro nascente, carregado com a flor-de-lis do escudo na espádua.
  • André Rodrigues de Áustria: escudo partido, sendo o primeiro de ouro, meia águia bicéfala de negro, e o segundo de vermelho, duas faixas de prata; timbre: uma cabeça e um pescoço de uma águia de negro, armada de ouro e lampassada de vermelho.
  • António Rodrigues: escudo partido, sendo o primeiro de negro, meia águia de ouro estendida, e o segundo de prata, uma faixa de vermelho, acompanhada de duas pombas de púrpura, voantes, uma em chefe e outra em ponta; timbre: desconhecido.
  • Rodriguez de la Varillas: de ouro, 4 palas de vermelho; bordadura de azul, carregada de 8 cruzes, também potenteias de prata, cada cruz acantonada de 4 cruzetas também potenteias.

Referências

  1. Família Rodrigues origem, curiosidades e brasão.
  2. Solidonio., Leite, (1923). Os judeus no Brasil. [S.l.]: J. Leite & cia. OCLC 27439935
  3. Feitler, Bruno (junho de 2012). «Jerusalém colonial: judeus portugueses no Brasil holandês». Varia Historia (47): 459–462. ISSN 0104-8775. doi:10.1590/s0104-87752012000100024. Consultado em 7 de dezembro de 2021
  4. «Abreviaturas Antigas – Cobra Pages». www.cobra.pages.nom.br. Consultado em 4 de março de 2022
  5. «Genealogia FB: Listas de abreviaturas paleográficas e termos antigos». GenealogiaFB. Consultado em 4 de março de 2022
  6. «Ruiz – Sobre Nomes». Consultado em 5 de março de 2022
  7. Como tem origem patronímica (“filho de Rui”), Ruiz é um nome de família comum, com várias famílias tendo adotado a identificação sem ligação de parentesco. Entre os Ruiz mais antigos conhecidos estão os cavaleiros que serviram ao rei Fernando III de Castela (1201-52). Um dos primeiros com o sobrenome a chegar a América foi Diego Ruiz, que desembarcou no México em 1519 com Fernando Cortez (1485-1547) — há vários registros sobre de familiares Ruiz chegados a Nova Espanha entre 1521-55. No Brasil, há diversos imigrantes espanhóis com este sobrenome chegados principalmente no começo do século 20.
  8. «Os apelidos Rodrigues e Roiz - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa». ciberduvidas.iscte-iul.pt. Consultado em 21 de março de 2022
  9. «Rodrigues família heráldica-genealogia brasão Rodrigues». Heraldrys Institute of Rome. Consultado em 6 de abril de 2022
  10. «Nobiliário de famílias de Portugal, [Braga], 1938-1941 - Biblioteca Nacional Digital». purl.pt. Consultado em 25 de março de 2022
  11. «Biblioteca Nacional de Portugal». Wikipédia, a enciclopédia livre. 28 de fevereiro de 2022. Consultado em 25 de março de 2022
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