História da Linha do Norte

A Linha do Norte é uma ligação ferroviária entre as cidades de Lisboa e do Porto, em Portugal, constituindo a principal via de caminhos de ferro neste país. As obras iniciaram-se em 17 de Setembro de 1853, em Lisboa, tendo o primeiro lanço a entrar ao serviço sido até ao Carregado, em 28 de Outubro de 1856, pela Companhia Central e Peninsular dos Caminhos de Ferro em Portugal.[1] No entanto, vários problemas de ordem financeira levaram ao encerramento da empresa, pelo que foi sobre a exploração do estado que a linha chegou depois a Virtudes em 31 de Julho de 1857, a Ponte de Santana em 28 de Abril de 1858, e à Ponte de Asseca em 29 de Junho do mesmo ano.[1] Em 1859, a construção e exploração da linha foi contratada à Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses, que tinha sido criada pelo empresário espanhol José de Salamanca y Mayol para esse fim.[1] Assim, foi já pela administração da Companhia Real que a linha chegou a Santarém em 1 de Julho de 1861, ao Entroncamento em 7 de Novembro de 1862 (em conjunto com o lanço até Abrantes da Linha do Leste), a Soure em 22 de Maio de 1864, e a Taveiro em 10 de Abril desse ano.[1] O percurso até Vila Nova de Gaia foi construído de Norte para Sul, tendo a linha atingido Estarreja em 8 de Junho de 1863, e feita a ligação em Taveiro em 19 de Abril de 1864.[2] As obras estiveram então vários anos paralisadas devido ao difícil processo de planeamento e construção da Ponte de D. Maria Pia, sobre o Rio Douro, tendo o lanço de Vila Nova de Gaia a Campanhã sido inaugurado em 5 de Novembro de 1877, concluindo a Linha do Norte.[1] A linha foi totalmente duplicada em 1930[1], e electrificada em 1966.[3]

Fases de construção da Linha do Norte[2]
DataLançokmObservações
28 de Outubro de 1856 S. Apolónia - Carregado36,454
30 de Julho de 1857Carregado - Quinta das Virtudes13,866
30 de Abril de 1858Quinta das Virtudes - Ponte de Santana9,934
29 de Junho de 1858Ponte de Santana - Ponte de Asseca7,546
1 de Julho de 1861Ponte de Asseca - Santarém6,600
7 de Novembro de 1862Santarém - Entroncamento32000Junto com o lanço até Abrantes da Linha do Leste
19 de Novembro de 1862Vila Nova de Gaia - Estarreja44,823Abertura provisória
8 de Junho de 1863Vila Nova de Gaia - Estarreja44,823Abertura definitiva
10 de Abril de 1864Estarreja - Taveiro76,257
22 de Maio de 1864Entroncamento - Soure79,048
7 de Julho de 1864Soure - Taveiro25,809
5 de Novembro de 1877Vila Nova de Gaia - Porto-Campanhã26,437Conclusão da linha
Ver artigo principal: Linha do Norte
Linha do Norte
Legenda
000000 Linha do Minho
000000 Linha do MinhoValença
Linha do MinhoPorto-São Bento
336,079 Porto-Campanhã
336,079 Porto-Campanhã
Metro: (Campanhã)
000000 Linha do Minho
000000 Túnel da China I      
335,082
334,850
Viaduto de Campanhã (232 m); T. Seminário I (114 m)
334,850 Ramal da AlfândegaPorto-Alf.
Ponte de D. Maria Pia ➀ × Av. Paiva Couceiro
334,350 Ponte de São João ➁ (500 m) × DouroPRTVNG
334,350
333,943
Viaduto de General Torres (407 m); (➀ traj. abd.)
333,749
333,520
Túnel da Serra do Pilar II (229 m)
333,342 General TorresMetro: (G.Torres)
(proj. orig. 1866, abd.)
× R. C. Reis
× R. Choupelo
× R. B.º C.P.
× R. Serpa Pinto
332,239 V. N. de Gaia (Devesas)
× Vª Eng. E. Cardoso
× R. Machado Santos
330,943 Coimbrões
× A1
× R. Entre-Muros
329,979 Desvio da Madalena
× R. Pitada
329,319 Madalena
× R. Apeadeiro
× R. Ant.º F. Sousa
Fáb. Cerâmicas Valadares
327,800 Valadares
× R. J. M. C. Portugal
× R. Medeiros
× Av. Francelos
325,365 Francelos
× R. Pedras
× R. Moutadas
× Av. V. Gama
323,815 Miramar
× R. N. Mira
× R. Redondelo
322,500 ZN Aguda
× Av. P. Aguda ∥ Av. S. Cabral ∥ R. Ervideiro
× R. Caçadores
321,808 Aguda
× R. J. Correia
× R. Eirado
× R. J. R. Melo
320,394 Granja
× R. Praia Nova
× R. M. Vento
× acesso ped. praia
× acesso ped. praia
× R. 66
(traç. ant.)
Espinho(est. ant.)
316,792 Espinho
316,792 Espinho
PN × Rua 15
(túnel / traç. ant.)
Espinho-Vouga
000000 Linha do Vouga
314,992 Silvade
313,313 Paramos(Aer. Espinho)
311,900 Esmoriz
309,376 Cortegaça
307,544 Carvalheira-Maceda
R. MacedaBase Aérea (des.)
300,776 Ovar
296,973 Válega
293,759 Avanca
290,900
Esterreja Amoníaco
290,190
287,421 Estarreja
284,815 Salreu
283,383 Canelas
279,997
279,743
Ponte do Vouga (254 m) × Rio Vouga
279,466
Portucel Cacia
278,718 Cacia
278,718 Cacia
276,249
Plataforma de Cacia
274,684
× R. Liberdade
000000 Ramal do Porto de Aveiro
274,222
273,974
Ponte de Esgueira (248 m) × Ria de Aveiro
000000 Ramal de Aveiro
Ramal de Aveiro-MarCanal do Cojo
Ramal C. São RoqueCanal de São Roque
272,676 Aveiro
272,676 Aveiro
266,008 Quintãs
258,046 Oiã
252,240 Oliveira do Bairro
248,482 Paraimo
244,643 Mogofores
242,455 ZN Curia
241,652 Curia
240,653 Aguim
236,086 Mealhada
R. Fig. FozF. Foz
000000 Linha da Beira Alta
231,303 Pampilhosa
231,303 Pampilhosa
220,403 Cimpor
224,971 Souselas
224,971 Souselas
222,097 Vilela - Fornos
220,490 Adémia
220,403 Moacir
217,294 Coimbra - B
217,024 Ramal de Coimbra
Coimbra
Ramal da LousãLousã (des.)
216,780
216,690
P.te Mondego V.º (93 m) × Mondego
216,483
216,380
P.te Mondego N.º (187 m) × Mondego
215,201 Bencanta
213,800 Espadaneira
212,562 Casais
211,159 Taveiro
208,544 Vila Pouca do Campo
206,916 Amial
P.te Arzila × R.ª Cernache
203,318 Pereira
201,211 Formoselha
198,339 Alfarelos
198,339 Alfarelos
000000 Ramal de Alfarelos
191,365 Vila Nova de Anços
188,378 Ponte do Mocate (83 m) × Rib. Mocate
Quimigal Soure
185,347 Soure
185,347 Soure
183,080 ZN Soure
181,947 Ponte do Simões (66 m) × Rib. Simões
180,137 Simões
175,316 Pelargia
169,604 Pombal
167,739 Pombal-Resguardo
165,500 Aeródromo do Pombal
161,232 Vermoil
155,616 Litém
149,293 Albergaria dos Doze
148,052
147,391
Túnel de Albergaria (661 m)
139,011 Caxarias
136,000 ZN Caxarias
132,514 Seiça-Ourém
132,080 Ponte do Seiça (61 m) × R. Seiça
130,695
130,370
T. Chão Maçãs (650 m)
129,563 Chão de Maçãs-Fátima
125,240 Fungalvaz
122,900 Fungalvaz-Resguardo
120,678 Paialvo
114,736 Ramal de Tomar
114,736 Ramal de Tomar Tomar
114,413 Lamarosa
× R. Inf. Sagres
106,858 Linha da Beira Baixa
× V.º E. D. Poitout
× R. Eug.º Andr.; × R. 5 Out.
EMEF; Fernave; TVT
106,302 Entroncamento
106,302 Entroncamento (museu)
104,560 MSC
L.ª T. Novas a Alcanena(dem.)
102,095 Riachos-Torres Novas-Golegã
× estr. Relvas
093,654 Mato de Miranda
088,361 Ponte do Alviela (61 m) × R. Alviela
EPAC
083,826 Vale de Figueira
074,400 Santarém
074,400 Santarém (museu)
071,000 Aeródromo de Santarém
060,031 Ponte da Asseca (104 m) × Rib. Asseca
Ramal de Rio MaiorR. Maior
066,291 Vale de Santarém
065,310 ZN Vale Sant.
063,186 Santana-Cartaxo Resguardo
060,300 Santana-Cartaxo
057,775 C.ª Setil NorteL.ª Vendas Novas
000000 Linha Vendas Novas
056,634
056,400 Setil
056,400 Setil
054,292 Reguengo-Vale Pedra-Pontével
059,934 Virtudes
046,945 Azambuja
046,945 Azambuja
044,458
043,196 Espadanal da Azambuja
040,553 Vila Nova da Rainha
038,237 Carregado-Norte
036,456 Carregado
034,736 Castanheira do Ribatejo
034,234 Castanheira do Ribatejo
P.te Carmona × EN10Tejo
032,860 subestação VFX
030,164 Vila Franca de Xira
Quinta das Torres
pass. aérea
× R. F. F. Reis
pass. aérea
× R. Hq. Taveira
026,014 Alhandra
026,014 Alhandra
pass. aérea
Cimpor
021,810 Alverca
021,810 Alverca
021,165
020,511
× R. Lezírias
017,470 Póvoa
016,928 Sodapóvoa
pass. aérea
× IC2
014,904 Santa Iria
× EN 10IC2
pass. aérea
013,843 Bobadela Norte
Interface da Bobadela
× Canal da Bobadela
11,013 Bobadela
010,438 Bobadela Sul
× ponte particular Galp
pass. aérea
× acesso IC2EN 10
× acesso EN 10IC2
× Rio Trancão
× R. D. J. Morais
009,625 Sacavém
Sacavém-Louças
Linha de Sacavém
Porto de Lisboa
× Av. Inf. D. Henrique (= IC2)
× acesso IC2
× Ponte Vasco da Gama
× Av. Peregrinação
pass. aérea
7,644 Moscavide
× Av. Boa Esperança / R. J. P. Ribeiro
006,800 Olivais
006,480 Oriente
006,480 Oriente
Metro: L.ª Vermelha (Oriente)
× Av. Pádua / Av. Ulisses
× R. Cors. Ilhas
× Av. M. Gomes da Costa
005,300 Cabo Ruivo
003,992 Braço de Prata
003,992 Braço de Prata
× Av. Inf. D. Henrique
× R. V. Formoso Cima
000000 Linha de Cintura
Poço do Bispo(dem.)
× P.º Marialva
× Cç. Dq. Lafões
× Cç. Grilo
001,643 C.ª de Xabregas
Viaduto de Xabregas × Lg. Mq. Nisa
Linha de SacavémPorto de Lisboa
Lisboa-Santa Apolónia (P.M.O.)
Av. Mz.º Albqq.
000000 Linha da Matinha
(pj. abd. 1912)
000,000 Lisboa-Santa Apolónia
Metro: Linha Azul (Santa Apolónia)
Sul e SuesteLinha do Alentejo
(proj. abd.)
Cais do Sodré
Linha de CascaisCascais

Século XIX

Antecedentes

No Século XIX, as vias de comunicação em Portugal revelaram-se muito deficientes, especialmente as rodoviárias; o principal meio de transporte era a navegação, efectuada ao longo da costa, e pelos rios.[4] Assim, durante o governo de António Bernardo da Costa Cabral, iniciaram-se os primeiros esforços para a implementação do transporte ferroviário.[5] Em Agosto de 1844, Benjamim de Oliveira sugere a construção, com capitais britânicos, de um caminho de ferro entre Lisboa e o Porto; no entanto, este projecto foi recusado, porque se pensava que uma ligação ferroviária entre Lisboa e Alcácer do Sal era mais necessária, e seria mais lucrativa.[5] Em Dezembro desse ano, foi formada, por iniciativa de José Bernardo da Costa Cabral, a Companhia das Obras Públicas.[5] Um dos objectivos desta empresa era instalar uma via férrea de Lisboa a Espanha e à rede ferroviária europeia, e de construir um grande cais para navios transatlânticos na capital portuguesa.[5] Este projecto, lançado por iniciativa de D. Luís I, estabelecia que os passageiros seriam transportados de comboio de toda a Europa até Lisboa, onde poderiam embarcar em navios com destino às Américas.[5]

Em 19 de Abril de 1845, o governo português assinou um contrato com a Companhia das Obras Públicas, para a construção e aperfeiçoamento de várias infra-estruturas de comunicação no interior do país, tendo uma das cláusulas feito uma referência explícita à instalação de uma linha férrea entre Lisboa e a fronteira com Espanha.[1] No entanto, os conflitos políticos que se fizeram sentir no ano seguinte impediram a concretização deste projecto.[6] Após a situação política ter estabilizado, o interesse por esta ligação ferroviária voltou a aumentar, tendo um empresário inglês, Hardy Hislop, apresentado uma proposta para este caminho de ferro, que implicava a ligação a Espanha através de Badajoz, passando por Santarém.[6] O governo nomeou, em 18 de Julho de 1851, uma comissão para analisar este projecto, que elaborou, em 20 de Outubro do mesmo ano, as bases para o concurso do troço entre Lisboa e Santarém.[1]

Pavilhão montado na Estação do Carregado, para a cerimónia de inauguração.

Construção do troço até ao Carregado

Este concurso foi aberto pelo então ministro da Fazenda, Fontes Pereira de Melo, entre 6 de Maio e 31 de Julho de 1852, tendo a obra sido atribuída, de forma provisória, à Companhia Central e Peninsular dos Caminhos de Ferro em Portugal, representada por Hardy Hislop, com uma garantia de juro de 6%.[1] Em 30 de Agosto do mesmo ano, foi criado o Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, que veio trazer um grande impulso aos projectos de desenvolvimento nacional, como os transportes ferroviários.[1] Em 9 de Dezembro, Hardy Hislop apresentou ao governo o plano do engenheiro Rumball para o traçado entre Lisboa e Santarém, que partia do Largo do Intendente, com um ramal entre Chelas e Xabregas, para dar ligação ao porto fluvial.[1] Em 3 de Fevereiro de 1853, este projecto foi aprovado, tendo o ponto de partida sido alterado para o Cais dos Soldados.[1] Apesar da oposição do engenheiro White, que previu, desde logo, as dificuldades que iriam surgir mais tarde em expandir a estação, devido à falta de espaço sentida naquele local, o governo insistiu em colocar ali a estação, tendo assinado o contracto definitivo em 11 de Maio, que foi legalizado em 18 de Agosto.[1] As normas a aplicar na fiscalização da construção foram decretadas em 5 de Setembro, e as obras iniciaram-se no dia 17 do mesmo mês, pelos empreiteiros Shaw & Waring, sediados em Londres.[1]

No entanto, em 5 de Setembro de 1855, as obras foram suspensas devido a conflitos entre a Companhia Peninsular e os empreiteiros, tendo o governo tomado conta das obras logo no dia seguinte.[1] Em Janeiro de 1856, chega a Portugal B. Wattier, professor da Escola de Engenharia de Paris[7], com o objectivo de dirigir as obras, função que principia em 7 de Fevereiro, assistido pelos engenheiros Margiochi e Gromicho Couceiro.[1] O trajecto para o Caminho de Ferro do Leste, lavrado pelo engenheiro Joaquim Nunes de Aguiar, e aprovado por Wattier, preconizava a passagem ao sul de Santarém, junto à Ponte da Asseca, relegando a travessia do Rio Tejo para Constância.[8] O traçado após o Entroncamento foi elaborado por Wattier, passando por Coimbra, mas sem chegar ao Porto, porque, naquela altura, ainda não se havia decidido onde colocar a Estação naquela cidade.[8]

Em Maio, são efectuados, por ordem do governo, vários estudos sobre a construção dos troços até Espanha e ao Porto, devendo o caminho de ferro até esta cidade ser construído como um prolongamento da estrada real até Coimbra.[9] Entretanto, o governo português tentou chegar a acordo com os empreiteiros, mas sem sucesso; assim, em 28 de Agosto adiantou a quantia de 460.000$000 a esta companhia, usando como penhor as acções que detinha em carteira.[1] O troço até ao Carregado foi inaugurado em 28 de Outubro de 1856[1], com uma bitola de via de 1,45 metros[1], e aberto à exploração no dia seguinte, para passageiros; os serviços de mercadorias só se iniciaram em 1 de Novembro de 1858.[7] A construção do primeiro troço desta linha, que chegou a empregar 3000 obreiros, trouxe vários problemas financeiros e técnicos, como a transposição do Rio de Sacavém (actual Rio Trancão).[7] Devido à Estação Ferroviária de Santa Apolónia ainda não estar concluída, foi utilizada uma interface provisória junto ao Palácio de Coimbra.[10]

Fotografia antiga da gare de Espinho.

Troço entre o Carregado e Vila Nova de Gaia

Após a ligação até ao Carregado ter sido concluída, e apesar do apoio financeiro do estado, a instabilidade da empresa concessionária gerava vários problemas, sofrendo as obras e os estudos várias interrupções; assim, verificou-se impossível a meta estabelecida no contrato, de chegar até Santarém em Setembro de 1857.[1] O governo rescindiu, assim, o contrato com a Companhia, e centrou-se na construção da ligação até à margem sul do Rio Douro, junto à cidade do Porto.[1] Assim, em Abril de 1857, começou a negociar com o engenheiro e empresário inglês Samuel Morton Peto, que já tinha efectuado vários projectos ferroviários na América do Norte e no Reino Unido.[1] Morton Peto seria o empreiteiro, enquanto que a direcção da Companhia seria assegurada pelo engenheiro João Crisóstomo de Abreu e Sousa, por parte do governo.[1] No dia 14 de Abril, o projecto de construção da futura Linha do Norte foi discutido nas Cortes, tendo-se decidido que a construção da ligação ferroviária ao Porto seria dividida em duas fases; inicialmente, deveria ser concretizada a união entre Lisboa a Santarém e Coimbra, a partir do Carregado, e a segunda fase contemplaria a ligação entre Coimbra e a cidade do Porto, com a construção de uma ponte sobre o Rio Douro.[9]

O contracto definitivo foi assinado em 29 de Agosto, comprometendo-se Morton Peto a criar uma nova companhia, que seria subsidiada pelo estado português em 5500 libras por quilómetro, e que substituiria a Companhia Central e Peninsular dos Caminhos de Ferro em Portugal.[1] Nesse dia, foi publicado um decreto, que ordenou que o troço entre Santarém e o Porto passasse pelas localidades de Atalaia, Tomar, Pombal, Coimbra, Pampilhosa e Avelãs.[11] A estação ferroviária do Porto deveria ser construída na margem Sul do Rio Douro, sendo o acesso à cidade assegurado com a construção de uma ponte.[11] Apesar das várias dificuldades encontradas, as obras foram prosseguindo, tendo o troço até Virtudes sido aberto à exploração no dia 31 de Julho de 1857, até à Ponte de Santana em 28 de Abril de 1858, e à Ponte de Asseca em 29 de Junho.[1]

No entanto, continuaram os problemas de construção, tendo Morton Peto chegado a considerar construir, por sua própria conta e em 3 anos, os troços entre Pombal e Vila Nova de Gaia e a ligação até Tomar, deixando apenas por construir o troço entre Tomar e Pombal, que seria assegurado pela sua companhia, quando estivesse formada.[1] Apesar do prazo para a criação desta companhia ter sido, segundo uma portaria de 13 de Abril, alargado até 31 de Maio de 1859, todos os seus esforços revelaram-se infrutíferos, tendo o contrato sido anulado em 6 de Junho.[1]

Assim, o governo contratou de forma provisória, em 30 de Julho, o empresário espanhol José de Salamanca y Mayol, que tal como Morton Peto, já tinha concluído vários projectos ferroviários no estrangeiro.[1] Este contrato estabelecia a concessão de um subsídio quilométrico de 4.500 libras para a construção do Caminho de Ferro do Leste, e de 5.400 libras para o do Norte.[1] No mesmo dia, abriu-se um concurso para estes projectos, que foi encerrado em 12 de Setembro; neste dia, foi assinado o contrato definitivo com José de Salamanca, que foi o único participante deste concurso.[1] Este formou a Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses tendo como objectivo construir e explorar as Linhas do Leste e Norte.[1] A 14 de Setembro de 1859, foi redigido um novo contrato, que estabeleceu que a ligação ferroviária ao Porto deveria partir da Ponte da Pedra ou de outro ponto próximo da Linha do Leste, e terminar dentro da cidade do Porto; a construção deste troço, oficialmente denominado como Linha do Norte, não deveria ter uma duração superior a 5 anos.[11] No dia 10 de Novembro de 1860, o governo aprovou a escritura pública, e o trespasse da concessão para José de Salamanca e a Companhia Real[12], mas devido a alterações no contrato assinado em 14 de Setembro, foi lavrado um novo contrato em 20 de Dezembro de 1860.[10] Este documento estabelecia que o troço já construído, entre Lisboa e Ponte da Asseca, deveria ser adquirido pela Companhia, e a bitola alterada de 1,45 para 1,67 metros.[13] O empreiteiro que, até esta data, tinha sido responsável pela exploração neste troço, reclamou deste acto, mas sem sucesso.[13]

Após um largo período de estagnação, a formação desta Companhia trouxe um novo impulso aos projectos ferroviários, tendo sido edificada a Estação Ferroviária de Lisboa-Santa Apolónia, alargada a bitola no troço já concluído, e retomados os trabalhos de construção da linha.[1] Assim, o Caminho de Ferro do Leste chegou até Santarém em 1 de Julho de 1861, Abrantes em 7 de Novembro de 1862, e a fronteira com Espanha em 24 de Setembro de 1863.[1] Na Linha do Norte, as obras avançaram em duas frentes; a primeira seguiu de Vila Nova de Gaia para Sul, tendo o lanço até Estarreja entrado ao serviço provisoriamente em 19 de Novembro de 1862, e de forma definitiva em 8 de Junho de 1863, e a linha atingido Taveiro em 10 de Abril de 1864.[2] A segunda frente, a partir do Entroncamento para Norte, chegou a Soure em 22 de Maio do mesmo ano, e a Taveiro em 7 de Julho, completando a ligação de Lisboa a Gaia; assim, para concluir a Linha do Norte, só faltava a quinta secção, que respeitava à passagem do Rio Douro.[1] Os lucros de exploração nesta linha revelaram-se inicialmente abaixo do esperado, com a maior parte do tráfego efectuado no regime de pequena velocidade[14]; uma das principais razões para este resultado foi a falta de ligações rodoviárias até às estações, que só foram totalmente construídas em 1872.[15]

Ponte D. Maria Pia, quando foi inaugurada, em 1877.

Travessia do Rio Douro

No dia 25 de Junho de 1865, a Companhia Real assumiu a exploração, que até aí se encontrava no poder de José de Salamanca.[1] Num acordo, feito em em 27 de Novembro, foi sugerida a localização da futura Estação do Porto junto ao Mosteiro de São Bento de Avé-Maria; no entanto, a lei que autorizou este acordo, em 2 de Março de 1866, ordenou que fosse construída no Campo do Cirne, nas proximidades do Prado do Repouso.[1] Simultaneamente, formou-se uma terceira corrente de opinião, defendendo a Variante do Seminário, que a atravessava o Rio mais a montante.[1] De acordo com a lei assinada em 1866, a Companhia Real estudou a implantação de uma estação de mercadorias na margem esquerda, e o atravessamento do Rio Douro, tendo este projecto sido aprovado em 1869; no entanto, as já inseguras condições da Companhia ficaram ainda mais deterioradas por uma crise económica em 1868, e as relações com José de Salamanca eram cada vez mais tensas, atingindo o seu auge em 1872, quando este se recusou a construir a última secção da Linha do Norte, tendo a Companhia sido intimada pelo Estado, segundo a lei de 1866.[1]

Um novo director foi então nomeado para a Companhia Real, o engenheiro Manuel Afonso de Espregueira, com o propósito de concluir a construção desta secção da Linha do Norte.[1] Para tal, apresentou um projecto elaborado pelo chefe de construção, o engenheiro Pedro Inácio Lopes, que propunha a construção de uma ponte entre a Serra do Pilar e o Monte do Seminário, permitindo um traçado mais adequado para ser ligado às Linhas do Minho e Douro.[1] O governo aceitou este plano, e submeteu-o às Cortes em 5 de Fevereiro de 1873, tendo sido aprovado no dia 18 do mesmo mês; no entanto, só em 26 de Fevereiro de 1875[1] é que foi legalizado, após várias alterações, tendo o contrato sido elaborado em 6 de Março do mesmo ano.[1] Devido à aprovação deste plano, parte das obras do projecto anterior, que já se tinham iniciado, foram abandonadas, tendo ainda sido abertos cerca de 3000 metros de via, entre Gaia e Gervide, e um túnel na Serra do Pilar, com 450 metros de comprimento.[1] Entretanto, desde 5 de Janeiro de 1875 que se tinham iniciado a preparação para as obras da ponte, que tinham sido entregues, por concurso, a Gustave Eiffel; a montagem da ponte terminou no dia 28 de Outubro de 1877, tendo a inauguração tido lugar em 5 de Novembro do mesmo ano.[1]

Com a conclusão da Linha do Norte, a Estação de Campanhã, que já era o terminal da Linha do Minho, tornou-se comum às duas linhas, aumentando consideravelmente o seu movimento de passageiros e mercadorias.[16]

Horário dos Sud Express, em 1888.

Décadas de 1880 e 1890

Em 1 de Julho de 1882, foi inaugurada a Linha da Beira Alta, que inicialmente se compreendia entre a Figueira da Foz até à estação fronteiriça de Vilar Formoso.[2] Nesse ano, começaram a circular comboios rápidos de passageiros entre Lisboa e Madrid, e em 4 de Novembro de 1887 iniciou-se o serviço Sud Express, entre Lisboa e Calais, em França.[17]

Em 18 de Outubro de 1885, foi inaugurado o Ramal de Coimbra, que se iniciava em Coimbra B e terminava na estação central daquela cidade.[2] Em 1888, entrou ao serviço o Ramal de Alfarelos, que unia a Linha do Oeste à estação de Alfarelos, na Linha do Norte[18], e em 11 de Novembro desse ano o Ramal da Alfândega, entre a Alfândega do Porto e a estação de Campanhã.[17]

Em 15 de Abril de 1890, foi duplicado o lanço de Olivais ao Carregado, tendo a via dupla atingido Azambuja em 16 de Março de 1891 e Santana em 19 de Maio de 1891.[2] O lanço entre Olivais e Poço do Bispo só foi duplicado em 6 de Junho de 1892, enquanto que o lanço de Torres Novas ao Entroncamento foi passado para via dupla em 8 de Abril de 1893, de Mato de Miranda a Santarém em 6 de Maio do mesmo ano, e de Mato Miranda a Torres Novas em 7 de Maio.[2] Em 8 de Novembro de 1896 entrou ao serviço a Linha Urbana do Porto, unindo Campanhã à Estação de São Bento.[2]

Entretanto, em 5 de Setembro de 1891 entrou ao serviço a Linha de Cintura de Lisboa, unindo a estação de Braço de Prata, na Linha do Norte, a Campolide, na Linha do Oeste.[2]

Ligação projectada à Linha de Cascais

Em 1870, o engenheiro M. A. Thomé de Gamond propôs a instalação de um grande porto marítimo em Lisboa, e uma ligação ferroviária entre a cidade e Colares, passando por Cascais e Sintra.[19] Este projecto defendia que o caminho de ferro deveria sair da Linha do Norte no Embarcadouro de Leste, junto ao Novo Porto, continuar até à Praça do Comércio, onde seria edificada uma estação, e continuar até Sintra, com várias estações no caminho.[19] Este projecto foi retomado com o Plano Geral das Obras, publicando em 1874, e uma comissão para o seu estudo foi formada em 16 de Março de 1883.[19] Em 1888, o engenheiro Pedro Inácio Lopes defendeu junto da Associação dos Engenheiros Civis a construção de uma ligação ferroviária, de características urbanas, entre a Estação de Lisboa-Santa Apolónia e Alcântara, onde se iria ligar à Linha de Cascais, que já se encontrava em construção entre Alcântara e Cascais.[19] No entanto, este projecto não foi construído, devido a problemas técnicos na passagem do Dique do Arsenal, e receios que a linha tivesse efeitos negativos na estética da Praça do Comércio.[19]

Comboio inaugural da Linha do Vouga, em Espinho.

Século XX

Décadas de 1900 a 1930

Em Janeiro de 1902, todo o traçado estava equipado com carris de 40 Kg/m, excepto no lanço entre Pampilhosa e o Porto.[20] No mês seguinte, chegou uma remessa de carris da casa Ougrée-Marihaye, para renovar as vias neste troço, e continuar a construção de uma segunda via entre Vila Nova de Gaia e Espinho.[21] Antes da renovação, os carris utilizados apresentavam cerca de 30 Kg de peso.[22] Em 1 de Abril, a Gazeta dos Caminhos de Ferro noticiou que a Câmara de Espinho tinha questionado o governo sobre um terreno público necessário para a duplicação da via férrea, tendo a Companhia Real assegurado que iria respeitar os direitos da autarquia, mas que não iria permitir quaisquer interrupções nas obras, de forma a que a via dupla estivesse pronta antes de se iniciar o horário de Verão.[23] Nessa altura, os trabalhos da duplicação estavam a decorrer com grande actividade, prevendo-se que estariam concluídos antes do final do mês de Abril.[23] Em 1 de Março, a Gazeta reportou que estava prevista a instalação de um apeadeiro entre Cacia e Estarreja, para servir a localidade de Canelas, no Concelho de Estarreja.[24] Em 20 de Junho, foram publicadas novas tarifas da Companhia Real para os comboios tramways das estações de São Bento e Campanhã até Aveiro, devido à entrada ao serviço do novo apeadeiro.[25]

A via dupla foi inaugurada de Vila Nova de Gaia até Granja em 19 de Maio de 1902, Espinho em 1 de Setembro de 1902, Esmoriz em 20 de Outubro de 1906, Ovar em 25 de Outubro, Estarreja em 27 de Outubro, Aveiro em 17 de Maio de 1907.[2] O lanço de Coimbra B a Alfarelos foi duplicado em 26 de Outubro de 1908, de Pombal a Albergaria em 13 de Maio de 1910, e de Alfarelos a Pombal em 14 de Outubro de 1911.[2]

Entretanto, em 15 de Janeiro de 1904, foi inaugurada a Linha de Vendas Novas, que ligava Vendas Novas, na Linha do Alentejo, ao Setil, na Linha do Norte.[2] Em 21 de Dezembro de 1908, entrou ao serviço o primeiro lanço da Linha do Vouga, de Espinho a Oliveira de Azeméis, enquanto que o Ramal de Aveiro, que ligava a Linha do Vouga à estação de Aveiro, abriu à exploração em 8 de Setembro de 1911.[2]

A Gazeta de 1 de Dezembro de 1913 noticiou que estavam quase concluídas as terraplanagens para a duplicação do lanço entre Coimbra B e Mogofores e estavam a ser adaptadas as pontes de Souselas, prevendo-se que brevemente se iria iniciar o assentamento de via, de forma a que a segunda via entrasse ao serviço com o próximo horário de Verão.[26] No entanto, o lanço da Pampilhosa à Mealhada só foi duplicado em 11 de Dezembro de 1915, da Mealhada a Mogofores em 8 de Julho de 1915, e de Coimbra-B à Pampilhosa em 30 de Abril de 1925.[1]

A via foi duplicada de Paialvo ao Entroncamento em 15 de Junho de 1927, Entroncamento a Chão de Maçãs em 5 de Julho do mesmo ano, Oliveira do Bairro a Mogofores em 14 de Maio de 1929, e de Aveiro a Oliveira do Bairro em 30 de Maio de 1930.[2][1]

Entretanto, em 24 de Setembro de 1928 foi inaugurado o Ramal de Tomar, que ligava aquela cidade à Estação de Lamarosa, na Linha do Norte.[2]

Em 1932, a Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses ampliou várias estações, e renovou um lanço de 22 Km da Linha do Norte, utilizando carris de 45 Kg.[27] Em 1934, foram remodelados outros 22 Km de via, e também foram feitas obras de ampliação em várias estações, especialmente através da instalação de sistemas eléctricos e da construção de habitações, escolas e postos de saúde, destacando-se o bairro para o pessoal em Vila Nova de Gaia e o dispensário anti-tuberculoso no Entroncamento.[28]

Locomotiva em manobras em S. Apolónia, em 1956.

Décadas de 1950 e 1960

Em 6 de Abril de 1955, foi assinado um contrato entre a CP e o consórcio Groupement d'Étude et d'Électrification de Chemin de Fer en Monophasé 50 Hz, para electrificar o troço entre Lisboa e o Carregado, junto com a Linha de Sintra.[29] Este projecto foi oficialmente inaugurado em 28 de Abril de 1957, no âmbito das comemorações dos 100 anos do transporte ferroviário em Portugal.[30] A electrificação chegou ao Entroncamento em Junho de 1958, a Pombal em Setembro de 1963, a Coimbra em Outubro do mesmo ano, à Pampilhosa em Março de 1964, a Quintans em Junho do mesmo ano, a Esmoriz em Novembro, e a Vila Nova de Gaia em Julho de 1965.[31] Nos finais desse ano, previa-se a conclusão da electrificação da Linha do Norte para 1966[31], o que se verificou.[3]

No entanto, considerou-se que o projecto de electrificação não fora bem planeado, sido demasiado precipitado, uma vez que não se aproveitou para corrigir os traçados nem modernizar a linha antes da electrificação.[32] Desta forma, qualquer alteração no traçado ficaria muito mais onerosa e complicada, devido à presença das infra-estruturas eléctricas, condenando a Linha do Norte a um traçado planeado há cerca de um século atrás; por outro lado, quando foram levadas a cabo as indispensáveis operações de renovação e modernização da linha, as obras foram muito mais lentas, tendo-se assistido à coexistência de infra-estruturas novas e antigas, como via, sinalização, e comunicações.[32] Esta situação ainda veio exacerbar as já reduzidas condições de segurança, com as obras baseadas principalmente em trabalho manual, e provocou vários conflitos de sinalização, resultando em vários acidentes, quase sempre apontados como falha humana.[32] Estes factores geraram fortes perturbações na circulação ferroviária, alienando os passageiros mais exigentes.[32]

Estação do Entroncamento em 1990.

Nova ponte sobre o Douro

Ver artigo principal: Ponte de São João

Já desde meados do Século XX que se reconhecia que o facto da Ponte D. Maria Pia ser a única ligação entre as redes ferroviárias a Norte e Sul do Rio Douro gerava grandes problemas de tráfego, situação agravada por transportar uma só via férrea.[33] Com efeito, como reconheceu a Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses num comunicado publicado no Diário Popular de 21 de Maio de 1966, só quando fosse eliminado aquele estrangulamento de tráfego, através da duplicação do lanço entre General Torres e Campanhã, é que se poderia providenciar um serviço ferroviário adequado às necessidades das regiões a Norte do Douro.[33] Desta forma, a empresa encomendou ao engenheiro Edgar Cardoso, que já tinha projectado a Ponte da Arrábida, o anteprojecto para uma nova ponte ferroviária, tendo-se nessa altura já iniciado os estudos.[33] No entanto, a companhia admitiu que estava com problemas em obter os recursos financeiros necessários para esta obra, uma vez que não tinha sido prevista no plano intercalar de fomento.[33]

O Decreto-Lei n.º 307, de 1981, criou o Gabinete da Ponte Ferroviária Sobre o Rio Douro, entidade que foi expandida no Gabinete do Nó Ferroviário do Porto pelo Decreto-Lei n.º 347, de 1986.[34] Este novo gabinete tinha como objectivo não só construir a nova ponte, mas também desenvolver a rede férrea nos arredores da cidade do Porto, incluindo a remodelação da Linha do Norte até Aveiro.[34]

A Ponte de São João entrou ao serviço em 24 de Junho de 1991, tendo a Ponte de D. Maria Pia tendo sido encerrada no mesmo dia.[35]

Em 1993, o recorde de velocidade ferroviária em Portugal foi atingido por um comboio entre Espinho e Avanca.[36] Este comboio era formado pela locomotiva número 5601 e 3 carruagens Corail, uma das quais adaptada para um laboratório, tendo atingido uma velocidade de 220 km/h.[36] Devido ao facto de a velocidade máxima neste lanço ser de apenas 140 km/h, tiveram de ser feitas várias obras na via e na catenária, de modo a se se proceder ao teste.[36]

Em 1998, foi inaugurada a Gare do Oriente, em Lisboa.[37]

Nova estação de Espinho, em 2009.

Século XXI

Na Década de 2000, iniciou-se um projecto para enterrar a modificar o traçado da Linha do Norte dentro da cidade de Espinho, de forma a que a via férrea passasse a circular no interior de um túnel em vez de atravessar a cidade pela superfície.[38] A circulação dos comboios passou a ser feita pelo túnel em Maio de 2008,[38] tendo a ligação com a Linha do Vouga sido eliminada, com o assim reduzido terminal desta linha a 500 m da estação de Espinho.[39][40]

Acidentes e incidentes

A Gazeta dos Caminhos de Ferro de 1 de Agosto de 1902 relatou que um comboio teve de parar na Linha do Norte depois de ter colidido contra várias travessas, que tinham sido postas na via com o intuito de o fazer descarrilar.[41] Segundo a Gazeta, a Linha do Norte tinha sido uma das que em Portugal tinham sido mais vezes alvo de sabotagem.[41]

Em Janeiro de 1914, ocorreu um grande movimento de greve dos trabalhadores da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses, que por várias vezes sabotaram a via férrea, provocando alguns descarrilamentos.[42]

Em Dezembro de 2000, a circulação ferroviária na Linha do Norte foi por várias vezes interrompida, devido a uma vaga de mau tempo na Europa.[43] No dia 8 de Dezembro, a subida das águas do Rio Mondego provocou inundações em Formoselha, o que levou à suspensão do tráfego naquele lanço, tendo sido atingidos vários comboios suburbanos e regionais e um Alfa Pendular, cujos passageiros tiveram de fazer o resto da viagem até Lisboa de autocarro.[44]

Em Janeiro de 2011, chuvas fortes e falta de protecções junto à via férrea provocaram dois deslizamentos de terras junto ao Apeadeiro de Coimbrões, no concelho de Vila Nova de Gaia, que condicionaram a circulação ferroviária em ambas as direcções, durante várias horas.[45]

Referências literárias

Cá tomo em Santa Apolónia um bilhete para me transportar á Azambuja, ao sol e á poeira de um estupido compartimento de primeira classe, almofadado em lã como um aparelho sudorifero, emquanto a dois passos de distancia reluz aos meus olhos a bella facha aquática do Tejo, em que deslisam, reflectindo-se como n’um espelho, as velas enfunadas e vermelhas das falúas.
Ó meu tão pittoresco e vetusto vaporzinho de Vila Nova! com que saudades me lembro da extincta navegação em que tu nos levavas á velha estrada das Caldas! E com que sincero ardôr amaldiçôo os que tão accintosamente te immolaram á pedantesca rhetorica administrativa, á sordida metaphora do silvo da locomotiva rasgando as entranhas do progresso!

Ver também

Referências

  1. TORRES, Carlos Manitto (1 de Janeiro de 1958). «A evolução das linhas portuguesas e o seu significado ferroviário» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 70 (1681). p. 9-12. Consultado em 15 de Janeiro de 2014
  2. «Troços de linhas férreas portuguesas abertas à exploração desde 1856, e a sua extensão» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 69 (1652). 16 de Outubro de 1956. p. 528-530. Consultado em 19 de Setembro de 2017
  3. REIS et al, 2006:102
  4. MARTINS et al, 1996:8
  5. MARTINS et al, 1996:11
  6. REIS et al, 2006:12
  7. VIEGAS, 1988:61
  8. MARTINS et al, 1996:16
  9. VIEGAS, 1988:59
  10. MARTINS et al, 1996:15
  11. VIEGAS, 1988:60
  12. MARTINS et al, 1996:17
  13. MARTINS et al, 1996:18
  14. MARTINS et al, 1996:19
  15. MARTINS et al, 1996:20
  16. SOUSA, José Fernando de (16 de Julho de 1902). «As estações do Minho e Douro no Porto» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 15 (350). p. 209-211. Consultado em 21 de Setembro de 2017
  17. MARTINS et al, 1996:249
  18. RODRIGUES et al, 1993:384
  19. MARTINS et al, 1996:29
  20. «Linhas Portuguezas» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 15 (338). 16 de Janeiro de 1902. p. 26. Consultado em 15 de Janeiro de 2014
  21. «Linhas Portuguezas» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 15 (339). 1 de Fevereiro de 1902. p. 42. Consultado em 15 de Janeiro de 2014
  22. «Orçamento da Companhia Real» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 15 (340). 16 de Fevereiro de 1902. p. 51. Consultado em 15 de Janeiro de 2014
  23. «Linhas Portuguezas» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 15 (343). 1 de Abril de 1902. p. 107. Consultado em 17 de Setembro de 2017
  24. «Linhas Portuguezas» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 15 (341). 1 de Março de 1902. p. 75. Consultado em 17 de Setembro de 2017
  25. «Tarifas de Transporte» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 15 (349). 1 de Julho de 1902. p. 197. Consultado em 17 de Setembro de 2017
  26. «Há 50 anos» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 76 (1823). 1 de Dezembro de 1963. p. 346. Consultado em 17 de Setembro de 2017
  27. «O que se fez nos Caminhos de Ferro em Portugal no Ano de 1932» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 46 (1081). 1 de Janeiro de 1933. p. 10-14. Consultado em 17 de Setembro de 2017
  28. «O que se fez nos Caminhos de Ferro Portugueses, durante o ano de 1934» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 47 (1130). 16 de Janeiro de 1935. p. 50-51. Consultado em 17 de Setembro de 2017
  29. REIS et al, 2006:117
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  38. «Em cima da via-férrea de Espinho, surgirá uma pala e o chão lembrará uma rede de pesca». Consultado em 31 de Outubro de 2016
  39. «Anexo 15 - Restrições em Estações e Margens Suplementares». Rede Ferroviária Nacional. Directório da Rede Ferroviária Portuguesa 2005. 73 páginas. 13 de Outubro de 2004
  40. NEVES, Nuno (22 de Dezembro de 2005). «Espinho: Enterramento causa transtornos». Jornalismo Porto Net. Consultado em 26 de Abril de 2015. Arquivado do original em 24 de julho de 2013
  41. «Selvagerias» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 15 (351). Lisboa. 1 de Agosto de 1902. p. 229. Consultado em 21 de Setembro de 2017
  42. MARQUES, 2014:117-126
  43. LOPES, Maria (8 de Dezembro de 2000). «Chuva, vento e muitos sustos». Público. 11 (3918). Lisboa: Público, Comunicação Social, S. A. p. 20-21
  44. BOTELHO, Leonete; FONSECA, Francisco; SOARES, Andreia (9 de Dezembro de 2000). «Dois milhões às escuras». Público. 11 (3919). Lisboa: Público, Comunicação Social, S. A. p. 21
  45. FERNANDES, Sandra (9 de Janeiro de 2011). «Linha do Norte cortada, acidentes, cheias e tornado». Jornal de Notícias. 123 (222). Controlinveste Media SGPS, S. A. p. 14. ISSN 0874-1352 ID 0874-1352 Verifique |issn= (ajuda)

Bibliografia

  • TAVARES, João; ESTEVES, Joaquim (2000). 100 Obras de Arquitectura Civil no Século XX: Portugal 2.ª ed. Lisboa: Ordem dos Engenheiros. 286 páginas. ISBN 972-97231-7-6
  • REIS, Francisco; GOMES, Rosa; GOMES, Gilberto; et al. (2006). Os Caminhos de Ferro Portugueses 1856-2006. Lisboa: CP-Comboios de Portugal e Público-Comunicação Social S. A. 238 páginas. ISBN 989-619-078-X
  • RODRIGUES, Luís; TAVARES, Mário; SERRA, João (1993). Terra de Águas. Caldas da Rainha História e Cultura 1.ª ed. Caldas da Rainha: Câmara Municipal de Caldas da Rainha. 527 páginas
  • MARTINS, João; BRION, Madalena; SOUSA, Miguel; et al. (1996). O Caminho de Ferro Revisitado: O Caminho de Ferro em Portugal de 1856 a 1996. Lisboa: Caminhos de Ferro Portugueses. 446 páginas
  • VIEGAS, Francisco (1988). Comboios Portugueses: Um Guia Sentimental. Lisboa: Círculo de Editores. 185 páginas

Leitura recomendada

  • CERVEIRA, Augusto; CASTRO, Francisco Almeida e (2006). Material e tracção: os caminhos de ferro portugueses nos anos 1940-70. Col: Para a História do Caminho de Ferro em Portugal. 5. Lisboa: CP-Comboios de Portugal. 270 páginas. ISBN 989-95182-0-4
  • QUEIRÓS, Amílcar (1976). Os Primeiros Caminhos de Ferro de Portugal: As Linhas Férreas do Leste e do Norte. Coimbra: Coimbra Editora. 45 páginas
  • SALGUEIRO, Ângela (2008). A Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses: 1859-1891. Lisboa: Univ. Nova de Lisboa. 145 páginas
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