Ramal da Figueira da Foz

O Ramal da Figueira da Foz, igualmente conhecido como Ramal de Pampilhosa, e originalmente como Linha da Beira Alta (em conjunto com o troço de Pampilhosa a Vilar Formoso), é uma ligação ferroviária desactivada, situada no centro-oeste de Portugal. Ligava a estação de Figueira da Foz (que é também término da Linha do Oeste) à estação de Pampilhosa, na intersecção da Linha do Norte com a Linha da Beira Alta, numa distância total de 50,4 quilómetros.

Ramal da Figueira da Foz
Apeadeiro de Costeira (PK 11,5), em 2007.
Apeadeiro de Costeira (PK 11,5), em 2007.
Comprimento:50,4 km
Bitola:Bitola larga
Legenda
00000 L.ª Norte
00000 L.ª Norte Porto-Camp.
00000 L.ª Beira Alta
50,426 Pampilhosa
00000 L.ª Norte
00000 L.ª Norte Lisboa-S.A.
× R. Fialho Alm.
× arr. part. Valouro
48,870 R. Pampilhosa-Valouro
00000 Pampilhosa-Valouro
× EN1/IC1
46,481 Mala
44,633 Silvã-Feiteira(ant. Silvã)
44,000 CNTMLD
× A1
× R. do Padrão
42,790 Enxofães
41,367 Murtede
39,851 Cordinhã
× EN324
35,429 Cantanhede
× EN335
31,034 Limede-Cadima
29,272 Casal
MMVCNT
26,707 Arazede
23,733 Bebedouro
19,583 Liceia
FIGMMV
× Vala do Arco Grande
× Vala do Arco Grande
× EN1055
15,835 Santana-Ferreira
11,595 Costeira(ant. Alhadas)
08,474 Alhadas(ant. Alhadas-Brenha)
Túnel de Alhadas 519 m
06,900 Carvalhal(dem.)
06,454 Maiorca(ant. Carvalhal)
× A17
× A14
00000 L.ª Oeste
× IC1 / Ponte Edgar Cardoso
00,000 Figueira da Foz
Comboios em Coimbra
(Serviços ferroviários pesados suburbanos e
regionais de passageiros, na região de Coimbra)

em operação • extinto em 2010
ext. anunc. 2020 • extinto em 2009


 
 
(ã) Lobazes 
 Moinhos (ã)
(ã) Miranda do Corvo 
 Trémoa (ã)
(ã) Padrão 
 Vale de Açor (ã)
(ã) Meiral 
 Ceira (ã)
(ã) Lousã-A 
 Conraria (ã)
(ã) Lousã 
 Carvalhosas (ã)
(ã) Prilhão-Casais 
 S. José (Calhabé) (ã)
(ã) Serpins 
 Coimbra-Parque (ã)
(ã) Coimbra 
 
 
 
(ã)(n) Coimbra-B 
 
(n) Souselas 
 
(f)(n) Pampilhosa 
 Bencanta (n)
(f) Mala 
 Espadaneira (n)
(f) Silvã-Feiteira 
 Casais (n)
(f) Enxofães 
 Taveiro (n)
(f) Murtede 
 V. Pouca Campo (n)
(f) Cordinhã 
 Ameal (n)
(f) Cantanhede 
 Pereira (n)
(f) Limede-Cadima 
 Formoselha
(f) Casal 
 Alfarelos (a)(n)
(f) Arazede 
 Montemor (a)
(f) Bebedouro 
 Marujal (a)
(f) Liceia 
 Verride (a)
(f) Santana-Ferreira 
 Reveles (a)
(f) Costeira 
 Bif. de Lares (a)(o)
(f) Alhadas 
 Lares (o)
(f) Carvalhal 
 Fontela (o)
(f) Maiorca 
 Fontela-A (o)
 
 Figueira da Foz (f)(o)

Linhas: a R. Alfarelosf R. Figueira da Foz
ã R. Lousãn L.ª Norteo L.ª Oeste
Fonte principal: Diagrama oficial (2001)

Construída pela Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses da Beira Alta, esta linha foi inaugurada em 3 de Agosto de 1882[1][2] e foi explorada por aquela companhia até 1947, ano em que a exploração foi transferida para a CP. Em 1992, este troço ferroviário foi destacado da Linha da Beira Alta e renomeado como Ramal da Figueira da Foz.[3]

O tráfego no Ramal da Figueira da Foz foi suspenso em 5 de Janeiro de 2009, por motivos de segurança[4][5][6][7] e para a realização de obras de modernização.[8][9][10][11] No entanto, não foram concluídas quaisquer obras,[12][11][13] tendo o serviço rodoviário de substituição sido encerrado em 1 de Janeiro de 2012[14] e a remoção física da via sido iniciada em 2013.[15]

Caracterização

Apeadeiro de Alhadas-Brenha.

Percurso

Este ramal apresenta cerca de 50 quilómetros de extensão, unindo a cidade de Figueira da Foz à Pampilhosa[4], onde se ligava às Linhas da Beira Alta e do Norte.[16][17] Passa pelos concelhos de Mealhada, Cantanhede, Montemor-o-Velho, e Figueira da Foz.[16]

Obras de arte

O Ramal apresenta várias obras de arte, como o Túnel de Alhadas.[16]

Material circulante

Um dos tipos de automotora a cumprir serviço neste ramal foi a Série 0300 dos Caminhos de Ferro Portugueses.[18]

História

Planeamento, construção e inauguração

Ver artigo principal: Linha da Beira Alta

Em 3 de Agosto de 1878, foi assinado um contrato entre o Governo Português e a Société Financière de Paris, para a construção e exploração de uma ligação ferroviária entre Pampilhosa e Vilar Formoso; para este fim, foi formada a Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses da Beira Alta.[2]

Já nesta altura, se ponderava continuar a Linha da Beira Alta da Pampilhosa até à cidade de Figueira da Foz, de forma a poder escoar os produtos daquela linha através do seu porto marítimo; no entanto, este projecto entrava em conflito com as pretensões da Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses, que também estava a planear uma ligação à Figueira da Foz, como tinha sido estipulado num contrato de 14 de Setembro de 1859.[2]

Mesmo assim, foi aberto o concurso para o troço entre a Pampilhosa e a Figueira da Foz, tendo a Companhia da Beira Alta requerido apenas metade do subsídio governamental que tinha sido oferecido à Companhia Real, e, em 30 de Agosto de 1879, prescindiu totalmente dos apoios estatais.[2] A Junta Consultiva das Obras Públicas autorizou, assim, este projecto, tendo o contrato provisório sido assinado no dia 31 de Outubro; este documento foi apresentado às cortes em 19 de Janeiro de 1880 e imediatamente aprovado, tendo sido promulgado por uma lei de 31 de Março.[2] As obras deste ramal iniciaram-se oficialmente em 10 de Agosto desse ano.[1] A Companhia Real ainda apresentou uma reclamação, que foi indeferida pelo Tribunal Arbitral em 7 de Outubro do mesmo ano.[2]

O primeiro troço da Linha da Beira Alta, entre a Pampilhosa e Vilar Formoso, foi aberto à exploração, de forma provisória, em 1 de Julho de 1882; a ligação entre a Figueira da Foz e a Pampilhosa foi inaugurada oficialmente, junto com o troço já aberto, no dia 3 de Agosto do mesmo ano, sendo, assim, considerada completa a Linha da Beira Alta.[1][2] A cerimónia contou com a presença do rei D. Luís.[19]

Este ramal melhorou consideravelmente as relações da Figueira da Foz com as Beiras e Espanha, tendo contribuído decisivamente para o aumento das actividades turísticas na época balnear[20]; facilitou, igualmente, o transporte de mercadorias de e até à Figueira da Foz, que até aí era realizado principalmente pelo Ramal de Alfarelos.[17] Com efeito, possibilitou uma maior penetração dos produtos daquela cidade, nomeadamente o sal, carvão, cal e peixe, em todo o país, especialmente nas Beiras, e em Espanha.[17] No entanto, entrou em concorrência com a cabotagem costeira[17], tendo contribuído para o declínio da actividade marítima.[21]

Transição para a Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses

Em 2 de Maio de 1930, foi assinado um contrato de trespasse, que estipulava a transição da exploração e do material circulante da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses da Beira Alta para a Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses; no entanto, só em 28 de Fevereiro de 1946 é foi executada a escritura, para a transferência da exploração.[22]

Século XXI

Em 2007, esta ligação foi alvo de vários investimentos, nomeadamente num parque industrial junto à Pampilhosa, na supressão de passagens de nível, na Estação de Cantanhede, e no rebaixamento do Túnel de Alhadas.[16]

Em 5 de Janeiro de 2009, o ramal foi totalmente encerrado ao tráfego ferroviário pela Rede Ferroviária Nacional por «motivos de segurança»,[4][5][6][7] devido à antiguidade dos carris utilizados na maior parte do percurso.[16] Em substituição dos serviços ferroviários, iniciaram-se várias carreiras de autocarros; estes apresentavam uns horários mais apropriados às necessidades das populações dos que os comboios, cujos horários, no final, já não se adequavam à procura.[5] Previa-se que o investimento necessário para a remodelação do ramal seria de cerca de 35 milhões de Euros.[7] Ainda em inícios de 2010, autarcas da região exigiam já garantias que as obras e a reabertura teriam efetivamente lugar.[23]

Iniciaram-se, assim, as obras de modernização, prevendo-se, em 2009, a reabertura para 2011; no entanto, os trabalhos foram suspensos[16], pelo que, em Janeiro de 2011, o Bloco de Esquerda questionou o Governo sobre os prazos de execução da obra.[4]

Em Maio, um grupo de trabalho da Assembleia Municipal de Mealhada organizou um debate público, para promover a modernização e reabertura deste ramal, defendendo que traria um maior desenvolvimento económico à região, e beneficiaria as populações; por outro lado, o comboio também era utilizado para o acesso às praias, o que prejudicou o movimento durante a época balnear.[16] Em termos de movimento de mercadorias, argumentou-se que este eixo facilitaria o transporte de carga do Porto de Figueira da Foz para a Europa e o resto do país, seria essencial à então projectada plataforma logística rodo-ferroviária na Pampilhosa, uma vez que permitia o acesso ao porto[16][5], e beneficiaria a zona industrial de Cantanhede.[7]

A requalificação e reabertura deste ramal também foi discutida em Setembro, numa reunião em Mira, que envolveu representantes do Partido Socialista, Partido Nacional Renovador, Partido Comunista Português, Bloco de Esquerda, e do PCTP/MRPP.[7] O Partido Nacional Renovador realizou, em 2011, uma campanha de sensibilização nas localidades anteriormente servidas por este caminho de ferro.[6]

Em Dezembro do mesmo ano, a operadora Comboios de Portugal anunciou que, devido à suspensão do processo de reabertura desta ligação, iria terminar os serviços alternativos, por via rodoviária, a partir do dia 1 de Janeiro de 2012.[14] Em março de 2012 a quase totalidade do ramal («entre a Estação da Figueira da Foz e o km 48,470») foi removida formalmente, pela entidade reguladora, da rede em exploração.[24]

Em Março de 2013, a Rede Ferroviária Nacional começou a levantar os carris e as travessas da via neste ramal, argumentando que esta era a melhor forma de proteger os seus activos, face às várias tentativas de roubo que foram feitas.[15]

Ver também

Referências

  1. ARROTEIA, p. 100
  2. TORRES, Carlos Manitto (16 de Março de 1958). «A evolução das linhas portuguesas e o seu significado ferroviário» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 71 (1686). p. 133-140. Consultado em 6 de Abril de 2017
  3. PORTUGAL, Decreto-Lei nº 116/92, de 20 de Junho de 1992. Altera os Estatutos dos Caminhos de Ferro Portugueses, E. P. (CP). Diário da República, Série I-A de 1992-06-20, v. 140/1992, p. 2905.
  4. «BE quer obras em ramal ferroviário encerrado». Jornal de Notícias. 123 (220). Controlinveste Media SGPS, S. A. 7 de Janeiro de 2011. p. 19. ISSN 0874-1352
  5. FRANKLIN, Agostinho (27 de Maio de 2011). «Ramal entre Figueira da Foz e Pampilhosa "pode ser rentável"». As Beiras. Consultado em 26 de Maio de 2012
  6. «PNR defende ramal ferroviário da Pampilhosa». Correio da Manhã. 4 de Setembro de 2011. Consultado em 26 de Maio de 2012
  7. «Ramal ferroviário Pampilhosa-Figueira da Foz debateu-se em Mira». Notícias Ribeirinhas. 30 de Setembro de 2011. Consultado em 26 de Maio de 2012[ligação inativa]
  8. «Ramal da Figueira da Foz – Esclarecimento». REFER. 14 de Janeiro de 2009. Consultado em 16 de Janeiro de 2020
  9. Cipriano, Carlos (15 de Janeiro de 2009). «Refer promete modernizar a linha Figueira da Foz-Pampilhosa mas não aponta prazos». Público. Consultado em 16 de Janeiro de 2020
  10. Fonseca, Carina (6 de Janeiro de 2009). «Ramal Figueira da Foz/Pampilhosa causa polémica». Jornal de Notícias. Consultado em 16 de Janeiro de 2020
  11. Cipriano, Carlos (8 de Julho de 2010). «Refer trava a fundo e reduz investimento de 800 para apenas 200 milhões de euros». Público. Consultado em 16 de Janeiro de 2020
  12. Cipriano, Carlos (16 de Outubro de 2009). «Linha Figueira da Foz-Pampilhosa fechou em Janeiro e ainda não entrou em obras». Público. Consultado em 16 de Janeiro de 2020
  13. «Autarquia de Cantanhede não abdica da reabertura do ramal da Pampilhosa». Porto Canal. 27 de Dezembro de 2013. Consultado em 16 de Janeiro de 2020
  14. MADEIRA, Paulo Miguel (17 de Dezembro de 2011). «CP encerra linhas do Leste e Beja-Funcheira a 1 de Janeiro». Público. Consultado em 18 de Dezembro de 2011
  15. CIPRIANO, Carlos (29 de Março de 2013). «Refer levanta carris na linha Figueira-Pampilhosa que valem 960 mil euros. Autarcas da zona protestam». Público. Consultado em 18 de Abril de 2013
  16. «Transportes: Reabertura de ramal ferroviário entre Pampilhosa e Figueira da Foz defendido em debate público». SIC Notícias. 26 de Maio de 2011. Consultado em 26 de Maio de 2012[ligação inativa]
  17. Arroteia, p. 23
  18. BRAZÃO, Carlos (1992). «CP Automotor». Madrid: Resistor, S. A. Maquetren (em espanhol). 2 (8). 29 páginas
  19. ARROTEIA, p. 24
  20. ARROTEIA, p. 52, 53
  21. ARROTEIA, p. 43
  22. «Cronologia». Comboios de Portugal. Consultado em 25 de Maio de 2012
  23. André Jegundo: “Municípios querem garantias de que o ramal Pampilhosa-Figueira da Foz vai reabrirPúblico (2010.01.20)
  24. 58.º Aditamento à Instrução de Exploração Técnica N.º 50. IMTT, 2012.03.03. («Distribuída pelo 58.º aditamento»)

Bibliografia

ARROTEIA, Jorge Carvalho (1985). Figueira da Foz. A Cidade e o Mar. Coimbra: Ministério da Administração Interna - Comissão de Coordenação da Região Centro. 113 páginas

Ligações externas


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